MANUAL DE EXPRESSO ORAL E ESCRITA
J. MATTOSO CAMARA JR.

4 Edio

PETRPOLIS

EDITORA VOZES LTDA.

1977


























































FICHA CATALOGRFICA

(Preparada pelo Centro de Catalogao-na-fonte do
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ)

Camara Jnior, Joaquim Mattoso, 1904-1970.
C1731  Manual de expresso oral e escrita /por/ J.
Mattoso Camara Jr. 4.ed. Petrpolis, Vozes, 1977.
160p.

1. Comunicao oral  2. Linguagem e lnguas
I.Ttulo.

CDD - 001.543
      001.543
      400
CDU - 800.852
      800.855

77-0482
















































Sumrio
Explicao Prvia .......................................... 7
Nota para a 4 edio ...................................... 9

Captulo I - A Boa Linguagem .............................. 11

         I. A Importncia da Boa Linguagem ....................1l
     II. Lngua Oral e Lngua Escrita ..................... 15

Captulo II - A Elocuo: Funo Expressiva ............... 18

        I. O Tom e seu Valor Expressivo ..................... 18
   II. A Mmica ......................................... 21

Captulo III - A Elocuo: Funo Articulatria ........... 27

        I. A Articulao em geral ........................... 27
   II. A Acentuao ..................................... 33

Captulo IV - A Elocuo: Funo Rtmica .................. 35

        I. O Jogo das Pausas ................................ 35
     II. As Pausas e as Partculas Proclticas ............ 40

Captulo V - A Exposio Oral ............................. 44

        I. Consideraes Gerais ............................. 44
     II. O Plano da Exposio ............................. 45
  III. Os Prolegmenos da Exposio ..................... 50

Captulo VI - A Exposio Escrita ......................... 54

        I. Caracterizao ................................... 54
   II. A Redao ........................................ 58

Captulo VII - O Plano de uma Redao ..................... 61

        I. Consideraes .. .. .............................. 61
     II. As Pesquisas e a Bibliografia .................... 63
    III. A Redao Definitiva ............................. 66
 \5



























Captulo VIII - A Estrutura da Frase ....................... 69

        I. A Constituio dos Perodos ....................... 69
   II. A Anlise Lgica .................................. 74

Captulo IX - A Ortografia ................................. 77

        I. Consideraes Gerais .............................. 77
     II. Linhas Gerais da nossa Ortografia ................. 79
  III. Acentuao Grfica ................................ 83

Captulo X - A Correo da Linguagem ....................... 88

        I. Conceito de Correo . ............................ 88
   II. As Discordncias do Uso ........................... 91

Captulo XI - A Correo nas Formas Nominais ............... 94

        I. Plural dos Nomes .................................. 94
     II. Gnero dos Nomes .................................. 98

Captulo XII - A Correo nas Formas Verbais .............. 102

Captulo XIII - A Correo nas Formas Pronominais ......... 109

        I. Pronomes Pessoais ................................. 109
     II. Tratamento ........................................ 112
    III. Os Demonstrativos ................................. 114

Captulo XIV - Concordncia e Regncia ..................... 116

        I. Concordncia ...................................... ll6
     II. Invariabilidade ................................... 119
    III. A Regncia ........................................ 121

Captulo XV - Exame de algumas supostas Incorrees ........ 123

        I. Purismo e Estrangeirismo .......................... 123
     II. A Rigidez Gramatical .............................. 127

Captulo XVI - A Escolha das Palavras ...................... 132

        I. Consideraes Gerais .............................. l32
     II. Os Sinnimos .... .... ... . ...................... l33
    III. Outros aspectos na Escolha das Palavras ........... 137

Captulo XVII - A Linguagem Figurada ....................... 141

        I. Caracterizao ......... .......................... 141
     II. Uso da Linguagem Figurada ......................... l43

Captulo XVIII - A Clareza e seus vrios Aspectos .......... 148

Concluso Geral ............................................ 155
 \6













Explicao Prvia

        Esta despretensiosa obra teve sua origem num curso sobre 
"Expresso Oral e Escrita", que por anos consecutivos ministrei aos
Oficiais-Alunos da Escola de Comando e Estado Maior da Aeronutica 
a convite da sua Direo. Fiz a princpio "smulas", que mais
tarde ampliei num pequeno MANUAL, impresso em multilite na Escola 
para uso privativo dos Oficiais-Alunos. Posteriormente, as aulas
contidas no MANUAL foram utilizadas para o ensino de Portugus na
Escola Naval por iniciativa do ilustre professor Hamilton Elia; e as
cinco primeiras foram insertas em nmeros salteados da REVISTA
DE CULTURA, a benemrita publicao cultural do saudoso Cnego
Toms Fontes. Entretanto, muitos colegas e amigos vinham insistindo 
em que eu desse ao trabalho a ampla divulgao de um livro
ao alcance do pblico ledor em geral. Deixei-me vencer, e fao-o
agora na esperana de ser com isso til aos que necessitam de 
escrever ou falar em pblico por injunes da sua vida profissional.

Rio,1961.
 \7
















































Nota para a 4 edio

        As trs primeiras edies foram feitas pela J. Ozon-Editor,
Rio de Janeiro (1961, 1964 e 1972).
Estando esgotada a obra e caduco o contrato, Dona Maria 
Irene Ramos Camara, viva de Joaquim Mattoso Camara Jr., nos
ofereceu o lanamento dessa nova edio do <Manual de Expresso
Oral e Escrita>.

As obras do Mestre Mattoso Gamara - pai da Lingstica no
Brasil -, ao contrrio de outras, quanto mais envelhecem, mais 
nelas se acentua o carter clssico e a necessidade de consulta. 
Mattoso Camara (falecido em 4-2-1970) ainda continua o nosso maior
lingista.

Desse livro, escreveu em 1976 o Prof. Anthony Naro, professor
dos cursos de ps-graduao em Lingstica da PUC/Rio e UFRJ:
"Elocuo, exposio, composio, estrutura da frase, ortografia, 
correo de uso, purismo, escolha vocabular e linguagem figurada so
temas abordados nesse manual de estilo. Cada captulo abrange uma
apresentao terica do tema seguida de exemplos ilustrativos. Como 
um guia prtico para o uso da lngua ele  conciso, mas apresenta 
uma introduo equilibrada dos problemas referentes  clareza
na expresso oral ou escrita, especialmente destinado para um 
pblico no especializado. Em toda a obra, Mattoso mantm-se numa
posio de equilbrio entre o purista, para quem a lngua literria
 o nico modelo aceitvel, e o ponto de vista de muitos lingistas
para quem o uso s  definido pelo que ocorre no discurso. Para
Mattoso, a finalidade da lngua  a comunicao, de modo que a
preocupao primordial deve ser evitar qualquer distrbio no 
processo de comunicao" (<Tendncias Atuais da Lingstica e da 
Filologia no Brasil>, Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro 1976,
p.145). 

        Ao reeditar este livro, a Editora VOZES tem a certeza de estar
recolocando nas mos de professores e alunos e de quantos cultivam
a Lngua Portuguesa o ainda melhor manual de expresso oral e
escrita.

CLARNCIO NEOTTI
agosto de 1977
 \9

Captulo I

A BOA LINGUAGEM

I. A IMPORTNCIA DA BOA LINGUAGEM

1. A linguagem e a vida social

	Tem-se discutido muito sobre as funes essenciais da
linguagem humana e a hierarquia natural que h entre elas.
 fcil observar, por exemplo, que  pela posse e pelo uso
da linguagem, falando oralmente ao prximo ou mentalmente
a ns mesmos, que conseguimos organizar o nosso pensamento
e torn-lo articulado, concatenado e ntido;  assim
que, nas crianas, a partir do momento em que, rigorosamente,
adquirem o manejo da lngua dos adultos e deixam para
trs o balbucio e a expresso fragmentada e difusa, surge
um novo e repentino vigor de raciocnio, que no s decorre
do desenvolvimento do crebro, mas tambm da circunstncia
de que o indivduo dispe agora da lngua materna, a
servio de todo o seu trabalho de atividade mental. Se se
inicia e desenvolve o estudo metdico dos caracteres e aplicaes
desse novo e preciso instrumento, vai, concomitantemente,
aperfeioando-se a capacidade de pensar, da mesma sorte
que se aperfeioa o operrio com o domnio e o conhecimento
seguro das ferramentas da sua profisso. E  este,
e no o outro, antes de tudo, o essencial proveito de tal
ensino.
	Observe-se ainda, por outro lado, que  quase exclusivamente
pela linguagem que nos comunicamos uns com os outros
na vida social. Pode-se dizer que a sociedade humana,
em confronto com os aspectos rudimentares das colnias
dos animais gregrios, , na sua tremenda complexidade,
uma conseqncia da posse da linguagem. Dela depende
a permuta das idias, como a das mercadorias pressupe,
 \11

































para ser eficiente e irrestrita, um servio organizado de
trfego.
	Assim, deixando de parte outras muitas funes da linguagem
na vida humana, podemos fixar-nos nestas duas
primaciais e incontestveis:

	a) possibilitar o pensamento em seu sentido lato;
	b) permitir a comunicao ampla do pensamento assim elaborado.


	2. A linguagem tem de ser boa

	A conseqncia inevitvel dessas duas verdades  que
cada um de ns tem de saber usar uma boa linguagem para
desempenhar o seu papel de indivduo humano e de membro
de uma sociedade humana. No se pode admitir que um
instrumento to essencial seja mal conhecido e mal manejado;
mal utiliz-lo  colocarmo-nos na categoria dos operrios
que so canhestros e insipientes no exerccio de sua
profisso. Tal categoria tem, por princpio, de ser elimina-
da : ningum tem o direito de conformar-se em ser esse
tipo de operrio, nem a fbrica social se pode dar ao luxo
de aceit-lo complacentemente em seu seio.
	, entretanto, a atitude implcita dos que fazem praa
de no se preocuparem com questes de linguagem. H
quem assim se desculpe, quando o que diz ou escreve produz
um resultado contraproducente: homem de atividade
prtica, sem aspiraes oratrias ou literrias, quer agir
bem, e no falar bem. Ora, a simples circunstncia do
resultado contraproducente prova que h qualquer coisa
fundamentalmente errada no princpio incluso na suposta
justificativa.
	<O erro est, a rigor, numa confuso de idias>.
	A linguagem tem uma funo prtica imprescindvel na
vida humana e social; mas, como muitas outras criaes do
homem, pode ser transformada em <arte>, isto , numa fonte
de mero gozo do esprito. Passa-se, com isto, a um plano 
diverso daquele da vida diria. So duas coisas distintas o 
aspecto prtico e o aspecto artstico da linguagem. Neste ela
vem a constituir a literatura e deve ser boa no sentido de
 \12



























produzir em ns um alto prazer espiritual ou gozo esttico.
 uma excelncia em sentido estrito, que no cabe confundir
com o sentido amplo - qual se consubstancia na boa
formulao e na boa comunicao do pensamento.
	Apressemo-nos a ressalvar, porm, que <o sentimento
artstico  espontneo e inerente nos homens e que, para
ser eficiente, a linguagem tem de satisfaz-lo e no apenas
se cingir a uma formulao seca, objetiva e fria>. Assim,
em toda boa exposio lingstica entra, a bem dizer, um tal
ou qual elemento literrio.
	, at certo ponto, da resultante a circunstncia de
que se cria em toda sociedade um ideal lingstico, por
que temos de pautar-nos para as nossas palavras no 
provocarem uma repulso, s vezes latente e mal perceptvel,
mas sempre suficiente para prejudicar-lhes o efeito.
	Essas consideraes nos possibilitam precisar melhor o
conceito de boa linguagem em seu sentido lato. Vemo-la j
agora por suas trs faces. Uma  a adequao ao assunto
pensado; outra, certo predicado esttico que nos convida a
encarar com boa vontade o pensamento exposto; a terceira,
enfim, uma adaptao inteligente e sutil ao ideal lingistico
coletivo, o que importa no problema da correo gramatical
em seu sentido estrito.
	No so trs aspectos equivalentes, e muito menos 
substituvel um pelos outros.  claro que a nitidez e o
rigor da expresso do pensamento, ou, em outros termos,
a preciso lgica da exposio lingstica tem a primazia
sobre tudo mais. A ela se adjunge, como elemento de atrao,
a qualidade que empolga ou seduz, predispondo a razo
a se fixar no que lhe  exposto e a se deixar convencer;
ou seja, o efeito retrico em ltima anlise. Finalmente, o
cuidado da correo gramatical evita que se afronte um 
sentimento lingstico enraizado, que o mais das vezes tem uma
motivao profunda, mas deve ser atendido mesmo quando
decorre de meras convenes mais ou menos arbitrrias.


	3. A composio

	A preciso lgica da exposio lingstica importa, antes
de tudo, no problema da composio, que consiste
 \13


























em bem ajustar e concatenar os pensamentos. O prprio
raciocnio ainda no exteriorizado depende disso para
desenvolver-se.
	Alm de nos fazermos entender pelos outros, temos de
nos entender a ns mesmos, e  neste sentido que tem 
cabida a frase do velho poeta francs - "o que  bem concebido
se enuncia claramente" (Boileau, <Art Potique>, I, 153).


	4. A forma

	O efeito retrico e a correo gramatical, por sua vez,
constituem o que se costuma chamar a forma de uma exposio.
No resumem em si a boa linguagem, como erroneamente
se admite s vezes, mas apenas concorrem para ela. 
	No so, por outro lado, coisas rigidamente assentes e 
fixadas. Variam em grau bastante lato na adaptao da 
exposio lingstica ao ambiente social a que se destina. E, 
como um ambiente desses envolve aspectos peculiarssimos, a 
forma, segundo as circunstncias,  cambiante e diversa. A
sua parte mais ou menos fixa  a que corresponde  adequao
da linguagem  personalidade do prprio expositor.
Consideremos, neste sentido, um caso particular: os 
oficiais graduados da nossa Fora Area, digamos. O que dizem
ou escrevem est ligado a esse <status> social. Tm, por suas
prprias funes, de se dirigir a meios civis e a meios militares.
O problema da adequao da exposio  personalidade
do expositor consiste, em ltima anlise, em saber o que esperam
de um oficial graduado, investido de uma tarefa ou
um comando, aqueles a quem ele se dirige. Podemos dizer,
numa resposta indireta, que pelo menos no se esperam duas coisas:

	a) que fale ou escreva aqum do ndice do seu <status> social;
	b) que se exprima como um literato, isto , como algum
         que "faz arte" em matria de linguagem.

	A condio prevista no item b no deve ser esquecida
no que concerne  forma da exposio. O efeito retrico e
o escrpulo de correo gramatical, se excessivos, do uma
impresso de "literatura", totalmente descabida no nosso
 \14



























caso concreto : a forma pode ser boa, considerada em si
mesma; mas a linguagem da exposio se tornou inegavelmente
mente m.
	Afora esta ressalva, a obedincia, em princpio, s regras
gramaticais firmes e vigentes na comunidade lingstica
impe-se por trs motivos. Em primeiro lugar, elas 
consubstanciam as concluses de vrias geraes de homens que
se especializaram em estudar a lngua e em observar a sua
ao e os seus efeitos no intercmbio social. Muitas normas
e convenes de gramtica representam uma experincia
longa e coletiva em matria de expresso lingstica, e acat-las
 seguir uma estrada batida e correr menos riscos, mesmo
no mbito da lgica da formulao. Em segundo lugar,
acham-se apoiadas por um consenso geral e atravs delas
se facilita a projeo de nossas idias e a aceitao do que
assim dizemos. Finalmente, estranho como parea,  perfeitamente
lcito afirmar que uma atitude de independncia em face
de regras gramaticais cabe de direito aos literatos,
antes que aos que usam a lngua com objetivo prtico. Do
literato espera-se uma viso pessoal em questes de forma
lingstica, j que a lngua  a sua preocupao primria e
a matria-prima de sua arte. No nos devem surpreender
da parte dele solues novas e efeitos inesperados; umas e
outros, ao contrrio, s podem causar estranheza e 
desconfiana nas condies comuns da vida social, e, na melhor
das hipteses, desviam para a forma lingstica a ateno
que se deveria concentrar no assunto concreto exposto.


II. LNGUA ORAL E LNGUA ESCRITA

	l. Importncia da distino

	As consideraes feitas at agora sobre a linguagem
abstraram dela uma circunstncia essencial: a de que pode
ser falada ou escrita, e h assim dois tipos distintos
da exposio lingstica. De maneira geral, podemos dizer
que a primeira se comunica pelo ouvido, e a segunda pela
viso. Ou em outros termos: na comunicao escrita,
os sons que essencialmente constituem a linguagem humana
passam a ser apenas evocados mentalmente por meio de
smbolos grficos.
 \15

























	A civilizao deu uma importncia	extraordinria 
escrita e, muitas vezes, quando nos referimos  linguagem,
s pensamos nesse seu aspecto.  preciso no perder de
vista, porm, que lhe h ao lado, mais antiga, mais bsica,
uma expresso oral.
	O uso da palavra falada, nas mais diversas condies,
em meios civis ou militares  uma contingncia permanente
de um oficial graduado, ampliada ainda mais no mundo
contemporneo com	o desenvolvimento	das comunicaes
radiofnicas.
	A rigor, a linguagem escrita no passa de um sucedneo,
de um <ersatz> da fala. Esta  que abrange a comunicao
lingstica	em sua totalidade, pressupondo, alm da
significao dos vocbulos e das frases, o timbre da voz, a
entoao, os elementos subsidirios da mmica, incluindo-se
a o jogo fisionmico. Por isso, para bem se compreender
a natureza e o funcionamento da linguagem humana,  preciso
partir da apreciao da linguagem	oral e examinar
em seguida a escrita como uma espcie de linguagem 
mutilada, cuja eficincia depende da maneira por que 
conseguimos obviar  falta inevitvel de determinados 
elementos expressivos.


	2. Traos caractersticos da exposio oral

	 claro que o grande nmero de traos caractersticos
da exposio oral, ausentes na escrita, impe o dever de
bem utiliz-los, para que a linguagem seja boa: quem fala
em pblico tem de atentar para o timbre da voz, para a
altura da emisso vocal, para o complexo fenmeno que
se chama entoao das frases, bem como saber jogar,
adequadamente, com gestos do corpo, dos braos, das mos
e da fisionomia. H a uma enorme riqueza de recursos,
que facilitam extraordinariamente a comunicao lingstica,
quando so bem empregados; mas, como toda riqueza,
se podem transformar em pesadelo e danao.
	E ainda acrescem outros problemas.
	Um deles  o que est ligado aos fenmenos psquicos
de simpatia e antipatia entre os homens em contacto
direto. Outro  o de prender a ateno, cuja tendncia
 \16


























natural  no se conservar permanente e contnua e
s assim se torna em virtude de uma mestria especial
do expositor em lidar com os ouvintes. Finalmente, h a
questo da boa apreenso das nossas palavras, envolvendo
um ajustamento delicado da sua enunciao e at da sua
escolha, sob o aspecto acstico, em vista das condies do
auditrio.


	3. Traos caractersticos da exposio escrita

	A exposio escrita pode parecer mais simples, dada
a falta desse complexo conjunto de elementos. A realidade,
porm,  que eles tm de ser substitudos por uma
srie de outros, cujo conhecimento e manuseio exigem
estudo e experincia. Grande nmero de regras e orientaes
gramaticais decorre das exigncias da lngua escrita
para a comunicao ser plenamente eficiente na ausncia
forada de muitos recursos, que complementam e at 
consubstanciam a linguagem oral.
	Escrever bem resulta de uma tcnica elaborada, que
tem de ser cuidadosamente adquirida. Depende, em muito
menor grau do que falar bem, das qualidades naturais do
indivduo, do seu "jeito", enfim, em saber exprimir-se.


	4. Concluso

	As consideraes desenvolvidas neste captulo tm por
fim estabelecer um ponto de partida para o que vamos estudar.
Uma vez compreendida a importncia da boa linguagem
e o verdadeiro sentido de tal afirmao, podemos
apreci-la nos seus dois tipos distintos, que criam distintos
tipos de exposio: o oral e o escrito.
 \17

Captulo II

A ELOCUO: FUNO EXPRESSIVA

I. O TOM DE SEU VALOR EXPRESSIVO

	l. Definio da elocuo

	Na exposio oral, as nossas palavras so enunciadas
diante de um auditrio. Os sons vocais projetam-se de quem
fala para quem ouve.  esta projeo dos sons vocais que se
chama elocuo.
	Trata-se, evidentemente, de um conceito complexo.
	H, em primeiro lugar, a parte da articulao, que 
o conjunto de movimentos na garganta e no interior da
boca por meio dos quais enunciamos os sons da linguagem.
 claro que precisam ser firmes e ntidos para a
inteligibilidade acstica. Da articulao depende a 
compreenso das palavras, e, se defeituosa, se torna to 
prejudicial, para quem fala, como uma letra ilegvel para 
quem escreve.
	Alm disso, na elocuo, as palavras formam grupos
significativos, em disposio, por assim dizer, hierrquica.
Raramente uma palavra vale por si: tem de ser associada
sem soluo de continuidade, com outra ou outras num
pequeno conjunto, que se projeta ao lado do anterior e
do seguinte como uma unidade de sentido parcial embora.
Duas ou mais dessas unidades, por sua vez, se associam e
assim por diante, at se chegar a um complexo de significao
ampla. Isso importa em todo um jogo de cadncias e
de pausas, que permite ao auditrio acompanhar <pari passu>
o expositor.  a parte rtmica da elocuo, mediante a qual
se mantm entre quem fala e os que o ouvem um movimento
mental sincronizado.
 \18


































	Finalmente, temos o tom ou inflexo da voz. Ele valoriza
as palavras, d-lhes no raro matizes especiais de significao
e reflete o estado de esprito de quem fala: Assim,
corrobora a significao, ao mesmo tempo que faz o auditrio
sentir como tomamos a peito as nossas prprias palavras.


	2. Qualidades do tom


	A articulao e o ritmo de cadncias e pausas sero
apreciados em captulos separados. Aqui trataremos da parte
da elocuo que se consubstancia no tom da voz.
	Por este nome entendemos um jogo de altura e fora
de emisso nos sons da fala. Fora e altura dependem
primariamente de certas condies materiais, como a distncia
entre o expositor e os ouvintes, as dimenses e a
forma do recinto e a quietude ou a maior ou menor agitao(1)
que h em volta dele. Instintivamente o expositor aumenta
ou diminui o volume e a elevao da voz de acordo
com o ambiente assim constitudo; mas h quem tende para
a emisso excessivamente forte e alta pela simples circunstncia
de estar falando em pblico a um grupo numeroso de
pessoas. O resultado  prejudicial: o expositor se cansa sem
necessidade, e, o que  muito pior, cansa e enerva os ouvintes,
que sentem a desproporo entre essa voz e as condies
ambientes.
	O mais importante, porm, em matria de tom de voz,
no  o seu ajustamento  situao externa, mas a possibilidade
de vari-lo a servio da expresso do pensamento. Um
tom nico  to inadequado  comunicao oral que montono
se tornou sinnimo de enfadonho.
	 assim que o tom deve crescer ao pronunciarmos palavras
de grande importncia na frase (nfase), adquirir
esta modulao em outras a cujo sentido queremos emprestar
um matiz inesperado e um tanto fora da acepo usual,
e, ainda, variar para exprimir as mudanas necessrias do 
estado de esprito do expositor, subordinado  natureza dos
pensamentos que enuncia e em que se deve mostrar profundamente
integrado.

(1) Entropia
 \19


























	Assim se estabelece uma comunho entre o expositor
e o auditrio. Tudo que dizemos deve ter uma inteno. O
tom a assinala e esclarece melhor a significao das palavras
no contexto.


	3. Defeitos do tom

	Os defeitos do tom desta sorte compreendido decorrem
todos, a bem dizer, da circunstncia de consider-lo o expositor
um elemento  parte da significao profunda das palavras.
Imagina, por isso, uma espcie de tom oratrio, que
se adiciona  exposio de fora para dentro.
	J vimos que a monotonia  artificial e contraproducente.
Ressaltemos agora que ainda mais se agrava nos	seguintes casos:
	
	a) se  mecnica e sem vibrao, como uma litania
	   maquinalmente recitada;
	b) se  de um entusiasmo retumbante e descabido,
	   dando a impresso de um ator que decorou sem 
	   inteligncia o seu papel;
	c) se  de um <laisser-aller> sistemtico, traindo um 
	   esforo artificial por parte do expositor para mostrar
	   que se sente  vontade.

	Por outro lado, o uso da nfase  coisa muito delicada.
 contraproducente acentuar assim palavras cuja importncia
no seja realmente enorme. Ainda mais perigoso
para o efeito geral da exposio  pr nfase
indiscriminadamente em vocbulos acessrios de ligao, depois
dos quais se faz pausa a fim de chamar a ateno para a
palavra que se lhe segue, como as conjunes <mas, e, porque>.
Partculas destas so normalmente de emisso fraca,
e s em condies muito especiais, quando excepcionalmente
 preciso valorizar as prprias idias de contrastes, de 
conexo, de explicao,  que tem cabimento a uma tal ou
qual nfase.


	4. A funo do tom

	O tom, por conseguinte, tem por funo valorizar 
determinadas palavras, precisando-as melhor, indicar como
 \20
























devemos receb-las do expositor e revelar toda uma gama
de sentimentos deste em referncia ao que nos diz.
	 tal a sua importncia na linguagem, que, na lngua
escrita, onde ele no pode figurar, temos de recri-lo na
leitura mesmo mental, para podermos apreciar e at 
compreender o texto. A leitura em voz alta na escola primria
tem principalmente por fim dar-nos a capacidade de 
espontaneamente emprestar o tom adequado s palavras 
escritas que temos diante de ns e sem o qual elas ficam
irremediavelmente mutiladas.


II. A MMICA

	l. Funo expressiva da mmica

	No  apenas o tom o elemento que contribui 
primordialmente na linguagem falada para expressividade das
palavras. A seu lado, funciona, espontaneamente, um jogo
fisionmico, acrescido de movimentos dos braos e das mos
e at de um movimento do corpo:  o que se entende 
englobadamente pelo termo <mmica>.
	No se trata, a bem dizer, de um acessrio da comunicao
oral, mas de uma parte integrante dela. Deste ponto
de vista, podemos dizer que o corpo humano em seu
conjunto  capaz de uma linguagem significativa, que serve
de complemento ao ato de falar. Compreende-se mais 
facilmente a importncia e o valor expressivo da mmica,
quando se atenta na circunstncia de que s com ela os
surdos-mudos conseguem exteriorizar de maneira bastante
satisfatria as suas volies e os seus pensamentos. H at
teoristas que sustentam a tese da existncia pr-histrica
de uma exclusiva linguagem de gestos, antes do remoto
passado da humanidade, em que afinal se estabeleceu uma
linguagem de sons bucais;  uma hiptese muito discutvel
- no h dvida - mas parte do fato inegvel de que a
mmica ainda hoje  acompanhamento imprescindvel da
comunicao oral e desempenha o que podemos chamar,
como o psiclogo alemo Witte, uma "funo precisadora"
da palavra.(3)

(3) Apud Friedrich Kainz, Psychologie the Sprache; 
    Vol. II; p.498, Stuttgart l943.
 \21
























	Falar imvel e com a fisionomia inalterada  atitude
inteiramente artificial e dificlima seno praticamente
impossvel.
	Isto nos impe naturalmente o dever de levar os gestos
em conta para deles se tirar todo o recurso cabvel.
Obriga-nos, igualmente, a eliminar todos aqueles que no
se justificam pelo seu valor expressivo.


	2. Como se divide a mmica

	Distinguem-se trs aspectos essenciais nessa linguagem
complementar de gestos.
	Em primeiro lugar, temos o jogo fisionmico: volver
os olhos, elevao ou contrao das sobrancelhas, movimentos
da boca e dos lbios. Em segundo lugar, h os movimentos
de mos, de braos e cabea. Finalmente, tambm
funcionam o busto e at o corpo todo pela locomoo
diante do auditrio.
	Os trs tipos de mmica no constituem, porm, 
elementos distintos e dissociados. Integram-se entre si para
corroborar a elocuo. Da, a frase dos psiclogos norte-
americanos Pillsbury e Meader: "A ao est intimamente
ligada ao pensar e ao sentir... Cada idia desemboca 
naturalmente num movimento" (<The Psychology of Language>,
1928, p.9).
	No constituem, por outro lado, aspectos do mesmo
volume e da mesma importncia. O jogo fisionmico  que
est mais integrado com a enunciao das palavras. 
Seguem-se-lhe em aderncia  fala os movimentos de mos,
braos e cabea. A locomoo do corpo no  a rigor
essencial, pois podemos fazer uma exposio vigorosamente
expressiva sentados ou parados, de p, por trs de uma
tribuna.
	Todos esses trs elementos mmicos devem, entretanto,
ser utilizados pelo expositor para um <optimum> de desempenho
da sua tarefa. E o devem ser de maneira segura e consciente.


	3. Defeitos da mmica

	Os gestos expressivos sofrem um prejuzo grave, quando
coexistem a seu lado outros imotivados pela comunicao
 \22
























oral e apenas decorrentes de hbitos gesticulatrios,
que se manifestam mecanicamente de maneira repetida ou
prolongada. Muita gente tem permanentemente estes hbitos,
ou passa a realiz-los, sem sentir, no momento em que
se v diante de um auditrio.
	O inconveniente  trplice.
	Antes de tudo, impedem, ou pelo menos embaraam,
a mmica verdadeiramente expressiva, que no se pode
executar, ou se executa mal, por causa deles.  um resultado
falho e at desastroso, comparvel, no mbito da elocuo,
quele a que chega o indivduo que fala com a boca
cheia e articula os sons da linguagem ao mesmo tempo que
mastiga e deglute um alimento.
	Alm disso, concorrem para distrair os ouvintes. A 
ateno se fixa no gesto mecnico e assim se desvia das palavras
que ouve; e fixa-se com tanto mais facilidade quando
a falta de propsito do gesto enerva o auditrio e o faz
instintivamente recrear-lhe a repetio. Os professores Brigance
e Immel contam-nos a respeito a histria de uma senhora
que segredava ao marido ao assistir a uma conferncia
em que o orador brincava com o relgio e j o pusera
em doze ou quinze lugares diferentes da mesa - "Se ele
ainda mexer naquele relgio, eu grito"; "ela no gritou
mas tambm no ouviu o que o orador dizia; estava na
expectativa do relgio mudar novamente de posio".(3)
	Finalmente, h o prejuzo de insensivelmente se atribuir
ao gesto inexpressivo e mecnico uma inteno que ele
no tem. Neste caso, estabelece perplexidade no auditrio,
porque no se atina com uma interpretao satisfatria,
e, muitas vezes at, cria-se uma franca sensao de ridculo
pela discordncia entre a ao que se v e a palavra
que se ouve.
	 de toda a vantagem lembrar aqui alguns tipos muito
comuns destes cacoetes. H, por exemplo, o vezo de brincar
distraidamente, enquanto se fala, com uma pea do prprio
vesturio ou com um objeto que se acha na tribuna ou na mesa.
Inconvenientes anlogos decorrem de movimentos descontrolados
com as mos: enfi-las nos bolsos, esfreg-las uma
na outra, passar freqentemente uma delas pelo queixo,
pela nuca, pela cabea. Ainda pior  puxar as mangas do

(3) Speech for Military Service, New York 1944.
 \23

























casaco, ajust-lo a cada momento ou ajeitar a gravata, 
sugestionando os ouvintes no sentido de que eles tm diante
de si algum que no est  vontade e se comporta "como
se o incomodasse a roupa do corpo",  maneira daquele
colegial "bugre e de m cara" que nos descreve satiricamente
Raul Pompia n'<O Ateneu>. No menos desagradvel  vermos
um orador a passear nervosamente de um lado para 
outro, tomando at posies de vis ou quase de costas em
relao ao auditrio, com dano evidente para a boa projeo
de suas palavras. Igualmente perturbadora  a tendncia
de certos oradores a fitarem distraidamente uma janela
ou um ponto qualquer do recinto, privando os olhos da
sua funo expressiva e induzindo os ouvintes a tambm
voltarem os seus para aquele lado, sob a impresso vaga
de que se passa ali qualquer coisa de anormal.


	4. A boa mmica

	 evidentemente mais fcil enumerar os defeitos da 
mmica do que ensinar minuciosamente a mmica expressiva
e boa. No pode haver no caso um formulrio para ser
aprendido maquinalmente. A condio precpua  a integrao
de todo o nosso organismo naquilo que enunciamos;
da decorre um princpio geral: evitar todo gesto que no
sentimos espontaneamente associado com o teor da frase.
	A cor vaga deste conselho  mais aparente do que real.
Torna-se ele preciso e ntido, se atentarmos em que a gesticulao
 uma natural atividade expressiva e possui elementos
de valor convencionalmente aceito, quase no mesmo grau
em que  convencionalmente aceito o sentido das palavras.
	Acompanhando as consideraes dos professores Brigance
e Immel (cit.), diremos que a mo aberta com a palma
para cima significa uma apresentao de ponto de vista;
com a palma para baixo, a inteno de frisar uma idia
com que o auditrio est concorde, mas sem se dar bem
conta da sua importncia. A mo fechada com o indicador
estendido na direo do auditrio revela a convico e o
propsito e insistncia numa afirmao aparentemente 
objetvel. O punho cerrado, num movimento de golpe no ar ou
sobre a mesa, exterioriza o empenho de lutar por uma 
 \24


























opinio em que h controvrsia mais ou menos acentuada. E
 escusado referirmo-nos a gestos ainda mais padronizados,
como os de afirmao e de negao, com o dedo indicador,
ou o uso dos dedos para enumerar.
	Em relao aos movimentos do corpo, um leve avano
para o auditrio traduz um sentimento de aproximao
psquica; um leve recuo, um passo preliminar para argumentar
contra maneiras de ver falsas, que sabemos bastante
generalizadas. Efeitos equivalentes tm os movimentos
do busto em posio parada, conforme ele vai ligeiramente
para a frente ou para trs.
	Os gestos de cabea e o jogo fisionmico, essencialmente
espontneo, so de mais fcil execuo;  quase bastante
que o expositor se deixe levar pelo prprio calor e sinceridade
de suas palavras. Sublinhamos apenas o valor da leve
distenso das comissuras dos lbios para mostrar intento
um tanto ou quanto humorstico em atenuar a crueza de 
determinada afirmao.


	5. O nervosismo

	De maneira geral, podemos dizer que a mmica defeituosa
como, por outro lado, o tom de voz insatisfatrio -
est ligada ao estado nervoso decorrente de falar em pblico.
Vencer esse nervosismo instintivo j  mais do que meio
caminho andado no sentido da mmica expressiva e boa.
	O auditrio sente, alis, a relao entre os cacoetes
gesticulatrios e o estado nervoso do expositor. Nem  um
inconveniente despiciendo de tais cacoetes o de assim 
indiretamente sugerirem que temos diante de ns na plataforma
um indivduo intimidado pela nossa presena ou pela
conscincia ntima de no estar seguro de sua capacidade;
porque num e noutro caso perdemos a simpatia ou a confiana
que ele nos deve despertar.
	Em si, entretanto, o estado nervoso  natural a at
benfico.
	Decorre de uma tenso geral do organismo, e  
estimulante.
 \25




























	 devido a ele que diante de um auditrio nos sentimos
mais inspirados do que entre as quatro paredes de
um gabinete de trabalho, e dizemos, muitas vezes, bem o
que tnhamos forcejado em vo para lanar satisfatoriamente
no papel.
	O estado nervoso tem, porm, de ser carreado para a
exposio, valorizando-a pela vibrao que lhe imprime. 
No pode extravasar-se paralelamente. Pior ainda, no pode
interferir com as palavras, provocando mmica contraditria
ou voz hesitante ou trmula. 
 \26

Captulo III

A ELOCUO: FUNO ARTICULATRIA


I. A ARTICULAO EM GERAL

	l. Objetivo estrito deste captulo

	J vimos no captulo II o que se entende por esta
parte da elocuo: conjunto de movimentos na garganta
e no interior da boca por meio dos quais enunciamos os
sons da linguagem. Vimos igualmente o que lhe d especial
importncia no funcionamento da comunicao oral:
a necessidade de uma ntida e espontnea inteligibilidade
acstica.
	Ora, o jogo articulatrio  praticamente automtico e
desenvolvido na base de uma aquisio, quase sempre 
insensvel e espontnea, que se verificou na infncia. Por
contingncia de sua prpria natureza e da natureza desse
primeiro aprendizado, tendem a nele se insinuar e radicar
hbitos defeituosos de movimento e posio dos rgos bucais.
A tcnica de correo ou ortopia  hoje complexa e
elaborada; fundamenta-se rigorosamente nas concluses a
que chegou um estudo de observao, em moldes cientficos,
chamado fontica, sobre o trabalho articulatrio e as suas
relaes com o efeito acstico correspondente.
	O nosso objetivo neste captulo no pode, nem deve,
evidentemente, ser um estudo cabal de fontica, ou sequer
de ortopia. Limitamo-nos aqui a chamar a ateno para
certos defeitos de articulao mais freqentes e prejudiciais,
como passo preliminar para serem corrigidos pelo esforo
prprio de quem os possui. Pois tomar conscincia de
um hbito mau, mecanicamente produzido, j  um progresso
no sentido da sua eliminao.
 \27

































	2. Os diversos tipos de defeitos articulatrios

	As palavras so constitudas de uma srie de sons 
elementares encadeados, que se distinguem entre si e cujo
nome tcnico  o de <fonemas>. A mero ttulo de comparao
apenas aproximada, podemos dizer que os fonemas so
os tijolos da construo das palavras. Caracterizam-se eles
por um pequeno nmero de movimentos articulatrios, 
imprimindo-lhes traos acsticos bem determinados, que nos
permitem identific-los. Em toda lngua, h certos contrastes
de fonemas, onde a diferena articulatria  muito pequena
e a possibilidade de omiti-la muito grande, com prejuzo
para a inteligibilidade da palavra. Tem-se assim um
primeiro tipo de defeitos articulatrios, quando por frouxido
e falta de nitidez dos movimentos bucais se leva o ouvinte
a no sentir bem o fonema e a confundi-lo com outro.
	Acresce que, em virtude daquele ideal lingstico, j
aqui referido no captulo I, cria-se espontaneamente em
toda lngua uma norma de pronncia, considerada a correta
e elegante. O fonema pode ser emitido defeituosamente
em virtude de desobedecer-se a essa norma, muito embora
compreendido sem maior confuso. H neste particular
duas espcies de perigo: de um lado, um esforo artificial
e exagerado de boa articulao, a que se d o nome de
hiperurbanismo; de outro lado, um desleixo e <laisser-aller>,
atravs do qual se insinua uma articulao frouxa e vulgar,
que afronta um auditrio culto e mesmo diante de qualquer
auditrio  tomado como ndice do <status> social do expositor.
	Finalmente, h certos hbitos articulatrios que so
prprios de uma determinada regio do pas e no coincidem
com a norma geral de pronncia. Revelam uma pronncia 
regional e deve-se procurar corrigi-los na medida
em que arriscam o expositor a provocar estranheza e at um
leve senso de ridculo diante de um auditrio extra-regional.
	Desses trs tipos de defeitos articulatrios, o mais 
relevante, e tambm relativamente fcil de ser eliminado por
um esforo pessoal,  o que determina confuses de fonemas. 
Segue-se-lhe em importncia, num conjunto que  verso e 
reverso, o hiperurbanismo e o vulgarismo, que prejudicam o 
prestgio imprescindvel ao expositor para fazer aceitar 
suas idias. A pronncia regional  a que menos inconvenientes
 \28


























oferece, desde que contra certos de seus traos no
haja um preconceito arraigado no resto do pas e que os 
ouvintes estejam a par da procedncia regional do expositor
e conheam mais ou menos esses traos para no se 
surpreenderem com eles. Estas duas ltimas condies impem,
quando no existem <a priori>, uma habilidade sempre possvel, 
qual a de aludir o expositor, <en passant>, ao seu rinco
natal e  sua conseqente maneira de falar.

	3. Distino dos parnimos

	Um dos grandes percalos da boa articulao  a existncia 
dos parnimos, isto , de palavras que apenas se 
distinguem por um ou dois de seus fonemas. Uma palavra
mal articulada pode ser entendida como sendo outra, parnima. 
O prprio indivduo que fala pode, subconscientemente, 
fazer uma troca articulatria, em virtude de falsa associao 
de idias s vezes, at, momentnea.
	Antes de tudo, portanto, cumpre, ao enunciar cada palavra, 
ter viva no esprito a sua constituio fnica, ou,
noutros termos, os seus fonemas e o encadeamento exato
que a apresentam.
	Merecem especial ateno os parnimos cuja diferena 
est no contraste das duas consoantes chamadas lquidas - /l/ e 
/r/ - contraste que ressalta pouco entre vogais e 
muito se se trata do segundo elemento de um grupo de 
duas consoantes. O /r/ , como o /l/, articulado com a
ponta da lngua junto aos dentes; mas exige uma vibrao
ou tremulao um tanto prolongada, que o distingue nitidamente 
da outra lquida. Corretamente enunciados, sente-se
entre pares como - fruir (gozar) e fluir (correr), fragrante
(cheiroso) e flagrante (em chamas ou de surpresa), franco
e flanco, grande e glande.


	4. Contrastes nos fonemas portugueses

	Sem pretenses maiores, pode-se mencionar aqui os 
contrastes, que, tpicos de certos fonemas portugueses,
propendem a desaparecer, com prejuzo da inteligibilidade, em 
determinadas posies na frase ou na palavra.
 \29


























	Tal  o caso do /l/ e do /r/ como segundo elemento de
um grupo de duas consoantes, a que se fez referncia algumas 
linhas acima.
	Neste mbito, convm citar outras distines, como as
seguintes:

	a) Contraste determinado pela vibrao das cordas vo-
	   cais na laringe ao enunciar a consoante (sonora),
	   o que a distingue de outra (surda), sem essa vibra	o, 
   	   mas em tudo mais de articulao praticamente igual:
	   sonoras:	- /b/ - /d/ - /g/ /v/ - /z/ - /j/;
	   surdas	- /p/ - /t/ - /c/ /f/ - /s/ - /x/.
	   Cf.: bote - pote; do - to; galo - calo; voz -
	   foz; zelo - selo;	j - x (ou ainda ch, pois ch
	   tambm representa /x/).
	   Em fim ou comeo de frase, uma enunciao desleixada
	   pode abafar ou anular a oposio imanente em cada um 
   	   desses pares de palavras.
	b) Contraste determinado pelo desdobramento do dorso
	   da lngua junto ao cu da boca, numa caracterizao 
	   da consoante (palatalizada) que a separa de
	   outra sem este	desdobramento:
	   palatalizada - /x/ - /j/ - /lh/ - /nh/.
	   no-palatalizada - /s/ - /z/ - /l/ - /n/.
	   Diante de um grupo tono de duas vogais em que
	   a primeira  /i/, a consoante no-palatalizada tende
	   a articular-se com aquele desdobramento e a omisso
	   do /i/; e, diante de /i/ tnico a palatalizada a perd-lo,
	   se no h um movimento da lngua rigoroso e
	   preciso. Da a pronncia defeituosa de palavras como
	   <vnia> (confundindo-se com <venha>), <moblia, 
	   companhia>. No caso do /x/ e do /i/, o defeito mais 
	   freqente  a omisso do /i/ que se lhe segue como
	   primeiro elemento de um grupo de duas vogais (cf.
	   neste sentido a m articulao de uma palavra como
	   colgio sem o /i/ da ltima slaba).
	c) Contraste entre /m/ e /n/, sons ambos nasais, isto
	   , com uma emisso de ar pelas fossas nasais em
	   complemento 	articulao bucal diversa. Se esta
	   ltima  frouxa, predomina o efeito nasal, comum
	   s duas consoantes, e a distino entre elas se esbate.
 \30


























	d) Contraste entre /l/ depois de vogal (mal, alto, vil)
	e /u/ na mesma posio (mau, auto, viu). Ambos
	os fonemas so pronunciados no fundo da boca, com
	uma elevao do dorso da lngua em direo ao
	vu palatino; mas a distino se baseia em trs traos.
	1 - no /u/ a lngua eleva-se muito menos do que
	no /l/; 2 - no /u/ h ao mesmo tempo um arredondamento 
	dos lbios; 3 - no /l/ h tambm uma ele	vao 
	da parte anterior da lngua, que para o /u/
	fica abaixada. Uma articulao precisa, que leva em
	conta estas condies, distingue os dois sons e impede 
	a confuso acstica.


	5. Contrastes artificiais


	O esforo para bem opor o fonema a outro parecido pode, 
por outro lado, conduzir a uma deformao articulatria.
	Assim, o contraste entre /l/ e /u/ depois de vogal no
deve ir ao ponto de se articular o /l/ depois de vogal exatamente 
como o /l/ antes de vogal. Salvo no extremo sul do
pas, esta pronncia indiferenciada soa anmala, e d a 
impresso de haver um ligeiro /i/ depois do /l/ final, de
maneira que uma palavra como <cal> quase se confunde com
<cale> ou <mel> com <mele>.
	 igualmente um artificialismo, que desagrada como
hiperurbanismo pedantesco, o af de dar na pronncia de
certas palavras o valor exato s letras que elas contm.
	Com efeito, em teoria, os fonemas so na escrita indicados 
por smbolos grficos privativos de cada um e chamados 
letras. Mas a apresentao escrita nem sempre  perfeita; 
e, por tudo isso, deve-se procurar sentir os fonemas
de uma palavra, em si mesmos, independentes das letras
com que ela se escreve.
	Guiar-se rigorosamente pela grafia importa em cair
muitas vezes no defeito da "pronncia alfabtica". O menor 
inconveniente  passarmos a ter duas pronncias para
a mesma palavra, conforme a usamos numa conversao
espontnea ou numa exposio formalizada. Da decorre, como 
inconveniente maior, uma impresso de atitude forada, 
que perturba a atmosfera de contacto espontneo entre
 \31


























o expositor e os ouvintes. Alm disso, desvia-se a ateno
destes para a excentricidade da pronncia. Finalmente, a
palavra pode tornar-se at menos imediatamente apreensvel.
	Os casos mais chocantes, entre ns, so os valores de
/e/ e /o/ dados s letras <e> e <o>, quando na realidade elas
representam, excepcionalmente, /i/ e /u/. A este respeito,
 til a leitura atenta dos nossos grandes poetas, que com
suas rimas nos indicam a boa pronncia.
	Assim :

	a) No se deve fazer diferena entre os finais tonos -eo
		e -io, ou -ea e -ia, pois a primeira vogal vale sempre
		/i/; por isso, rima Hermes Fontes <molstias, veste-as
		e rstias> (Apoteoses, 1908, p.19).
	b) Nas palavras proparoxtonas, com o acento na 3
	   slaba a contar do fim, a penltima slaba, que  tona, 
	   nunca tem a vogal /o/, e a letra correspondente
	   soa regularmente /u/. Da, as rimas <prola> e <gurula>
	   (Hermes Fontes, idem p.14), <prolas> e <crulas> (Castro 
	   Alves, Obras Completas, ed. Garnier, vol. II, p.38),
	   <dolo> e <estrdulo> (idem, p.39).
	c) Nas palavras paroxtonas, as <e> e <o>, finais ou
	   seguidas de um <s> final, emitem-se, respectivamente,
	   como /i/ ou /u/ fracos.  o que explica rimas como
	   <largos> e <Argus> (Olavo Bilac, Poesias, 9 ed., p.157),
	   <vates> e <clix> (Alberto de Oliveira, Poesias, 1912, p.75),
	   <impele> e (Regina) <Coeli> (Cruz de Souza, Poesias,
	   ed. Valverde, p.31), <define> e <Bellini> (B. Lopes, 
	   Poesias, ed. Valverde, vol. III, p.35).
	   Num caso destes, o valor de /e/ e o de /o/ dados,
	   respectivamente, s duas letras  to anmalo, que
	   logo cria a impresso de sotaque estrangeiro.
	   Finalmente, em palavras espordicas, em que se escreve 
	   <e> ou <o> em slaba tona inicial ou medial a
	   enunciao natural dessas letras  como /i/ ou /u/;
	   ex.: menino, feliz, sotague, borracha, governo, boletim 
         (pronunciado /bulitin/). O mais freqente, porm, 
         em slaba inicial ou medial tona,  a letra indicar 
         o verdadeiro som;	 assim que distinguimos
	   <morar> e <murar>, <fechar> e <fichar>, etc.(4)

(4) Em Portugal, entretanto,	no existe essa	distino.
 \32

























II. A ACENTUAO

	1. Slaba tnica

	Um aspecto importante da articulao  a maior 
intensidade com que so emitidos os sons de uma determinada 
slaba de cada palavra. A essa articulao mais intensa 
chama-se acentuao, e a slaba assim articulada - acentuada 
ou tnica.
	H certo nmero de vocbulos (muitos monosslabos e
alguns disslabos) que se pronunciam dentro da frase sem
acentuao, ou, em outros termos, com uma articulao fraca 
ou tona, ligando-se ao vocbulo contguo como se fossem
dele uma ou duas slabas a mais. So as partculas tonas:
o artigo, quase todas as proposies, muitas conjunes e as
variaes pronominais que se adjungem a um verbo.
	Todas as outras palavras, inclusive outros muitos 
monosslabos, so tnicas, isto , tm uma de suas slabas 
acentuada ou tnica em posio final ou ltima (oxtonos), ou
em posio penltima (paroxtonos) ou ainda, menos 
comumente, em posio antepenltima (proparoxtonos).


	2. Defeitos referentes  acentuao

	O primeiro defeito a considerar neste mbito  no 
emitir a slaba tnica com a intensidade suficiente. Da decorre
prejuzo, porque a acentuao de determinada slaba desempenha 
um grande papel na identificao espontnea da palavra 
ouvida, o que um gramtico latino j pitorescamente
frisou, dizendo que a slaba tnica  a alma da palavra.
	Defeito, at certo ponto, oposto  acentuar demais a
slaba tnica de palavras acessrias, como um adjetivo ao
lado do seu substantivo, um pronome sujeito ao lado do
seu verbo, sem que haja para tanto uma razo especial de 
nfase. Ainda pior  dar descabida intensidade na frase s 
partculas naturalmente tonas, enunciando-se, por exemplo, co-
mo tnica uma preposio junto ao correspondente substantivo, 
uma variao pronominal junto ao verbo correspondente.
	Por outro lado, a importncia da slaba tnica no deve 
fazer desprezar a articulao das demais.  um defeito
 \33


























srio, bastante comum entre ns. Dele resultam as seguintes 
conseqncias, altamente prejudiciais para a inteligibilidade 
do que se diz:
	a) "engolir" as vogais tonas com que se iniciam certas
	   palavras (ex.: <brigado> em vez de <obrigado>) ;
	b) deixar esvarem-se numa leve aspirao as consoantes 
         finais /r/ e /s/ de palavras no oxtonas (ex.:
	   <revolve> em vez de <revlver>, <as arma> em vez de <as
		armas>);
	c) abafar a articulao da slaba final de palavras 
         proparoxtonas, tornando-a indistinta quando no 
         fundindo-a com a penltima, como na m enunciao
	   de <exrcito, Petrpolis>. Este terceiro defeito tem a
	   sua contraparte numa ligeira acentuao, inteiramente 
         descabida, da ltima slaba de uma palavra 
         proparoxtona;  em virtude disso que um proparoxtono 
         como <lcali> quase soa, defeituosamente, como oxtono.


	3. Palavras de acentuao duvidosa

	A importncia da slaba tnica na identificao dos elementos 
da frase torna profundamente vexatrio o problema de pronunciar 
palavras em que a posio da acentuao no est espontaneamente 
fixada na lngua.
	Em muitas, uma das pronncias  tida como vulgar e
desprestigia o expositor; assim, deve dizer-se - como oxtonos 
<sutil, novel, ruim, refm>; como paroxtonos <pegada,
decano, ibero, pudico, batavo>; como proparoxtonos <btega,
arete, xodo, dcada, epteto, prstino, snscrito, revrbero,
trnsfuga, squilo> (nome prprio, em contraste com esquilo,
paroxtono, nome comum de animal).
	Em outras, h dvida e hesitao generalizada, e o problema 
se complica. Trataremos dele na parte deste <Manual>
destinada a estudar as discordncias do uso lingstico.
 \34

Captulo IV

A ELOCUO: FUNAO RTMICA


I. O JOGO DAS PAUSAS

	1. Os grupos de fora

	J vimos anteriormente que numa elocuo fluente e
normal no se enunciam as palavras isoladas entre si, como 
a conveno grfica as apresenta no papel. Elas se 
encadeiam, ao contrrio, constituindo os chamados grupos de
fora. Assim, o contnuo da elocuo  cortado de pausas
que no correspondem, seno ocasionalmente,  separao
mental que fazemos entre uma palavra e outra.
	 o que explica a tendncia dos indivduos apenas 
semialfabetizados a lanarem no papel, quando escrevem, duas
ou trs palavras ligadas, sem espao em branco; guiam-se
pelas pausas que espontaneamente fariam falando, e no
pela individualidade que mentalmente se atribui a cada
palavra.
	O nome de grupo de fora foi escolhido em virtude de
cada uma dessas unidades de emisso possuir uma nica
acentuao predominantemente forte - a da slaba tnica
da sua palavra mais importante, a que se adaptam, com
acentuao um pouco enfraquecida, as slabas tnicas das
demais palavras e as partculas tonas.
	 o que se observa nitidamente na boa leitura do verso.
	Assim, o verso de 10 slabas, ou decasslabo, em portugus, 
forma 2 ou 3 grupos de fora, com a acentuao predominante, 
respectivamente, na 6 e 10 ou na 4, 8 e 10
slabas; dentro de cada um desses grupos enquadram-se
com intensidade atenuada as slabas tnicas das demais 
palavras, incidindo indiferentemente em qualquer slaba que
 \35

































no seja a 5, a 7 ou a 9; ex.: "muito-coche- real nestas-
caladas / e-nestas-praas hoje-abandonadas..." (Raimun-
do Correa, Poesias, 4 ed., p.165).


	2. Espcies de pausa

	Podemos distinguir vrias espcies de pausa numa 
exposio seguida.
	H, em primeiro lugar, as pausas decisivamente 
assinaladas, que na escrita correspondem ao ponto, com duas
graduaes: uma grande pausa, equivalente ao <ponto pargrafo>, 
e uma mais rpida, que graficamente se traduz pelo
<ponto simples>. Em segundo lugar, temos as pausas em que
a voz fica em suspenso, indicando que a frase ainda no
terminou; so as que a escrita representa pela vrgula, se
para isso existe motivo de ordem lgica, ou deixa de 
representar, se falta esse motivo. Como graus intermedirios, 
se nos oferecem outras pausas mais rpidas que as do
ponto simples e mais demoradas que as da vrgula, expressas 
em regra no papel pelo <ponto e vrgula> ou pelos <dois
pontos>, conforme a inteno lgica. Oralmente, a pausa de
dois pontos se caracteriza por uma voz em suspenso, como
no caso da vrgula, e a de <ponto e vrgula>  decisivamente
assinalada, embora a voz logo se reate.
	A impresso de pausa decisiva e a de voz em suspenso 
decorrem da altura da voz na parte final do grupo de
fora: para o primeiro efeito a voz baixa levemente, e
para o segundo h uma pequena elevao gradativa, a partir 
da ltima slaba tnica. Ou em outros termos: d-se
um jogo de cadncias (do latim <cdere>, cair) e anticadncias.
Todas essas pausas tm um papel complexo na elocuo. 
Podemos resumi-lo em quatro ordens:

	a) permitir o mecanismo regular da respirao, enquanto 
         se fala (ordem fisiolgica)(5)
	b) dar oportunidade ao desenvolvimento de um pensamento 
         que se formula  medida que se exterioriza (ordem mental);

(5) Cf. A. Nascentes (O Idioma Nacional, So Paulo 1937, p.77): 
    "A durao normal da respirao abrange doze slabas".
 \36


























	c) possibilitar ao auditrio acompanhar a exposio,
	   fornecendo-lhe um grupo de idias relativamente
	   simples de cada vez (ordem comunicativa);
	d) estabelecer um balano rtmico na elocuo (ordem
	   rtmica ou fontica).

	Ora, a pausa rtmica  justamente preponderante numa
elocuo normal e fluente.  ela que regula a marcha da
fala, estabelecendo uma distribuio de grupos de fora,
variveis em durao e nmero de slabas, mas com certa
proporo, embora um tanto indefinida, entre si. O verso
no  mais do que a sistematizao, em nmeros determinados, 
dessa distribuio natural e incerta. Entre ele e a frase
comum, dita em prosa, h a mesma relao que entre as
figuras geomtricas absolutas na sua regularidade e os perfis 
que a natureza nos oferece nas montanhas, nas pedras,
nas rvores, com os seus contornos caprichosos e incertos
mas donde aquelas figuras se podem extrair. Toda enunciao 
tem a rigor um embrio de verso, e o chamado verso 
livre moderno caracteriza-se por contentar-se com esse
ritmo vago natural.
	Em virtude desse seu aspecto essencial, a pausa rtmica,
profundamente entranhada na alocuo, concentra em si as
demais funes das pausas e  aproveitada para os fins de
respirao fisiolgica, da formulao mental e da comunicao 
compreensiva. A interrupo da fala, imposta por
uma distribuio rtmica imanente, sincroniza-se com a 
atividade respiratra e o desenvolvimento de uma atividade
de pensamento que se exterioriza e vai sendo apreendida
pelos ouvintes.


	3. Defeitos no jogo das pausas

	O expositor inexperiente no sabe fazer isso. Pra para 
respirar quando sente que vai faltar o flego, e assim
interrompe extemporaneamente a frase. Pra para pensar
no que vai dizer em meio de uma frase que deve ser ritmicamente 
contnua. Num e noutro caso, os ouvintes recebem fragmentos 
de informao e no um pequeno conjunto naturalmente 
compreensvel: tm que esperar que o expositor
resolva o seu problema, e a pausa que se lhes apresenta
 \37

























como descabida e, pois, enervante. Acresce que essas 
interrupes, desprovidas de valor rtmico, se tornam to 
desagradveis e chocantes para o auditrio como para os 
passageiros de um veculo as paradas bruscas e inesperadas que
rompem o ritmo da marcha.
	H, portanto, dois defeitos fundamentais no jogo das
pausas :

	a) a falta de controle da respirao, a fim de aproveitar 
         ao mximo para respirar as pausas foneticamente 
         impostas na elocuo;
	b) a falta de ajustamento entre o pensar e o dizer, a
	   fim de formular de um golpe o conjunto de palavras
	   contidas num grupo de fora.

	A correo do primeiro defeito  relativamente fcil:
depende de um adestramento respiratrio, que facultam os
exerccios de leitura em voz alta. O segundo defeito se corrige 
pela disciplinao mental, e a sua eliminao  que determina 
a qualidade oratria da fluncia.
	Quem no  orador feito nem sempre chega a um
<optimum> de elocuo para ser rigorosa e inelutavelmente
fluente.
	Uma ou outra vez, h de lhe acontecer um desajusta-
mento momentneo entre o ritmo do pensamento e o da
fala, e, em meio a um grupo natural de fora, ter de parar
a fim de procurar uma palavra ou uma frmula verbal
ainda no nitidamente evocada.
	Os inconvenientes da resultantes podem ser reduzidos,
ou at praticamente anulados, por um destes dois recursos,
conforme as circunstncias:

	l) fazer da interrupo uma pausa enftica;
	2) enunciar uma palavra ou uma frmula menos satisfatria, 
          para dar tempo  evocao, e logo corrigi-la atravs 
          de uma ressalva como - "ou antes", "ou melhor", "ou noutros 
          termos", "ou mais precisamente", etc.

	A impresso de pausa enftica se desperta nos ouvintes 
por meio de um jogo mmico adequado, com que o
 \38



























expositor aparenta que se deteve para dar mais relevo ao
que vai dizer; em seguida ela se consolida pelo tom especial, 
com que afinal se enuncia a palavra ou a frmula
buscada.  bvio que essa pequena simulao s tem cabimento 
quando se trata de qualquer coisa de realmente
importante no teor da exposio; em caso contrro, cria-se
uma incongruncia entre a nfase da elocuo e a insignificncia 
do contedo mental, e o efeito  desastroso.
	O recurso  correo <a posteriori> s se justifica, por
sua vez, quando a dificuldade de encontrar um termo adequado, 
em vista da sutileza e do cambiante da acepo, 
tambm plenamente sentida pelos ouvintes, que ento se
integram com o trabalho mental do expositor e aceitam a
ressalva como uma prova de seu escrpulo na nitidez da
expresso.


	4. Velocidade da elocuo

	Est intimamente associada com os grupos de fora e
as pausas a velocidade da elocuo.
	A elocuo lenta, ou "pausada", cria, como este segundo 
qualificativo indica, uma pausa de uma palavra para
outra e desagrega os naturais grupos de fora, com prejuzo 
para o efeito rtmico. Da a sensao de tdio que se
estabelece no auditrio, a par do cansao decorrente do
esforo contnuo para ajuntar compreensivamente palavras
que so apresentadas inteiramente soltas entre si.
	A elocuo excessivamente rpida, por sua vez, mesmo
quando no prejudica a nitidez da articulao, obriga a
uma tenso mental fatigante por parte de quem ouve, no
af de analisar e assimilar o que ouve. O auditrio v-se
na situao de um pedestre que tivesse de acompanhar
<pari passu> um cavaleiro a galope.
	De menor monta, porm, do que a velocidade mdia
da elocuo  a distribuio dessa velocidade de acordo
com o teor geral de cada grupo de fora. Por convenincia 
de ordem rtmica, os grupos de fora muito grandes
tendem a se enunciar com mais rapidez. Por convenincia
de ordem comunicativa, as palavras muito longas e as
singularmente importantes tendem a se enunciar com mais
 \39


























lentido. Assim, a fala se torna mais rpida e mais lenta,
numa variedade que satisfaz foneticamente ao ouvido e
mentalmente  compreenso.
	Neste jogo de velocidade da voz, , antes de tudo,
necessrio que o expositor saiba controlar o seu impulso
psquico de apressar a elocuo  medida que vai empolgando-o 
o assunto. No deve esquecer que est diante de
um auditrio e que a marcha da exposio tem de ser regulada 
por certos dados objetivos, entre os quais sobrelevam a 
natureza fontica e o contedo mental das prprias
frases. O entusiasmo do expositor  um dado subjetivo e
altamente prejudicial, se conduz a uma maior rapidez de
emisso que no coincide com exigncias de ordem rtmica
e comunicativa.
	, portanto, um defeito comearmos a falar lentamente, 
pelo simples fato de ainda no estarmos realmente tomados 
pelo assunto, e apressar gradativamente a elocuo
 medida que nos entusiasmamos. Como todos os demais
elementos da elocuo, a velocidade da voz tem de ser 
governada pelo intento definido de um expositor seguro de si.


II. AS PAUSAS E AS PARTCULAS PROCLTICAS

	l. As partculas proclticas

	Vimos, a propsito da acentuao, que h muitos 
monosslabos e alguns disslabos tonos que entram num 
grupo de fora sem qualquer acentuao prpria: o artigo,
quase todas as preposies, muitas conjunes e as variaes 
pronominais que se adjungem ao verbo.
	Com exceo destas ltimas, que ora se antepem, ora
se pospem  forma verbal, as demais partculas tonas
so proclticas, isto , se ligam  palavra tnica que se lhes
segue, como novas verdadeiras slabas iniciais dessa palavra. 
Assim, no pode haver, em princpio, uma pausa entre 
uma partcula procltica e a palavra em que ela se integra. 
Uma pausa nestas condies torna autnoma a partcula e 
lhe d acentuao. O efeito acstico , em regra,
desagradvel e perturbador. -o tanto mais quanto mais coesa 
for a idia entre os dois vocbulos. 
 \40


























	Podemos dizer que isto se verifica praticamente sempre 
com o artigo e quase sempre com as preposies tonas.
	Quando as enunciamos, j devemos ter ntida em mente 
a palavra seguinte, a fim de no incindir numa pausa
que, alm de defeituosa porque rompe o grupo de fora,
isola incongruentemente a partcula procltica e lhe d uma
acentuao inadequada.


	2. As pausas e as partculas proclticas

	s vezes, entretanto, muitas conjunes e certas preposies 
tonas adquirem uma fora de articulao espordica, 
pela exigncia do prprio texto, e estabelece-se uma
ligeira interrupo da voz depois delas.  o que se verifica, 
em ocorrncias limitadas, com a preposio <para> (quan-
do se quer frisar com vigor a idia de um movimento de
direo), com a partcula <gue>, com as conjunes <e, mas>.
	Num caso desses, a partcula tona se torna 
tnica, e da decorre um problema de articulao
em referncia  sua vogal.
	 que, normalmente, os proclticos, que na escrita terminam 
em <a, e> ou <-o>, tm outras vogais no corpo da elocuo: 
o /a/ apresenta um som fechado e abafado; e para
<-e> e <-o> correspondem respectivamente, na realidade, um /i/
e um /u/ fracos, um tanto mais abertos que o /i/ e o /u/
tnicos.
	Ora, quando sucede o isolamento e a ligeira acentuao,
acima referida, deparam-se-nos duas possibilidades de articulao 
da vogal:

	a) deix-la com o timbre caracterstico, e ento tere	mos 
         um // tnico abafado, semelhante  pronncia da 
         letra <u> em palavras inglesas como <but, cup>,
	   e um /i/ e um /u/ tnicos fechados, como nos 
         monosslabos tnicos <vi> e <tu>;
	b) atribuir-lhe o timbre tnico normal, em que o /a/
	   soa claro e aberto como em <d> e aparecem /e/ e /o/
	   a corresponder, respectivamente, s vogais tnicas
	   de <v> e <av>.
 \41



























	Em referncia  preposio <para>,  a segunda soluo
que um auditrio brasileiro aceita melhor; o mesmo se pode
dizer da conjuno mas, embora a a ressonncia nasal do
/m/, repercutindo no /a/, e o esforo para distinguir a partcula 
e o advrbio <mais> tenham favorecido a manuteno do
timbre abafado. Quanto s conjunes <e> (copulativa) e <se>
(condicional), predomina a articulao com /i/ mesmo em
posio ligeiramente tnica. Ao contrrio, a tonicidade na
partcula <que> impe a emisso de um /e/, em vez do /i/
fraco da elocuo procltica.


	3. Defeito na elocuo das conjunes proclticas

	Alguns oradores tm a tendncia para abusar dessa
ligeira acentuao e pausa em referncia s conjunes
e ainda  preposio <para>. Parece-lhes um bom recurso
para chamar a ateno do auditrio e impression-lo. Mas,
quando no h para isso um motivo verdadeiramente forte
no encadeamento das idias, cai-se facilmente num maneirismo, 
que  de mau efeito como todos os maneirismos.
	As pausas tm de ser naturalmente condicionadas pelo
teor da exposio. A preocupao de fazer, sem motivo de
ordem profunda, essas ligeiras pausas s pode perturbar a
unidade do texto, rompendo os seus grupos naturais de fora. 
Acresce que, assim, se pe indiscriminadamente a nfase 
em partculas acessrias, valorizando-as sem maior cabimento; 
solicita-se o auditrio a fixar especial ateno em
meras partculas de enlace e cria-se uma desproporo no
jogo dos tons de voz.
	 particularmente importante no esquec-lo, quando
se intercala entre a partcula e a palavra seguinte uma 
expresso incidente, que corta a ligao lgica entre os dois
elementos; ex.: <para sem demora decidir...; a fora terrestre 
e em certos casos a fora area...> etc.
	A interrupo lgica parece dever condicionar uma 
interrupo fontica, e na escrita h casos em que se costuma
at a colocar a expresso incidente entre vrgulas. Mas a
pausa e a conseqente acentuao do procltico podem estabelecer 
aquela nfase descabida ha pouco aludida; e nestas 
condies  muito prefervel concatenar a conjuno
 \42


























com a parte intercalada, e s depois desta fazer uma ligeira
pausa: <para-sem-demora / decidir; a-jora-terrestre / e-em-
certos-casos / a-fora-area>.
	 justamente um caso em que a vrgula na escrita, de
natureza lgica, no coincide necessariamente com a pausa,
de natureza fontica.


	4. Aplicao

	A ttulo de aplicao, consideremos o seguinte trecho
d'<A Marinha de Outrora> do Visconde de Ouro Preto, onde
o hfen liga as palavras de um grupo de fora, a cancela
indica ligeira pausa entre dois grupos, e a cancela dupla
uma ntida pausa de vrgula.
	"Duas-lguas-abaixo / da-cidade-de-Corrientes // na-
-extensa-curva / que-faz / o-rio-Paran // entre-a-ponta-
-daquele-nome / e-Santa-Catarina / ao-sul // viam-se / em-
-linha-de-combate // mas-com-os-ferros-no-fundo / e-fogos-
-abafados // nove-canhoneiras-a-vapor // em-cujos-penis /
tremulava / a-bandeira-brasileira" (cf. Antologia Nacional
de F. Barreto e Laet, 25 ed., p.74).
	No trecho seguinte da mesma narrativa temos o caso
de um <e> copulativo em conexo com um troo (6) de frase
incidente :
"Ele-bate-se / com-vivacidade-extrema // e-ao-mesmo-
-tempo-que-procura-causar / o-maior-prejuzo / ao-inimigo
/ e-cortar-lhe-a-retirada // socorre / por-suas-prprias-mos
// atirando-lhes-cabos // algumas-praas / que-se-debatiam
/ contra-a-correnteza" (Ibid., p.85).

(6) A supresso do acento diferencial, em casos como este, 
    apresenta inconvenientes para a pronncia, pois se trata 
    de troo () e no troo ().
 \43

Captulo V

A EXPOSIO ORAL


I. CONSIDERAES GERAIS

	Pode parecer  primeira vista que exposio oral, dada 
a natureza espontnea da linguagem falada, deva ser
um improviso, em sentido absoluto, para causar uma boa
impresso no auditrio. E, com efeito,  fcil perceber como 
a sensao do improviso  estimulante e capta uma simpatia 
geral para o orador. Ao contrrio, o discurso lido, ou
evidentemente decorado, tem a vencer, de incio, uma instintiva 
m vontade; e s  bem aceito em casos muito definidos
em que a conveno social o impe.
	A linguagem falada est de tal modo integrada no
ambiente de uma situao concreta, que nos comprazemos
em imaginar a exposio ideal como sendo aquela que 
espontaneamente emerge da situao em que se manifesta.
	Esse sentimento do auditrio deve ser levado cuidadosamente 
em conta pelos expositores, mas nunca desgarr-los a 
ponto de se pautarem literalmente por ele. Nenhum
grande orador jamais procedeu de tal forma, desde a Antigidade 
Clssica, quando a fala em pblico tinha primacial importncia para 
o poltico na gora e para o general no campo de batalha; 
do gnio da oratria grega, que foi Demstenes, se 
disse, ainda em seu tempo, que todos os seus
discursos cheiravam a azeite de candeia, e ele prprio admitiu 
o que a se insinuava, retrucando ao crtico malevolente,
que tinha fama de ladro: "Para coisa muito diversa te serve 
a luz da candeia".(7) 
	A rigor, o improviso deve restringir-se  formulao
verbal dos pensamentos.  frase de antemo preparada,

(7) A anedota vem nas "Vidas" de Plutarco (cf. trad. Fr. Pierron, 
    2 ed., vol. III, p.531).
 \44































em todos os seus detalhes, falta o calor e a vida que 
queremos sentir na enunciao oral. Para ter uma e outra 
preciso que ela seja um produto do momento, determinada
pelo estmulo da ateno e do interesse que o expositor
apreende em volta de si e orientada pelas reaes dos 
indivduos em cujo meio ele se acha. H um processo de
elaborao formal, condicionada pela receptividade mais ou
menos cambiante que se entremostra nos ouvintes, e s
assim a exposio se torna impressiva e eficiente.  o que
no se verifica no discurso lido, e esta circunstncia  uma
das vrias inconvenincias que ele oferece.
	J no mbito da composio, isto , do plano em que
a exposio se vai desenvolver, o improviso s pode ser
desastroso. Temos de saber, de antemo, o pensamento central 
que vamos expor e temos de construir, de antemo,
esse pensamento num todo orgnico e lgico.
	Da decorre a necessidade de um cuidadoso trabalho
mental preliminar, que podemos dividir em dois itens:

	1) determinar o que vamos dizer e consolidar o nosso
    	    conhecimento a respeito, atravs de reflexes e
 	    pesquisas;
	2) organizar a distribuio do assunto da maneira que
          nos parece mais interessante, clara e impressiva.

	O primeiro item abrange uma srie de atividades, que
constituem os prolegmenos da exposio; o segundo  a
afincada "viglia  luz da candeia", que se atribuiu a 
Demstenes, a fim de ficar nitidamente elaborado um roteiro
e prevista a marcha a seguir.
	 esta ltima parte que vamos estudar em primeiro
lugar sob o ttulo de - <O plano da exposio>.


II. O PLANO DA EXPOSIO

	1. Partes essenciais da exposio

	 quase um trusmo que toda exposio deve ter um
comeo introdutrio, um corpo de matria e uma concluso. 
Assim, na elaborao de um plano  preciso levar em
conta essa diviso natural e preestabelecer um incio de 
 \45



























consideraes gerais, que nos conduza insensivelmente para o
nosso assunto propriamente dito, um conjunto central, com
este assunto, e um conspecto final, que o resuma e consolide.


	2. A introduo

	A introduo - que a antiga retrica chamava o exrdio - 
impe-se, antes de tudo, pela necessidade de um duplo ajustamento:

	a) a do expositor com o auditrio, captando-lhe a simpatia 
         e a ateno;
	b) o do auditrio com o assunto, para que todos sintam
	   a importncia e o interesse do que vo ouvir. Alm
	   disso, a introduo cria um terceiro ajustamento:
	   o do expositor com o seu prprio assunto, nas
	   condies concretas em que vai desenvolv-lo.

	A antiga retrica admitia a existncia de discursos
sem exrdio, que denominava discursos <ex-abrupto>. Mas
com isto partia de uma concepo muito estreita do que
se devia entender por exrdio, concebido sem profundeza
e sem amplitude como uma srie de consideraes do orador 
sobre a sua pessoa, o seu apreo aos ouvintes, a necessidade 
de tomar-lhes o tempo e a ateno etc. A introduo
<lato sensu>, tal como definimos linhas acima, mesmo num
discurso <ex-abrupto> existe em ltima anlise.
	Quando, por exemplo, Ccero, na primeira Catilinria
(Orationes, ed. Deltour, II, 1), comea a falar com uma
imprecao sbita - "At quando,  Catilina, abusars da
nossa pacincia...", estabelece, malgrado o famoso <ex-abrupto>, 
uma cuidadosa e sagaz introduo, focalizando em termos 
gerais a figura do antagonista e as suas atividades
clandestinas, que  seu propsito analisar e pr  luz do
dia; enfim, capta a simpatia e a ateno do auditrio e faz-lhe 
sentir a importncia e o interesse do que lhe vai 
minuciosamente expor.
	Esta anlise dos fins da introduo, que acabamos de
fazer, mostra que ela apresenta espontaneamente uma diviso 
tripartida:
 \46



























	a) na primeira tomamos posse do ambiente;
	b) na segunda focalizamos claramente para ns e para
   	   os ouvintes o nosso objetivo;
	c) na terceira fixamos nesse objetivo o auditrio e fazemo-lo 
	   comungar com os pensamentos que vamos desenvolver.

	Sem isso, a exposio se torna perturbadora, porque
encontra um ambiente ainda mais ou menos desajustado.
Mesmo que o auditrio j esteja de antemo empenhado
no que vai ouvir e bem predisposto em referncia ao expositor, 
a presena deste e o incio da nova experincia
impedem uma fixao imediata no assunto; cria-se um
atraso de percepo, e, na melhor das hipteses, o resultado 
 ficar perdida uma parte bsica do desenvolvimento.


	3. O corpo da exposio

	A exposio tem de dividir-se em partes bem delimitadas 
e bem concatenadas. H diante de ns um assunto
em bloco.  suscetvel de uma anlise que no-la faz compreender 
como um todo articulado. A organizao do corpo da 
exposio consiste em fazer o expositor essa anlise
para si e para o auditrio.
	No se deve dividir demais, pois assim fica prejudicada 
a impresso de unidade. Deve haver apenas poucas
divises primrias, que por sua vez se subdividam em alguns 
itens. Se se impem, inevitavelmente, uma complexidade 
muito grande,  que o assunto no  propriamente uno.
H um excesso, para ser abandonado, ou, se o merece, 
desenvolvido noutra ocasio.
	Os critrios da diviso so vrios, mas se podem 
resumir em quatro grandes tipos (8):

	a) um desdobramento cronolgico;
	b) um agrupamento pela associao lgica;
	c) a fixao de um ponto de maior interesse, do qual
	   se desce gradativamente;
	d) a disposio da matria em forma de problema proposto 
   	   ao auditrio.

(8) So, em princpio, os que apresenta o livro j citado dos 
    professores Briganco e Immel.
 \47
























	Em suma: um planejamento cronolgico, outro lgico, 
um terceiro psicolgico, porque parte de uma atitude
psquica diante do assunto, e finalmente um quarto que
podemos chamar dramtico, porque passamos a viver com
o auditrio uma espcie de drama, na pesquisa de uma
soluo. 
	O critrio cronolgico  aparentemente o mais fcil de
organizar, mas ao mesmo tempo o mais rduo para conduzir 
a uma compreenso boa. Nem sempre a seqncia dos
fatos  explicao satisfatria da sua ocorrncia, e a filosofia 
do conhecimento j h muito que denunciou com razo
a falcia do raciocnio - <post hoc, propter hoc>. 
	Mesmo nas narrativas puramente histricas, em que a 
cronologia parece ser um elemento visceral, o mtodo de
disposio pelas datas, que era o dos antigos <Anais, Dcadas
e Crnicas>, se tem mostrado muitas vezes incongruente e
pouco propcio. No relato de uma guerra, com teatros de operaes 
distintos, entrosada com atividade de poltica interna 
e externa, por exemplo, um plano primariamente cronolgico 
 a rigor inexeqvel ou pelo menos de pssimo efeito.
	O critrio lgico, em que o assunto procura se nos 
apresentar deduzido na sua estrutura objetiva, , por sua vez,
no raro de difcil execuo, em virtude de um tal ou qual
carter caprichoso e arbitrrio, que, pelo menos para a 
inteligncia humana, assumem com maior ou menor grau todas
as coisas deste mundo. A rigidez do mtodo lgico arrisca-se 
a transformar-se num leito de Procusto. A deformao
da realidade ou a esquematizao simplista so os dois 
resultados negativos a que pode conduzir o af de uma 
apresentao logicamente estruturada.
	J o critrio que denominamos psicolgico pode trazer
inconvenientes diversos mas no menos srios. Propende
para um sensacionalismo fcil, para uma espcie de esprito
jornalstico, no mau sentido da expresso.
	Finalmente, a dramatizao do discurso, pelo processo 
de estabelecer preliminarmente um problema,  de aplicao 
muito delicada.  preciso, antes de tudo, que se trate 
de um problema digno deste nome e que a exposio o 
resolva realmente e de maneira meridianamente clara para
os ouvintes. Do contrrio, o expositor fica na atitude 
 \48



























incmoda de um charadista que no sabe responder 
convenientemente s suas prprias charadas.
	Ponderados em suas vantagens e inconvenientes, os
quatro mtodos centrais de exposio se oferecem  nossa
escolha em funo principalmente da prpria natureza do
assunto, da situao concreta em que se vai falar, da 
finalidade particular em vista e das correntes de interesse
imanentes no auditrio.  uma questo preliminar a ser
resolvida pelo prprio expositor e para a qual no pode
haver uma receita j pronta a ser tirada de um Manual.
	 importante ressalvar, enfim, que os quatro mtodos
nem sempre so exclusivos uns dos outros seno 
complementares entre si. Pode-se, por exemplo, partir de um
clmax psicolgico para insensivelmente se entrar, em 
seguida, num encadeamento lgico, do qual se passa, num
segundo plano de subdivises, para o arranjo cronolgico.
A seqncia pelas datas, em virtude do seu aspecto objetivo 
mas ao mesmo tempo sem profundidade, se presta para as 
disposies de ordem secundria, depois que uma anlise 
noutros moldes estabeleceu seces primrias e mais
substanciais.


	4. A concluso

	A exposio tem naturalmente um objetivo essencial
que a motiva. Pode-se com maior ou menor facilidade 
depreend-lo do conjunto geral do que foi dito. Mas no deve
caber aos ouvintes faz-lo.
	O expositor est implicitamente obrigado a resumir o
seu pensamento central numa concluso adequada. A consolida 
as idias at ento desenvolvidas, e incute-as no auditrio 
de uma maneira permanente para os fins em vista.
	Para isso, pode fazer um sumrio do que j exps;
convm que seja um sumrio no rigor da expresso, isto
, rpido e conciso; pois do contrrio se cai na repetio
e num repisamento de conceitos, que cansa e entedia.
	H, entretanto, outros modos de concluir. Tal  
terminar com um apelo para a aplicao do que foi dito:
os ouvintes se estimulam com essa visualizao da ao
prtica e garante-se a permanncia da impresso recebida.
 \49


























Efeito anlogo tem uma rpida ilustrao, que, num exemplo 
vivido, corrobore as consideraes at ento apresentadas.	
	Outro recurso  destacar do exposto um ou mais pontos
cruciais e fix-los a ttulo de concluso diante do auditrio.
	Finalmente, pode-se usar o fecho de uma citao 
incisiva. O prestgio da personalidade citada e o carter mais
ou menos retrico da sua frase criam um clima de simpatia
instintiva, que s pode favorecer a melhor aceitao das
palavras e do raciocnio do prprio expositor.
	
						
III. OS PROLEGMENOS DA EXPOSIO

	1. Em que consistem eles

	Um plano de exposio, assim elaborado, depende 
evidentemente ainda de dois fatores externos:

	a) O conhecimento	que o expositor tem do assunto;
	b) a sua inteligncia em adapt-lo ao tipo de auditrio
	   concreto que vai ter.

	 bvio que	sem o	conhecimento adequado da matria 
nenhum plano de exposio pode dar resultado, se
 que sequer pode ser realmente feito. A um expositor ignorante 
do seu assunto cabe a histria do campnio que no
conseguia ler com nenhum dos culos que eram nele 
experimentados... porque no sabia ler.
	Por outro lado, o plano	da exposio tem de amoldar-se 
aos ouvidos a que se destina e s condies ambientes em 
que vai projetar-se. Um desenvolvimento estritamente 
lgico, por exemplo, no  o mais indicado para um auditrio 
de nvel intelectual medocre, nem para um recinto
aberto e mais ou menos agitado, pouco propcio para a 
concentrao mental. Pode ser de efeito magnfico concluir	
pelo destaque de um ponto crucial, que sabemos ser um firme 
centro de interesse para aqueles determinados indivduos 
a quem vamos falar. E assim por diante.


	2. O conhecimento do assunto

	Na maioria dos casos, o expositor conhece, satisfatoriamente, 
a matria de que vai tratar, e no raro  at a sua
 \50					























condio de especialista que o indicou naturalmente para a
tarefa. As contingncias da vida profissional so, entretanto, 
mltiplas e caprichosas; e no poucas vezes vemo-nos na
necessidade de falar em pblico sobre um assunto com que
estamos muito mal familiarizados.
	Mesmo na primeira hiptese no se justifica a supresso 
de pesquisas para a exposio em vista. O conhecimento 
<in abstracto> nunca  suficiente para consubstanciar um
contedo concreto, orientado num determinado sentido e
com um objetivo bem definido. Estas so condies que 
renovam, por assim dizer, um assunto (ainda que da nossa
estrita especialidade).
	Para esse trabalho de aquisio ou renovadora adaptao 
da matria, temos a nosso dispor duas grandes espcies
de fontes:

	a) a troca de vistas com pessoas entendidas, que j 
         tiveram experincias semelhantes  que vamos ter;
	b) a consulta a livros ou outros informes escritos.

	So dois recursos utilizveis para qualquer exposio,
seja oral, seja escrita. Contudo, na exposio oral, que 
geralmente se apresenta com certo imediatismo, sem 
possibilidades de execuo a longo prazo, o manuseio dos livros, 
ou, em termos mais gerais, o trabalho bibliogrfico preliminar
no tem ensanchas de se desenvolver cabalmente, como em
regra, ao contrrio, sucede com a exposio escrita. J a 
informao direta junto a pessoas entendidas, um tanto 
inoportuna em livros ou monografias por causa do carter 
no-documentrio que possui,  particularmente vantajosa para 
uma fala em pblico, em que precisamos, de uma preparao 
rpida e prtica.


	3. Como recorrer a pessoas entendidas

	Isto posto, depara-se-nos o problema de usar 
proveitosamente deste tipo de informao direta. Varia para 
tanto o <modus faciendi>.
Em primeiro lugar, podemos apelar para uma conversa 
assistemtica e sem formalidades. Outro processo  propor
 \51


























perguntas definidas numa entrevista formal. Finalmente, 
h os questionrios escritos.
	Quando nos falta um conhecimento amplo da matria,
aquele primeiro recurso  o mais aconselhvel. A conversa
assistemtica e sem formalidades nos fornecer idias e
concluses de que precisamos como ponto de partida. 
intil e at contraproducente propor perguntas definidas ou
enviar questionrio sobre assunto que ainda no dominamos 
bem: tocaremos em pontos irrelevantes e omitiremos
pontos essenciais, sem que o nosso consultado possa suprir
as falhas, em virtude da maneira rgida de que lanamos
mo. Mesmo os assuntos muito nossos conhecidos merecem
ser destarte abordados; verificaremos muitas vezes que da
emergem coisas, que para nossa surpresa nos tinham at
ento passado despercebidas.
	A entrevista formal e os questionrios escritos tm 
especial cabimento, quando precisamos de certos dados 
suplementares para uma exposio j mais ou menos delineada.


	4. A consulta bibliogrfica

	O livro, ou informe escrito em geral, no tem a 
maleabilidade que encontramos em contactos pessoais.  
preciso saber servirmo-nos dele para o nosso fim particular,
mormente em se tratando de uma exposio oral, quando
nos defrontamos com um prazo curto para preparao e
esta se apresenta em condies mais ou menos improvisadas.
	Nem sempre  necessrio, ou sequer aconselhvel, a
leitura integral de certos livros. S a prtica nos habilitar 
na arte de colher informaes de uma obra, definidamente 
em vista do nosso caso concreto, sem nos deixarmos desviar 
e sem malbaratar o tempo na ateno dada a trechos
no-pertinentes.
	Quanto  seleo das leituras, h trs condies que
no se pode perder de mira: o livro precisa ser de fcil
obteno no meio em que estamos;  indispensvel uma
convico bem clara do seu valor e utilidade; e a informao 
que dele queremos extrair deve achar-se facilmente depreensvel, 
em vez de emaranhada numa orientao inteiramente estranha
 marcha que nos cabe seguir.
 \52


























	5. O conhecimento do auditrio

	Chegamos agora ao segundo fator externo que destacamos 
nos prolegmenos de uma exposio; a necessidade
dela adaptar-se aos que vo ouvi-la e ao ambiente em que
vai ser dita.
	 de mxima importncia conhecer as espcies de pessoas 
que vamos ter diante de ns. A sua cultura, a sua classe 
social, os seus interesses vitais so diretrizes no planejamento 
da exposio. So ainda elementos de segurana para
o domnio satisfatrio sobre o auditrio. O expositor 
previamente informado neste sentido est a salvo de ter 
surpresas, capazes de embara-lo ou at inibi-lo; e, mesmo
independente disso, fica assim mais atenuada a impresso
de experincia nova e a reao nervosa que essa impresso
sempre desperta.
	No , da mesma sorte, despiciendo o conhecimento do
lugar e da ocasio. Falar num recinto fechado, por exemplo, 
 uma situao muito diversa do que faz-lo num ptio 
aberto, ou numa praa pblica, onde os ouvintes esto
sujeitos a fatos perturbadores ou dispersivos para a sua
ateno. Neste particular, nunca so demais as mincias. 
grande ou pequeno o recinto? Tem ou no boa acstica?
 um anfiteatro ou uma sala comum? Vamos subir a uma
plataforma ou ficar em nvel com os ouvintes? Tudo isso
importa, quando mais no seja, numa preparao psicolgica 
para a experincia que vamos ter.
	 especialmente relevante saber se haver outros 
oradores e, neste caso, qual o nosso nmero de ordem para
falar. Se a nossa exposio vem depois de outras, convm
ter uma idia de cada uma delas, a fim de no repisar
tpicos j suficientemente debatidos ou entrar em 
contradio implcita com coisas ditas anteriormente.
	Muitas vezes impe-se -  claro - contradizer 
proposies de outrem, com as quais estamos em radical
desacordo. Mas  igualmente claro que o fato delas j terem
sido enunciadas, momentos antes, muda as condies, em
que nos achamos, para exprimir por nossa vez a nossa
maneira de pensar.
 \53

Captulo VI

A EXPOSIO ESCRITA

I. CARACTERIZAO

	
1. Caracteres prprios da exposio escrita

	J vimos como a linguagem escrita se apresenta 
"mutilada" em confronto com a linguagem oral. A conseqncia 
imperativa  que tem de ser mais trabalhada, porque os
seus elementos ficam onerados com encargos de clareza, expresso 
e atrao que na fala se distribuem de outra maneira.
	Convm apreciar mais detalhadamente esses contrastes
entre os dois tipos de linguagem.
	Ressaltemos, antes de tudo, na exposio escrita a 
ausncia daquela nota pessoal que espontaneamente decorre
da figura fsica do expositor, das suas atitudes peculiares e
do timbre da sua voz. Ora, atravs de palavras e fonemas,
que so comuns a todos e coletivos, agrada sentir a 
personalidade ntida de quem os emite; a informao 
desumanizada, a "mensagem" annima capta muito menos simpatia. 
Na linguagem escrita, a satisfao de to natural exigncia 
se carreia toda para as frases em si mesmas, e impe 
com especial nfase essa maneira sutil de utilizar os
elementos gerais da lngua, de acordo com um sentimento 
pessoal, para dar ao conjunto o cunho esttico que se chama 
<estilo>. Assim, o problema do estilo assume a uma 
importncia muito maior do que na exposio oral.
	Talvez ainda mais digno de ateno  o desaparecimento 
da mmica e das inflexes ou variaes do tom da
voz, cujo papel expressivo apreciamos no captulo II. A sua
falta tem evidentemente de ser suprida por outros recursos.
 \54


































	, neste sentido, que se torna altamente instrutiva a
velha anedota, que nos conta a indignao de um rico 
fazendeiro ao receber de seu filho um telegrama com a 
frase singela - "mande-me dinheiro", que ele lia e relia 
emprestando-lhe um tom rude e imperativo. O bom homem
no era to nscio quanto a anedota d a entender: estava 
no direito de exigir da formulao verbal uma 
que lhe fizesse sentir a atitude filial de carinho e 
respeito e de refugar uma frase que, sem a ajuda de gestos e
entoao adequada, soa  leitura espontaneamente como
rspida e seca.
	Note-se finalmente que na exposio escrita o jogo de
pausas e cadncias tem de ser recriado pelo leitor. Este
trabalho  auxiliado pelos sinais de pontuao, mas nunca 
de maneira absoluta no que se refere  correspondncia
entre as pausas de suspenso rpida de voz e as vrgulas,
porque por uma conveno tradicional as razes de ordem
lgica interferem a com as de natureza meramente rtmica.
	Assim, a pontuao no  no papel uma contraparte 
cabal da distribuio dos grupos de fora da comunicao 
falada, e constitui a rigor um carter prprio da exposio
escrita.
	De tudo isso decorre a necessidade de uma tcnica de
formulao verbal <sui generis>. "Ningum escreve como 
fala"; - observa a propsito o lingista francs Vendryes -
"cada um escreve, ou pelo menos procura escrever, como
os outros escrevem" (Le Langage, 1921, p.389).


	2. Caracteres psicolgicos da exposio escrita

	Detenhamo-nos agora noutro aspecto da exposio 
escrita: as condies psicolgicas tpicas em que temos de
desenvolv-la.
	No h diante de ns um interlocutor, ou, pelo menos,
um ouvinte concreto.  uma situao at certo ponto 
artificial nas leis naturais da comunicao lingstica, porque
sentimos instintivamente a necessidade da presena de algum 
a quem nos dirigir, quando usamos da linguagem. 
um estmulo que nos falta, quando apenas "falamos ao
papel".
 \55


























	Mesmo numa carta, em que h um destinatrio definido, 
o simples fato de no senti-lo diante de si pode ser 
desestimulante para o missivista, e  esta a causa secreta de
tantas pessoas no gostarem de escrever cartas.
	Ora, a exposio escrita <lato sensu>  a respeito ainda
mais deficiente. Temos de dirigir-nos para o pblico em
geral, ou, quando muito, para um pblico particular mas
indeterminado e vago, em vez do auditrio concreto que
se nos apresenta numa exposio oral. O leitor tem sobre
ns um efeito psicolgico muito diverso do ouvinte, e 
precisamos habituar-nos a esta nova situao. Por outro lado,
falta na exposio escrita um ambiente definido.
	Quem fala est em contacto direto com os seus ouvintes; 
h um quadro natural, que  o trao de ligao entre
um e outros. Mesmo numa transmisso radiofnica 
estabelece-se o elo da simultaneidade entre a enunciao e os que
a recebem, e, na base dessa unidade no tempo, a imaginao
cria uma tal ou qual unidade no espao.
	J, ao contrrio, na exposio escrita ns nos 
exprimimos num lugar e vamos ser lidos em outro. Ou mais
precisamente: o ambiente no se integra em nossas palavras 
como elemento funcional. A comunicao lingstica
desliga-se da ocasio e do espao, o que  uma experincia
nova a que a linguagem se tem de adaptar.


	3. Caracteres estticos da exposio escrita

	H, tambm, do ponto de vista esttico, uma 
caracterizao tpica da escrita em confronto com a fala.
	Vimos, no captulo I, como o sentimento artstico 
inerente nos homens e para ser eficiente a linguagem tem
de satisfaz-lo. Na linguagem oral, concorrem para tanto,
alm da formulao verbal propriamente dita, a simpatia
direta que inspire a figura do expositor, o agrado dos seus
gestos e atitudes, o timbre da sua voz. H a condies 
positivas - ou negativas ( certo); se forem mal aproveitadas,
mas que, de qualquer maneira, esto ausentes da exposio 
escrita. Nesta, todos os elementos estticos tm de ser
concentrados na prpria formulao verbal; por isso h
uma arte de escrever complexa e sutil, bastante diversa da
arte de falar.
 \56

























	Acresce que a memria auditiva, que  a nica a 
funcionar na apreenso de uma exposio oral,  instantnea e
efmera; e no af de no perder palavras o ouvinte se
fixa mais no contedo do que na forma propriamente dita
das frases que ouve.
	A situao do leitor  outra. Nele atua a memria visual
coordenada com uma audio mental que os smbolos grficos 
evocam. Nem em regra lhe falta lazer para deter-se em
determinado passo e reencetar-lhe a leitura. Por um e outro 
motivo, est em condies de fazer uma anlise de ordem 
esttica, que seria praticamente impossvel diante do
fluxo incessante das palavras faladas. <Verba volant, scriptu
manent>, diziam os romanos; e o seu brocardo pode ser
desviado para uma aplicao em que eles propriamente
no cogitaram. As palavras enunciadas voam e passam no
caudal dos seus sons, enquanto as escritas se gravam atravs 
dos olhos e permanecem diante do leitor para 
e exame.
	Atente-se, finalmente, para a circunstncia de que a
linguagem escrita est em essncia relacionada com a 
linguagem literria. Um livro tcnico, uma monografia, um 
artigo de jornal ou de revista no so - nem devem procurar
ser - literatura no sentido estrito do termo; mas a ela se
ligam pelo cordo umbilical da sua natureza de trabalho
escrito. Por consenso social no escapam de certas exigncias 
de ordem literria.
	Das consideraes at aqui expedidas vale ressaltar as
concluses seguintes:

	a) a apresentao visual agrava certos defeitos de 
         formulao, e muitas incorrees, que passariam 
         despercebidas no correr da fala, ganham relevo e 
         "saltam aos olhos" no papel;
	b) a frase, sem a ajuda do ambiente, da entoao e
	   da mmica, tem de ser mais logicamente construda
	   e concatenada;
	c) pelo mesmo motivo, as palavras tm de ser mais
	   cuidadosamente escolhidas, e impe-se a questo da
	   propriedade dos termos, de maneira aguda;
	d) h o problema da pontuao, que  at certo ponto
	   distinto da interpretao grfica das pausas;
 \57



























	e) uma palavra muito repetida ou redundante torna-se
	   particularmente afrontosa no processo da leitura;
	f) certos termos e expresses, tidos como familiares a
	   pouco literrios, raramente se apresentam tolerveis
	   na exposio escrita.

	A esses requisitos se ajusta o problema da ortografia,
que  tipicamente um problema de lngua escrita, com as
suas convenes em regra muito acatadas pelo consenso
social. As grafias errneas, s vezes irrelevantes em si 
mesmas, ganham vulto e importncia, porque so tomadas como 
ndices da cultura geral de quem escreve, mostrando
nele, indiretamente, pouco manuseio de leituras e pouca
sedimentao do ensino escolar.


II. REDAO

	1. Condies da redao

	H, portanto, como j foi salientado, uma arte de 
escrever - que  a redao. No  uma prerrogativa dos 
literatos, seno uma atividade social indispensvel, para a
qual falta, no obstante, muitas vezes, uma preparao
preliminar.
	A arte de falar, necessria  exposio oral,  mais
fcil na medida em que se beneficia da prtica da fala 
cotidiana, de cujos elementos parte em princpio.
	O que h de comum, antes de tudo, entre a exposio
oral e a escrita  a necessidade da boa composio; isto ,
uma distribuio metdica e compreensvel de idias.
	Impe-se igualmente a visualizao de um objetivo 
definido. Ningum  capaz de escrever bem, se no sabe bem
o que vai escrever.
	Justamente por causa disto, as condies para a 
redao no exerccio da vida profissional ou no intercmbio
amplo dentro da sociedade so muito diversas das da redao 
escolar. A convico do que vamos dizer, a importncia 
que h em diz-lo, o domnio de um assunto da nossa
 \58




























especialidade tiram  redao o carter negativo de 
mero exerccio formal, como tem na escola.
	Qualquer um de ns senhor de um assunto , em 
princpio, capaz de escrever sobre ele. No h um jeito 
especial para a redao, ao contrrio do que muita gente
pensa. H apenas uma falta de preparao inicial, que o
esforo e a prtica vencem.
	Por outro lado, a arte de escrever, na medida em que
consusbstancia a nossa capacidade de expresso do pensar
e do sentir, tem de firmar razes na nossa prpria 
personalidade e decorre, em grande parte, de um trabalho nosso
para desenvolver a personalidade por este ngulo.
	A arte de falar no  mais d.o que uma <mise-au-point>
dos predicados obtidos e consolidados no exerccio da 
atividade oral de todos os dias. A arte de escrever precisa
assentar, analogamente, numa atividade preliminar j 
radicada, que parte do ensino escolar e de um hbito de
leitura inteligentemente conduzido; depende muito, portanto,
de ns mesmos, de uma disciplina mental adquirida pela
autocrtica e pela observao cuidadosa do que outros com
bom resultado escreveram.


	2. Problemas da redao

	Considerados deste ponto de vista, os problemas da 
redao se dividem primariamente em dois grupos: os 
essenciais e os secundrios.
Os problemas essenciais so dois:

	a) a composio, isto , plano de redao;
	b) a tcnica de uma formulao verbal que dispense
	   os elementos extralingsticos e os elocucionais, s
	   participantes da exposio oral.

	Os problemas secundrios so os que surgem dos 
caracteres estticos da lngua escrita. So mais fceis para
um ensino partido do professor, ou de um livro didtico,
por assim dizer - de fora para dentro. Mas dependem da
 \59




























soluo dos problemas essenciais. Nenhum professor e 
nenhuma gramtica conseguiro fazer escrever esteticamente
bem a uma pessoa que ainda no sabe pensar em termos de
lngua escrita.
	 uma espcie de escapismo, muito comum no ensino
da redao, fixarem-se o professor e os alunos nos 
problemas secundrios. Absurdamente, h at os que quase s se
preocupam com a ortografia das palavras.
 \60

Captulo VII

O PLANO DE UMA REDAO


I. I. CONSIDERAES

	1. Objetivo deste captulo

	No  possvel ensinar a composio por meio de regras
que baste mecanicamente aplicar. O plano da redao 
inerente  capacidade do expositor e ao seu domnio do
assunto; depende, antes de tudo, desses dois fatores.
	Pode-se, porm, dar uma orientao s pessoas capazes
e conhecedoras do que vo tratar, mas desarvoradas diante
da exposio escrita pela falta de uma boa preparao na
tcnica deste tipo de linguagem.


	2. Necessidade de um esquema

	Para um bom plano de exposio escrita no  suficiente 
conhecer bem um assunto, que  sempre coisa muito ampla 
e suscetvel de ser considerada de vrios pontos de vista.
	 preciso fixarmo-nos num determinado aspecto e trazer 
todos os outros, de que tambm queremos tratar, para
o feixe luminoso assim formado. Do contrrio, faltar unidade 
e organicidade ao nosso trabalho; faremos uma espcie 
de dicionrio enciclopdico, com verbetes desarticulados 
entre si, e cuja finalidade estrita fica obumbrada. Tem-se, 
preliminarmente, de focalizar o assunto, examinando-o
por um determinado ngulo. Com isso tomamos uma orientao 
e temos uma linha diretriz diante de ns.
	Essa tomada de posio se concretiza com um esquema. 
No  um ndice de matrias nem uma simples enumerao
 \61

































do que se vai dizer.  um arcabouo, que vai amoldar
sobre si a redao, da mesma sorte que os tecidos do corpo
se amoldam sobre o esqueleto.
	So assim lanados no papel os tpicos da exposio,
por meio de expresses rpidas e abreviadamente indicativas, 
articulados entre si como devero ficar no trabalho
planejado. Correspondero, respectivamente, aos captulos,
s seces, aos pargrafos, de acordo com a diviso que
temos em mente.
	O esquema tende, portanto, a ser um conjunto de chaves, 
 maneira dos chamados quadros sinticos: divises
primrias, subdivididas em outras secundrias, e assim por
diante. Mas no convm atermo-nos literalmente  feitura
de um quadro. Esta preocupao leva insensivelmente a 
fazer-se do esquema uma finalidade em si, subordinando-se
 sua disposio visualmente simtrica a disposio interna
do que se tem a dizer, ao mesmo tempo que as limitaes
de espao no papel embaraam a enunciao clara e ntida
de cada tpico.
	 prefervel, por isso, anotar os tpicos sem a 
regularidade estrita das chaves e subchaves, assinalando-se 
apenas a menor importncia relativa de um em referncia ao
outro por um aumento de margem no papel e por um item
convencional numrico ou alfabtico (em regra, usa-se o 
algarismo arbico como subdiviso de um tpico com algarismo 
romano, a letra minscula como subitem da maiscula,
e esta para indicar subordinao a um nmero).
	As diversas expresses enunciativas dos tpicos devem,
por sua vez, condensar a essncia da matria a que se 
referem. Com este objetivo, sero analticas ou sintticas,
constitudas de uma frase longa ou reduzidas a um ttulo
incisivo, sem que haja a preocupao de faz-las corresponder 
necessariamente s cabeas de captulos, de seces, de
pargrafos da exposio definitiva.


	3. Finalidade do esquema

	Antes de tudo, o esquema  feito para auxiliar e 
encaminhar o trabalho, e no deve transformar-se num 
empecilho da atividade mental subseqente. Durante a sua 
 \62


























execuo e nas fases ulteriores, podem aparecer falhas de 
planejamento e impor-se a necessidade de acrscimos, 
supresses ou modificaes.
	O esquema ficar, portanto, ao nosso lado como um
simples ponto de referncia, sempre sujeito a alteraes,
interpolaes e redues durante todo o correr do nosso
trabalho.  por natureza um instrumento provisrio e
precrio.


II. AS PESQUISAS E A BIBLIOGRAFIA

	1. As pesquisas

	Como j se frisou em referncia ao preparo da 
exposio oral, o conhecimento de um assunto nunca dispensa
pesquisas intensas e metdicas. Elas se impem ainda com
mais acuidade, quando se trata de uma obra escrita, sob a
forma de livro, monografia ou artigo, cuja contribuio 
deve procurar ser definitiva.
	Entretanto, essas pesquisas s devem vir depois da 
organizao de um esquema, muito embora exijam nele em
seguida mudanas de essncia ou detalhe. A pesquisa 
anterior  fixao de um esquema torna-se necessariamente
dispersiva e at, pois, perturbadora.


	2. A bibliografia

	Na exposio escrita, assumem uma importncia 
preponderante as pesquisas que se referem s fontes 
bibliogrficas. O trabalho escrito tem de fundamentar-se 
cuidadosamente noutros trabalhos escritos, como um elo do 
desenvolvimento dos estudos sobre a matria. Mesmo que
consubstancie as concluses de uma experincia pessoal,
precisa estear-se num conhecimento anterior, por sua vez
consubstanciado nos itens bibliogrficos de que se lanou
mo. Do contrrio, podemos prejudicar o nosso trabalho
no seu carter de contribuio ao assunto por um dos 
seguintes motivos, quando no por todos eles juntos.
 \63



























	1) repisar coisas j suficientemente esclarecidas;
	2) tirar concluses apressadas sobre uma experincia
          nossa, que uma experincia de outrem coloca na
    	    verdadeira perspectiva;
	3) avanar proposies que esto explcita ou 
          implicitamente negadas alhures e que, portanto,  preciso
          debater e consolidar;
 	4) deixar de relacionar as nossas concluses com outras 
          j assentes, que as nossas prolongam, confirmam
          ou ampliam.

	A consulta bibliogrfica, cuja necessidade  assim 
imperativa, deve satisfazer a trs principais requisitos:

	a) fornecer	um conhecimento	seguro do pensamento
	   geral dos trabalhos utilizados;
	b) pr-nos	em contacto com os tpicos essenciais de
	   cada trabalho, particularmente pertinentes  nossa
	   exposio;
	c) dar-nos a possibilidade de utilizar de pronto estes
	   dois tipos de conhecimentos e de fazer as citaes
	   diretas ou indiretas com preciso e rapidez.

	O melhor meio para isso  organizar fichas, 
capitulando-as pelos autores ou pelo assunto, conforme se trate 
de matria mais ou menos uniforme ou de matria multiforme
e ampla. De cada ficha devem constar - os dados bibliogrficos 
(nome do autor, ttulo da obra, data e lugar da edio
ou nmero desta, e, se se trata de traduo, nome do tradutor, 
ou, na sua falta, uma indicao equivalente), uma smula 
do trabalho, e os trechos que sentimos mais relevantes
e a que vamos talvez ter de recorrer. Se temos facilidade
de manusear o texto a qualquer momento, no  preciso
fazer transcries <ipsis litteris>; basta uma indicao rpida
do pensamento e do lugar em que ele se acha.
	No  indispensvel a leitura integral de todos os 
trabalhos. Mas devemos ler o bastante para nos esclarecer
completamente o pensamento geral do autor e nos fornecer
os dados particulares de que temos mister. As obras que
j conhecemos devem ser novamente lidas ou, pelo menos, 
folheadas com ateno. No confiemos em nossa memria,
 \64


























nem mesmo numa ficha antiga. Demais, um novo
contacto com a obra  sempre estimulante e vantajoso.


	3. A escolha das fontes bibliogrficas

	Ao contrrio do que poderia  primeira vista parecer,
raramente se impe a necessidade de uma bibliografia cabal 
e exaustiva. H muitos trabalhos que s tm um mero
valor histrico e podem ser postos  margem, desde que
a nossa exposio no seja, ou no contenha, uma histria
dos estudos sobre o assunto. Outros no trazem maior 
contribuio, e dizem imperfeitamente ou mal o que alhures
est excelentemente tratado. Outros, enfim, so irrelevantes,
quando no at prejudiciais, por falha ou erros de essncia.
	, em verdade, uma tarefa muito delicada essa de 
escolher as nossas fontes bibliogrficas e especialmente de
saber dar o devido valor a cada trabalho consultado, 
colocando-os implicitamente em nosso esprito de acordo com
a hierarquia a que fazem jus.
	O nosso conhecimento do assunto atenua de muito -
 claro - a dificuldade. Merc dos estudos anteriores, j
temos uma orientao geral a esse respeito: temos uma 
noo mais ou menos segura de quais so os trabalhos 
capitais, quais os autores dignos do maior apreo ao lado dos
que so superficiais ou de nenhuma substncia.
	Complementarmente, devemos guiar-nos pela data de 
publicao, pelo nome prestigioso do autor entre os especialistas,
pelas suas referncias a outras obras que inspiram confiana.
s vezes, num livro, o prefcio e o ndice so altamente 
elucidativos. Este mostra a maneira por que foi
abarcado o assunto; aquele d-nos o propsito declarado
da obra e muitas indicaes indiretas sobre a capacidade
e a viso intelectual de quem a escreveu.
	Se por contingncia da vida profissional temos de 
abordar matria com que estamos pouco familiarizados, 
devemos partir da leitura de trabalhos clssicos e 
compendiados, de que j temos conhecimentos ou de que obtemos 
informao junto a pessoas especializadas. Isso nos facultar 
uma tomada de posio em referncia  bibliografia.
 \65



























	Nunca devemos, porm, prescindir de um esquema
preliminar, porque sem o rumo que ele nos d no 
poderemos sequer orientar-nos para as pesquisas bibliogrficas
necessrias.


III. A REDAO DEFINITIVA

	1. Desenvolvimento do esquema

	Para um trabalho escrito a diviso do assunto se 
apresenta com muita maleabilidade e muitas possibilidades de
tratamento. No obstante, persistem <grosso modo> os quatro
tipos gerais de diviso que depreendemos para uma exposio 
oral: cronolgica, lgica, psicolgica e dramtica, para
manter as denominaes ento sugeridas.
	Convm apenas ressaltar que, num livro ou numa 
monografia de certo flego, se torna especialmente apropriada
a estruturao pelas relaes lgicas, pois a temos mais
oportunidade e espao para acompanhar o meandro caprichoso 
dos fatos e cingi-los num quadro racional; podemos,
por exemplo, abrir um pargrafo, uma seo ou um captulo, 
aparentemente solto no conjunto e at digressivo, na 
segurana de que, no correr da exposio, se far o reatamento 
e tudo se enquadrar na devida perspectiva com a viso
ampla final.
	O esquema, assim concebida uma determinao diretriz, 
deve ser desenvolvido numa redao ainda preliminar,
que  o rascunho.
	 a que fixamos propriamente o teor da exposio.
Atribumos a cada diviso da trabalho o seu contedo 
essencial; estabelecemos a gradao e ligao das diversas 
partes; escolhemos uma apresentao adequada, adotando 
captulos corridos e indivisos ou cuidadosamente seccionados;
desenvolvemos uma redao de frases completas e encadeadas; 
enfim, executamos um trabalho cabal quanto ao pensamento 
e sua formulao, sem cogitar ainda daqueles problemas 
secundrios da linguagem escrita, tais como se definiram 
no captulo VI.
	Uma vez lanado o rascunho no papel, convm l-lo
repetidamente e atentar em tudo aquilo, quanto s idias
 \66


























e  sua expresso ntida, em que ainda se sente insegurana 
ou possibilidade de aperfeioamento. A redao definitiva 
ir constituindo-se aos poucos atravs de enxertos, 
supresses e mudanas de contedo.


	2. A redao definitiva

	Uma redao completa surge assim da reviso, muitas
vezes feita, do rascunho. Com ela diante de ns, podemos
ento encetar a redao que deve ser definitiva, com a 
considerao posta nos problemas de gramtica, de escolha de
vocbulos, de harmonia e efeito esttico das frases.  um
verdadeiro novo escrito, antes do que a rigor o rascunho
passado a limpo.
	E mesmo uma pessoa altamente exercitada em escrever
no deve ainda ver nisso seu trabalho final. Por o esprito
 vontade em referncia a certos detalhes formais que, 
dignos de cuidado embora, ficaro para revises posteriores e
no a desviaro, nessa altura, dos problemas mais bsicos.
	 quase intil salientar que no rol desses detalhes se 
incluem naturalmente as pequenas dvidas de ortografia.
	O trabalho da redao obedece assim ao modelo dos
crculos concntricos: do esquema passa-se para o 
rascunho, do rascunho para uma redao propriamente dita,
e esta, ampliada e trabalhada paulatinamente, chega a uma
forma definitiva.
	Evita-se destarte o mal que os norte-americanos 
chamam de <frozen pencil>, quando diante do papel em branco
sentimos que as palavras no nos ocorrem, e, para cada
uma que conseguimos escrever, corresponde um penoso 
esforo introspectivo, em que duvidamos dela e de ns. 
que nos falta ento uma orientao inicial definida - a que
d o esquema, e uma viso do conjunto preliminar - a
que se concretiza no rascunho, ao mesmo tempo que se nos
antolha toda sorte de problemas de detalhes numa fase em
que s nos deveria preocupar o problema bsico da 
consolidao do pensamento e da sua formulao verbal adequada.
 \67





























	3. Apresentao grfica da exposio

	Resta aludir rapidamente  apresentao grfica da
exposio.
	A sua importncia  maior do que poderia parecer 
primeira vista, porque a distribuio do texto no papel 
concorre para tornar a leitura mais fcil e mais atraente.
	Assim, prejudica a atrao do texto o uso contnuo de
longos e compactos pargrafos e o de extensos captulos
sem subdivises, onde os olhos no conseguem deter-se
e repousar nas demoradas "pausas visuais" dos espaos em
branco.  tambm de mau efeito o excesso de palavras em
grifo, em itlico, em versalete, em capital, embora s vezes
no se possa evitar o grifo ou o itlico para caracterizar 
palavras estrangeiras, ou assinalar citaes, ou frisar a 
importncia de determinada palavra ou expresso na frase, e o 
versalete ou capital para nomes de autores, quando pela 
natureza do trabalho  de interesse cit-los 
documentadamente e com nitidez.
	A facilidade da leitura, por sua vez, depende muito de
um metdico sistema de notas e referncias.  pouco 
aconselhvel remeter para elas informaes abundantes, que 
sempre possvel incluir no prprio texto; como pouco 
aconselhvel  igualmente suprimi-las ou reduzi-las de tal 
maneira que o texto fique, em compensao, sobrecarregado
de parnteses ou elucidaes entre vrgulas, com prejuzo
da sua unidade de conjunto.
	Em resumo: a apresentao grfica deve ser leve (sem
parcimnia de pargrafos; e com espaamentos de entrelinhas, 
marcados com subttulos, numerao ou asteriscos,
aliviando uma longa exposio seguida) ; tanto quanto 
possvel no deve haver abuso de tipos especiais que quebrem
a homogeneidade das letras na pgina; e as notas de 
referncia devem ser sucintas e dedicadas a informaes 
realmente marginais. A colocao dessas notas embaixo 
da pgina, no fim de cada captulo ou no fim do trabalho, 
deve depender principalmente do seu nmero e volume: a 
primeira disposio  a mais cmoda, em princpio, mas se 
torna inconveniente, quando as notas quase aambarcam a 
pgina e deixam para o texto um espao desproporcionadamente
pequeno.
 \68

Captulo VIII

A ESTRUTURA DA FRASE


I. A CONSTITUIO DOS PERODOS

	l. O perodo

	Por este nome entende-se na lngua escrita uma frase
simples ou complexa, curta ou longa, que se separa de outras 
pelo sinal grfico chamado <ponto> (.). A caracterizao
visual, determinada pelo ponto e pela letra maiscula com
que a frase se inicia, corresponde:

	a) no plano intelectual a um pensamento suficientemente 
         desenvolvido e concluso para ser inteligvel sem
	   maior auxlio da frase precedente ou da seguinte;
	b) no plano da elocuo a uma enunciao contnua,
	   apenas cortada por pequenas pausas de voz em 
	   suspenso e encerrada por uma pausa bem definida.

	Os perodos contm, portanto, em princpio, um 
pensamento complexo, isto , um pensamento que, relacionando-se 
embora a outros anteriores e prolongando-se ou ampliando-se 
em outros seguintes, , no obstante, suficiente por si
mesmo para "formar sentido" de maneira satisfatria.
	Se esse pensamento  uno, integra-se no que se chama
uma orao, e o perodo  simples. Pode-se tambm ter, 
entretanto, duas ou mais oraes num s perodo, que ento
consiste numa articulao de pensamentos, da mesma sorte 
que de uma articulao de ossos resulta um brao, uma
caveira, uma caixa torcica.
	Dentro de certos limites,  possvel expressar dois ou
mais pensamentos, sem essa articulao estreita, em dois
 \69

































ou mais perodos simples, ou, noutra alternativa, conjug-los 
na unidade complexa de um s perodo mais longo. Da
resultam duas tendncias para a formulao verbal:

	a) a dos perodos simples e curtos;
	b) a dos perodos longos e compostos.

	A primeira predomina na linguagem moderna; a segunda 
era a dos grandes escritores latinos, imitados pelos
autores portugueses clssicos dos sculos XVI e XVII e por
alguns mais recentes.


	2. A articulao no perodo

	Os pensamentos que se articulam num perodo composto 
podem criar entre si quatro espcies de ligao:

	a) concatenao pura e simples;
	b) contraste;
	c) explicao;
	d) subordinao em geral.

	Nos casos a, b e c essa ligao pode ficar implcita
entre as oraes ou ser expressa por uma partcula.
	Assim, a concatenao pura se torna explcita pela 
partcula <e>; o contraste por <mas> e algumas outras partculas; a
explicao, principalmente, por <pois, porque e porquanto>.
	Essas trs primeiras espcies de ligao de pensamento,
ditas de coordenao, no estabelecem uma coeso ntima,
e as oraes assim relacionadas podem muitas vezes formar
perodos distintos, at com a faculdade de conservar a 
partcula intermediria, que passa a abrir um perodo. H 
mesmo certas partculas especialmente prprias para coordenar
um perodo com outro: <demais, alm disso> (concatenao) ;
<entretanto, todavia, no obstante> (contraste); <com efeito>
(explicao); etc.
	J a subordinao pressupe normalmente um perodo
nico e a presena sistemtica de uma partcula (<que, quando, 
enquanto, embora>, etc.) ligando  orao de pensamento 
central, ou orao principal, a que lhe  subordinada.
 \70


























	3. A tcnica do perodo curto

	A separao dos pensamentos mais ou menos 
conjugados em perodos curtos e distintos tem a vantagem de
apresent-los de uma maneira gradual  compreenso. O
leitor faz a consolidao do que l e o ouvinte do que ouve,
na pausa de um perodo a outro. Se o perodo  longo e
complexo,  preciso um trabalho de anlise do conjunto,
a qual exige tenso mental e resulta em cansao. Os 
perodos curtos vo oferecendo por si mesmos essa anlise,
e a compreenso se faz com muito menos esforo.
	Ora, a tcnica para a formulao de perodos curtos 
reside em separar com inteligncia as oraes coordenadas
e evitar as subordinaes mais aparentes do que reais, para
no incidir em composio de um perodo emaranhado e
complexo.
	Procuremos aplicar a doutrina ao seguinte trecho de
um velho cronista do sculo XVII:

		"Posto que o governador Mem de S no estava
	ocioso na Bahia, no deixava de estar com o 
	pensamento nas coisas do Rio de Janeiro, e assim, 
	sacudindo-se de todas as mais, aprestou uma armada, e com
	o bispo D. Pedro Leito, que ia visitar as capitanias
	do sul, que todas naquele tempo eram da sua diocese
	e jurisdio, e com toda a gente que pde levar desta
	cidade, se embarcou e chegou brevemente ao Rio, onde
	em dia de S. Sebastio, vinte de janeiro do ano de
	mil quinhentos e sessenta e sete, acabou de lanar os
	inimigos de toda a enseada, e os seguiu dentro de suas
	terras, sujeitando-os ao seu poder e arrasando dois 
	lugares em que se haviam fortificado os franceses, posto
	que em um deles, que foi na aldeia de um ndio principal, 
	lhe feriram seu sobrinho Estcio de S de uma
	mortfera flechada, de que depois morreu" (Antologia 
	Nacional, cit., p.267).

	Se analisarmos este longo perodo, de Frei Vicente
do Salvador, depreendemos pensamentos distintos, que se
acham, desnecessria e at artificialmente, jungidos num
bloco nico:
 \71


























	1) Mem de S estava atarefado na Bahia, mas 
	    preocupava-se com a situao no Rio de Janeiro (dois
	    pensamentos adversativos, que j podem constituir
	    um perodo).
	2) Mandou aprestar uma esquadra e partiu para o Rio
	    de Janeiro (pensamento que decorre da 2 afirmao 
	    do l grupo).
	3) Foi com ele o bispo D. Pedro Leito em visita 
	    diocesana (pensamento independente dos anteriores).
	4) Chegou ao Rio de Janeiro em breve (mera seqncia 
	    dos grupos 1 e 2).
	5) No dia de So Sebastio conseguiu expulsar os 
	    franceses de toda a enseada (ainda um pensamento em
	    seqncia, mas culminante e para que se imporia
 	    nitidamente um perodo especial).
	6) Perseguiu o inimigo terra a dentro e desalojou-o de
	    dois lugares no interior (informao complementar
	     do grupo 5) .
	7) Num desses lugares foi ferido o sobrinho do 
	    governador, Estcio de S (pensamento a rigor novo e
	    que s se liga aos anteriores como um episdio muito 
          importante no quadro geral da luta).

	8) Estcio de S morreu posteriormente dessa flechada 
   (seqncia culminante do grupo 7) .

	 fcil ver como os itens assim analisados se prestam
a constituir perodos autnomos, num conjunto mais claro
e harmonioso e at muito mais lgico.
	A tcnica dos perodos curtos , alm de tudo, vantajosa 
para o expositor, evitando que ele se embarace no
meandro das frases que no perodo longo se cortam e 
entrelaam. O perigo  mais agudo na exposio oral, onde se
torna difcil manter clara a lembrana do que acaba de
ser dito, e uma pausa franca permite recapitul-lo mentalmente 
e rapidamente formular um pequeno perodo seguinte.


	4. Subordinao por orao reduzida

	A subordinao de uma orao a outra pode ser expressa 
pelo uso do verbo numa das chamadas formas nominais 
em vez de uma forma verbal estritamente dita com
 \72

























partcula subordinativa: infinitivo, gerndio, particpio 
passado. A subordinao fica assim muito mais intensa. No
caso do infinitivo, no se chega at em regra a sentir a
existncia de uma orao distinta: uma frase como <vi-o
sair>  praticamente uma unidade indivisvel, ao passo que
h certa disjuno de pensamento em - <vi que ele saa>.
	Justamente por isso o uso da orao reduzida torna-se
de mau efeito, quando a subordinao real no  bastante
forte para justific-la.
	As oraes reduzidas de gerndio prestam-se a esse
mau emprego, que ainda mais se agrava quando se subordina 
um gerndio a outro gerndio.


	5. Construo psicolgica da frase

	Pelo enlace subordinativo concatenam-se as oraes
nos moldes de um raciocnio verbal rigorosamente 
desenvolvido. Mas h, paralelamente, a possibilidade de uma
construo que podemos chamar psicolgica. A, as idias
de maior interesse se apresentam destacadas e aparentemente 
soltas da trama lgica, sob o aspecto de perguntas
e exclamaes.
	Usado com habilidade e sem exagero, esse meio de
formulao verbal alivia a exposio e a tenso de esprito
do ouvinte ou do leitor.
	Lingisticamente, o resultado  ficar rompido um 
perodo composto por subordinao, exprimindo-se um 
pensamento, imanentemente de carter subordinado, numa 
frase autnoma interrogativa ou exclamativa.
	 interessante apreciar o processo em funcionamento
sob a pena de um mestre da palavra.
	Alexandre Herculado, nos <Opsculos>, para nos dizer
em essncia - no creio que houvesse ou haja hoje um
democrata mais virulento do que Hildebrando (9), opta por
uma formulao em que o pensamento, objeto dessa crena,
surge em primeiro lugar numa pergunta independente e a
sua convico a respeito se cancretiza em incisiva e imediata

(9)  o famoso Papa do sculo XI, Gregrio VII; que abriu contra 
    a Coroa Germnica a Luta das Investiduras.
 \73


























resposta: "Houve, h hoje um democrata mais virulento
do que Hildebrando? No o creio" (Vol. III, p.52; 1886).
	Analogamente, para afirmar que - o direito de 
propriedade literria no aproveita a um jovem pobre e 
idealista que se inicia como escritor - pe a idia sujeito
numa exclamao isolada, a que se segue uma pergunta
enftica com a resposta sugerida em seus prprios termos:
"O direito de propriedade literria! Que aproveita esse 
direito a um mancebo desconhecido, em cuja alma se eleva

a santa aspirao da arte ou da cincia e para quem, no
bero, a fortuna se mostrou avara?" (Vol. II, p.85; 1880).


II. II. A ANLISE LGICA

	1. Sua aplicao e finalidade

	A anlise mental que evidencia a relao entre a frase
e os pensamentos por ela expressos tem o nome tradicional
de anlise lgica: <anlise>, porque se trata de uma 
decomposio da enunciao e da atividade mental correlata; 
<lgica>, porque se concentra no exame da expresso verbal
(grego - lgos: palavra). (10)
	 de vantajosa aplicao nas manifestaes da linguagem 
conseqentes de um raciocnio, como nas exposies
orais e escritas de que cogita este Manual. Torna-se, ao 
contrrio, um meio imprprio de anlise para tudo que dizemos
sob o impulso quase exclusivo das nossas volies e emoes, 
sem o apoio de um trabalho mental elaborado e consciente.
	Por meio dessa tcnica de observao podemos executar
duas tarefas:

	a) decompor um perodo composto nas suas oraes 
         simples, de par com a decomposio do pensamento 
         complexo que a se consubstancia (separao
         e classificao das oraes);
	b) decompor uma orao nos elementos verbais que
         racionalmente a constituem (anlise da orao).

(10) Como o raciocnio , por sua vez, apreciado atravs de sua 
expresso verbal, chamou-se substantivamente lgica  parte da 
filosofia que ensina a bem raciocinar.
 \74

























	A boa formulao das frases, numa exposio oral ou
escrita, depende muito da capacidade de manter presentes
no esprito esses dois tipos de anlise, como duas pautas 
sobre as quais se desenvolvem espontaneamente os elementos
verbais formulados.


	2. A anlise lgica como fundamento do uso das vrgulas

	A vrgula, na escrita, expressa menos as pausas naturais 
da correspondente enunciao oral, do que as relaes 
lgicas no interior da frase.
	A sua primeira e grande finalidade  indicar a separao 
das oraes no perodo, indicando tambm em conseqncia 
a ligeira pausa que assim se estabelece.
	Por isso, marca-se com vrgula:

	a) o fim de uma orao, logo seguida de outra sem
   	   partcula de ligao: "Posto que o governador Mem
   	   de S no estava ocioso na Bahia, no deixava de
   	   estar com o pensamento nas coisas do Rio de Janeiro;
	b) o comeo de uma orao que no meio do perodo se
   	   abre por uma partcula coordenativa ou subordinativa: 
   	   "Acabou de lanar os inimigos de toda a enseada, 
   	   e os seguiu dentro de suas terras";
	c) o comeo de uma orao reduzida de gerndio ou
   	   tambm de particpio passado: "...os seguiu dentro 
   	   de suas terras, sujeitando-os ao seu poder";
	d) o comeo e o fim de uma orao intercalada em
   	   outra, cujos elementos constitutivos ficam por ela
   	   separados : "Em um dos lugares, que foi na aldeia
   	   de um ndio principal, lhe feriram seu sobrinho
   	   Estcio de S".

	No caso b) omite-se a vrgula de separao, se a segunda 
orao est intimamente entrosada na anterior; especialmente 
dois verbos seguidos, ligados por <e>, ou certas
oraes com a partcula <que>, correspondentes em ltima 
instncia a um nome ou expresso nominal; exs.: "Parou e
voltou rapidamente" -  preciso que todos me ouam (isto
, -  preciso a ateno de todos)".
 \75


























	Dentro de uma orao,  descabida a vrgula que, 
embora no fim de um grupo de fora, separaria o sujeito do
seu verbo, o verbo de um seu complemento.
	Podemos dizer, alis, que dentro da orao s se admite 
a vrgula com dois objetivos:

	a) separar palavras ou expresses da mesma categoria
	   (particularmente substantivos e adjetivos) postas em
	   srie e no ligadas por <e> : "Integram-se em ti o 
         talento, a honradez, a bondade";
	b) assinalar certos advrbios ou expresses adverbiais
	   que para efeito de nfase ou clareza se destacam
	   na enunciao oral por uma ligeira pausa de 
         e outra no fim: "O sertanejo , antes de tudo,
         um forte".

	 uma habilidade saber utilizar as possibilidades do
caso b) para longo enunciado escrito, correspondente a uma
s orao, aliviando-o com vrgulas que permitam o repouso 
na leitura e a melhor apreenso do sentido.


	3. Os elementos da orao

	A anlise de uma orao pe em evidncia o verbo.
 ele a rigor o ncleo dessa pequena unidade lingstica.
Em volta dele, temos em regra geral um <sujeito> com que
ele concorda em pessoa e nmero, e certos complementos
com idias elementares, que se combinam  do verbo para
formar outra mais complexa.
	A boa formulao da orao depende da eficincia
com que sentimos quase instintivamente estes seus trs
elementos verbais.  uma capacidade que se torna 
particularmente importante numa lngua como a portuguesa,
em que no h para eles uma ordem preestabelecida e
fixa. Acresce que a orao pode ser cortada por outra,
incidente, depois da qual  preciso retomar o fio dos 
elementos assim interrompido.
 \76

Captulo IX

A ORTOGRAFIA


I. CONSIDERAES GERAIS

	1. Finalidade da ortografia

	A ortografia  um problema marginal da lngua escrita.
	A sua importncia est em permitir-nos pela leitura
dos smbolos grficos reproduzir mental ou oralmente os
sons de que se compem as palavras. Secundariamente, a
forma visual que a palavra assim assume concorre para
fazer-nos reconhec-la e auxilia a evocao dos seus sons
ou fonemas.
	 evidentemente indispensvel um sistema grfico nico 
para se conseguir essa dupla finalidade. Dentro de uma
unidade de linhas gerais, h, entretanto, dois critrios
possveis:

	a) um sistema um tanto elstico, fixando apenas os
	   princpios da ortografia;
	b) um sistema rgido e minucioso imposto pelo governo
	   do pas.

	At 1931 a ortografia no Brasil era do primeiro tipo.
Havia uma elasticidade que se manifestava por certa 
incoerncia na escolha das letras e por certa liberdade na
grafia de vrias palavras.
	Em 1931 adotou-se o tipo de sistema rgido, pautado
pelo que vigorava em Portugal desde 1912. Resultou de
um acordo com os portugueses, e as suas linhas gerais 
ficaram fixadas definitivamente.
	Houve, no obstante, marchas e contramarchas em 
questes de detalhes. Atualmente segue-se o que est firmado
 \77
































no <Pequeno Vocabulrio Ortogrfico> da Academia Brasileira
de Letras (1943).  verdade que a prpria Academia fez
modificaes posteriores, de acordo com a Academia de 
Cincias de Lisboa, publicando um <Vocabulrio Resumido da
Ortografia Portuguesa> (1945), que o Governo Brasileiro, 
porm, no mandou adotar.
	Assim, em portugus, vigora em princpio um sistema
rgido, mas com detalhes controvertidos entre Portugal e
o Brasil. As ortografias, usadas num e noutro pas, s 
concordam em suas linhas gerais. (11)


	2. Erros graves de ortografia

	Os erros intrinsecamente graves em matria de ortografia 
resumem-se em dois grupos:

	a) erros que revelam o desconhecimento do valor das
	   letras;
	b) erros na grafia de palavras fixada j muito antes
	   de 1931.

	a) Os do grupo a s se verificam evidentemente na escrita 
de pessoas apenas semi-alfabetizadas.
	b) Os erros do grupo b pem em evidncia pouca prtica 
da leitura e da lngua escrita, e o pblico tende, por
isso, a tirar da concluses desfavorveis sobre a cultura
geral de quem os comete. Decorrem muitos deles de falsas
associaes.  preciso muito cuidado, por exemplo, com
palavras como - <exceo>, onde no h relao com <excesso>,
<privilgio>, onde no h o prefixo <pre->, mas ao contrrio o
radical de <privar, repuxo>, cujo radical  o mesmo de <puxar,
viagem>, onde temos o mesmo sufixo - <agem> de <coragem,
selvagem>, etc., <espontneo>, onde no h o prefixo <ex> - e
sim o radical do latim <sponte>, e pelo mesmo motivo <esplndido> 
latim <splendere>) e <estranho> e <estrangeiro> (decorrentes
do latim <straneum>).
Os erros que pecam apenas contra as linhas gerais do
sistema vigente desde 1931 so menos comprometedores,

(11) A lei 5.765, de 18-12-1971, introduziu alteraes na 
     ortografia em vigor, como: a abolio do acento 
     circunflexo diferencial no <e> e <o>.
 \78 
























mas tambm revelam, pelo menos, falta de ambientao na
lngua escrita atual e condenvel desleixo em procurar ficar
em dia com ela.
	 til, portanto, recapitularmos aqui essas linhas 
gerais, definitivas, onde no h conflito entre o Pequeno 
Vocabulrio de 1943 e o Vocabulrio Resumido de 1945.


II. LINHAS GERAIS DA NOSSA ORTOGRAFIA

	l. Simplificao do alfabeto

	A ortografia atual limita-se ao alfabeto latino de 24
letras.
	Desapareceu assim o emprego do <w>, que  uma letra
germnica, com valor de /u/ em palavras de origem inglesa
e de /v/ em palavras de origem alem; da, escrever-se hoje
<usque> (ingls <whisky>), talvegue (alemo <Talweg>, isto ,
linha do vale).
	Suprimiu-se igualmente o k, que  adaptao de uma
letra grega muito cedo abandonada em latim e apenas de
uso tradicionalmente firmado nas lnguas germnicas. Em
seu lugar, adota-se <c>, diante de <a, o, u, e qu>, diante de <e, i>;
assim, tem-se <quilo, quilograma, quilmetro> etc., embora
na anotao abreviada convencional se conservem as formulas 
<kg, km>, etc.
	Foi banido tambm o emprego do y, letra adaptada de
uma letra grega em latim para os grecismos e utilizada
pelos jesutas para transcrever um /i/ peculiar das palavras 
do tupi: <miostis> (lat. <myosotis> do grego - <mys> rato,
isto , orelha de rato), <tupi> (transcrio dos jesutas - <tupy>).
	Essas trs letras s se mantm em casos excepcionais,
como sejam certas palavras derivadas de nomes prprios
histricos estrangeiros: <kantismo> (filsofo alemo Kant),
<byronismo> (poeta ingls Byron), <watt> e da <quilowatt> 
(fisico escocs Watt).
	Finalmente desapareceu o uso espordico do <h> para 
indicar separao silbica entre duas vogais contguas, 
passando-se a grafar - <ba, baa, Pira>, etc.
 \79




























	2. Simplificao de grupos de letras

	Antes de 1931, usavam-se letras dobradas em muitas
palavras que eram assim grafadas em latim, onde havia
uma diferena de pronncia entre a letra dobrada e a letra
simples, da mesma sorte que ainda h em italiano. Esses
grupos de geminao (com letras gmeas ou iguais) foram
sistematicamente simplificados, quando no representam
em portugus uma articulao tpica.
	Foram, portanto, banidos os <pp, tt, ff, ll, mm, nn> 
geminados; exs.: <apelar, atento, ofcio, belo, imenso, inato> (lat.
<appellare, attentum, officium, bellum, immensum, innatum>);
do mesmo modo simplificou-se para <c> o <sc> inicial: cincia
(latim <scientia>).
	Conservaram-se, ao contrrio, entre vogais, os <ss>, para
indicar som de /s/, distinto do <s> simples com som de /z/,
e os <rr>, para indicar /r/ forte, distinto do <r> simples, que
entre vogais  brando; cf. <assa> ao lado de <asa>, <erra> ao
lado de <era>.
	Tambm se suprimiu o <h> como segundo elemento de
um par de consoantes, que se empregava em latim em palavras, 
decorrentes do grego, onde se tinha um som consonantal 
aspirado; assim, escrevemos hoje <t> simples em vez de
<th>, em <tese>, <f> em vez de <ph> em <fsica>, e, em vez de <ch>, 
<c> em <caos> e <qu> em <qumica>.
	S persistem na nossa ortografia trs grupos consonantais 
com <h>, e historicamente diversos daqueles outros, pois
em latim no figuravam nem eles nem o som correspondente: 
<lh> e <nh>, respectivamente para o /l/ e o /n/ palatizado
ou molhado; <ch>, para um som palatizado ou chiante; ex.:
<malha> (cf. <mala>), <penha> (cf. <pena>), <acho> (cf. <ao>).


	3. Seleo de letras equivalentes

	Com toda essa sistematizao e simplificao, ficaram
ainda smbolos grficos com som equivalente, sempre ou
numa posio determinada; lem-se da mesma sorte os pares 
de slabas; <se> e <ce> (ou <si> e <ci>), <so> e <o 
(ou <sa> e <a>, <su> e <u>), <che> e <xe> ou com outra vogal, 
<ge> e <je> (ou <gi> e <ji>), bem como entre vogais <s> e <z>.
 \80


























	Para fazer-se a seleo entre eles, adotou-se um rgido 
critrio histrico, servindo de modelo a forma originria 
latina, de acordo com o seguinte esquema:

	1) Para o som de /s/;
	   lat. <c, t> - port. <c> (ou <z> em fim de palavra);
	   lat. <s>, <x> - port. <s>;
	   exs.: <vez> (lat. <vice>), <quis> (lat. <quaesi>), sossegar
	   (lat. <sessicare>), <nsia> (lat. <anxia>); <sufixo> - <s> 
	   (lat. <ensem>); donde <portugus, corts>, etc.
	2) Para o som de /z/ entre vogais:
   	   lat. <c, t, d, z> - port. <z>;
   	   lat. <s> - port. <s>;
	   exs.: <trezentos> (lat. <trecentos>), <prezar> (lat. <pretiare>),
	   <gozo> (lat. <gaudium>), <presa> (lat. <prensa>): e portanto
	   <surpresa, represa, empresa>; sufixo - <izar> (lat. <-izare>),
	   donde <batizar, civilizar>, etc.
	3) Para escolha entre <ch> e <x>:
	   lat. <cl, pl, fl> - port. <ch>;
	   lat. <x, s, sc> - port. <x>;
	   exs.: <chave, chuva, chama> (lat. clavem, ptuvia, 
	   flamma>), <luxo> (lat. <luxu>), <puxar> (lat. <pulsare>), 
	   <mexer> (lat. <miscere>).
	4) Para a escolha de <g> ou <j> diante de <e> ou <i>:
	   lat. <g> - port. <g>;
	   lat. <j> (a rigor <i> consoante), <di> - port. <j>;
	   exs.: <anglico> (lat. <angelicum>), <majestade> 
	   (lat. <majestatem>, a rigor <maiestatem>), <hoje> 
	   (lat. <hodie>), <jeito> (lat. <jactum>, a rigor <iactum>).

	s vezes, a letra originria latina, em regra com o som
originrio, existe ainda numa palavra portuguesa da mesma 
famlia. Assim, temos ao lado de - <vizinho, vicinal;
prezar, preo e apreciar; ms, mensal; puxar, pulsar; mexer, 
miscigenao; trezentos, trecentsimo, jeito, jacto, hoje,
hodierno>; como ao lado do sufixo <-s> (ex.: <francs>) a sua
outra forma - <ense> (cf.: <parisiense>).
	Nas palavras de origem no-latina, procurou-se estabelecer 
um critrio histrico paralelo. Por isso, de acordo com
determinadas letras rabes, adota-se entre inmeros exemplos 
<c> em vez de <s>; <z> em vez de <s> entre vogais ou final, <j>
 \81


























em vez de <g> (diante de <e> ou <i>), <x> em vez de <ch>; em 
<aucena, acar, giz, laranjeira; alfanje, pax>. Nas de 
origem alem, o <z> alemo passa a ser representado por <c> 
(Sua, radical alemo <Switz>, que entra em <Switzerland>); 
e nas de origem inglesa o <sh> fica transcrito por x (<xerife>, 
aportuguesamento de <sheriff>). A provenincia africana ou ndia 
 a razo da preferncia de <x> a <ch>; e de <j> a <g> diante 
de <e> ou <i> em <xar, xang, jibia, jil>.


	4. Distino grfica entre homnimos

	Esse critrio histrico cria, em conseqncia, distines
grficas entre homnimos de origem diversa: <massa> (pasta 
e termo de fsica) e <maa> (bloco ou uma espcie de machado; 
com os derivados <macete, macio, maudo>); <concerto>
(combinao em geral, ou conjugao de dois ou mais instrumentos 
musicais) e <conserto> (ato de recompor o que se estragou); 
<chcara> (amplo terreno plantado) e <xcara> (cantiga popular 
portuguesa); <em vez> (em lugar) e <ao invs> (ao contrrio) .
	s vezes surgem da dificuldades e solues um tanto
especiais. Assim, <massa> no sentido de povo  com <ss>, porque
a origem do emprego est na linguagem figurada dos doutores 
da Igreja, que comparavam o povo  massa ou pasta
do po ou do barro em que  preciso trabalhar.(12) <Conselho>,
no sentido de assemblia, pareceria dever ser com <ce> (lat.
<concilium>), mas a idia de aconselhar o rei, que era o papel
precpuo de uma assemblia de notveis outrora, foi julgada 
suficiente para justificar a grafia com <se> (lat. <consilium>) ;
e a forma <concelho> ficou exclusivamente reservada para 
designar uma diviso administrativa em Portugal.
	Por outro lado a distino grfica  mera conseqncia
acidental de uma forma diversa originria, e no vigora,
como se poderia pensar, para sistematicamente diferenar
os homnimos; por isso, temos uma mesma grafia <pus> para
o substantivo e a forma verbal (respectivamente, lat. <pus> e
<posi> em vez de <posui>).

(12) Cf. B. B. Migliolini, Lngua e Cultura, Tumminelli, Itlia, 
     1948, p.18-9, assim Santo Agostinho diz que a humanidade  
     "a massa do pecado".
 \82



























	5. Representao dos ditongos

	H em portugus onze ditongos orais decrescentes, isto
, emisses, na mesma slaba, de uma vogal tnica seguida
de outra auxiliar, que soa sempre /i/ ou /u/. Antes de 1931,
em desateno ao verdadeiro valor dessa vogal auxiliar,
muita gente a grafava com <e> ou <o>, respectivamente, quando
a vogal tnica era aberta.
	Hoje, ao contrrio, ficou assente a grafia sistemtica
com <i> ou <u>, conforme o caso, indicando-se por um acento
agudo (') o timbre aberto do /e/ ou do /o/ tnicos, que
sem isso poderiam ser lidos como fechados; exs.: <pai, mau,
papis, fazeis, cu, seu, heri, boi> (exemplos dos trs 
restantes ditongos so - <dou, viu, fui>).

	J nos ditongos ditos nasais (sobrepostos de um til -
(~) na escrita) a vogal auxiliar  representada por <e> ou <o>:
<me, pe, mo>.


III. ACENTUAO GRFICA

	1. Acentos grficos em portugus

	Usam-se tradicionalmente em portugus trs acentos
grficos com os seguintes valores:

	a) grave (`) para indicar vogal aberta que no  tnica 
   	   (normalmente a vogal que no  tnica  fechada);
	b) agudo (') para vogal aberta tnica;
	c) circunflexo (^) para vogal fechada tnica.

	Esses sinais eram usados numa ou noutra palavra, 
assistematicamente. A ortografia atual, ao contrrio, criou para
o seu emprego critrios rgidos que tm sido refeitos vrias
vezes, Ficaram, entretanto, definitivamente fixadas algumas
regras, que aqui se passam a expor.(13)

(13) Ver a nota 11 da p.78.
 \83





























	2. Emprego do acento grave

	Este sinal est reservado para a partcula <a>, quando ela
representa a combinao ou crase da preposio <a> com o
artigo feminino <a> (ou seu plural <as>) e para o <a> inicial de
<aquele, aquela> (ou seu plural <aqueles, aquelas>) quando com
ele se contrai a preposio <a>. Em conseqncia da crase, a
vogal soa neste caso aberta, embora no seja tnica.
	No Brasil, h a este respeito duas tendncias de pronncia, 
que perturbam o uso correto do acento grave:

	1) emitir sempre a partcula tona a com timbre fechado, 
	    mesmo quando ela  crase da preposio com
	    o artigo feminino;
	2) para efeito de nfase, dar certa acentuao e 
	    conseqente timbre aberto  preposio <a>, quer 
	    isolada, quer em crase com o artigo feminino.

	A primeira pronncia leva a omitir o acento grave na
partcula que resulta da crase. A segunda tendncia induz
a colocar-se acento grave mesmo quando se trata de preposio 
<a> isolada.
	Na falta de uma correspondncia firme entre a elocuo 
usual brasileira e o emprego grfico estabelecido de
acordo com Portugal, s a anlise lgica resolve em ltima
instncia as nossas dvidas.
	Entretanto, pode-se dar para isso as seguintes regras
prticas:


	1) Nunca acentuar a partcula diante de nome masculino, 
	    de verbo no infinitivo, dos demonstrativos
	    <esta, essa> e do artigo indefinido <uma, umas> (ou 
	    outros indefinidos como <cada, alguma, qualquer>), 
	    porque em todos esses casos se trata da preposio 
	    simples: <andar a cavalo, recusar-se a combater, 
	    dirigir-se a uma frente de combate ou a esta frente de
	    combate>.
	2) Pelo mesmo motivo nunca acentuar a partcula, se
	    ela est sem <-s> final, diante de um plural feminino :
	    <dirigir-se a tropas que avanam>.
 \84


























	3) Ainda pelo mesmo motivo, nunca acentu-la diante
	    de nome de cidade que se use sem artigo: ir <a Paris:
	    a Londres, a Petrpolis>.
	4) Acentuar a partcula nos complementos de tempo,
	    de lugar, de modo, quando est diante de um nmero 
	    de horas ou de nome feminino: <atacar s 3 horas,
   	     noite,  beira-mar,  fora (ao contrrio - <atacar
    	    a fora> seria atacar uma determinada fora).
	5) Acentuar a partcula diante da palavra <moda> clara
          ou oculta: <fortificao  Vauban>.


	3. Emprego do acento agudo

	Coloca-se sistematicamente o acento agudo sobre as 
vogais tnicas <e> e <o> (quando abertas) e <a, i, u>:

	a) nos proparoxtonos: <mrmore, tmido, cpula, lpido,
	   slido>;
	b) nos paroxtonos terminados num grupo de duas vogais 
	   tonas: <gua, repdio, areo, glria, nveo>.
	c) nos paroxtonos terminados em <i, u>, ditongo 
	   decrescente tono ou consoante <r, l, x, n>: <cqui, ,jquei,
	   acar, hbil, clix, hfen>.

	Tambm se coloca o acento agudo nas vogais <i> e <u>
quando elas so tnicas e assim no formam ditongo com
uma vogal contgua anterior: <pas, sada, ba, sade, mido,
rudo>. Mas omite-se o acento, se se segue na mesma slaba
uma consoante que no seja <s>, ou na slaba seguinte um <nh>:
<sair, paul, ainda, Coimbra, rainha>.
	Coloca-se ainda o acento agudo nos oxtonos, monosslabos 
terminados pelas vogais <a>, <e> ou <o>, seguidas ou no de
<-s>, bem como nos oxtonos no-monosslabos terminados em
- <em>: <alvar, alvars, av, p, Tom, p, refm>.
	Finalmente, temos o caso do acento agudo no <e>, <o> tnicos 
e abertos dos ditongos decrescentes: <cu, papis, heri,
idia, bia>.


	4. Emprego do acento circunflexo

	O acento circunflexo  reservado para <e> e <o> fechados
tnicos nos casos correspondentes queles em que se prescreve 
acento agudo para <e> e <o> abertos: <av, sap, v>.
 \85






















	Tambm serve no indicativo presente dos verbos <ter>
e <vir> e seus compostos para distinguir da 3 pessoa do 
singular a 3 do plural: <eles tm> (cf. <ele tem>), <eles vm> 
(cf. <ele vem>).


	5. Discordncia entre os Vocabulrios de 1943 e 1945

	Em matria de acentuao grfica h trs grandes 
discordncias entre os dois Vocabulrios:

	1) Quando as vogais <a>, <e> ou <o> so seguidas de uma 
	    consoante nasal (<m, n, nh>), o Vocabulrio de 1943 
	    manda usar o acento circunflexo, porque se baseia na
	    pronncia brasileira com timbre fechado. Ao contrrio, 
	    o Vocabulrio de 1945 prescreve o acento agudo, 
	    se em Portugal o timbre  aberto. Da uma
	    divergncia como - <tnico> (Voc. 1943), <tnico> (Voc.
	    1945).
	2) O Vocabulrio de 1943 estabelece a colocao de um
	    acento circunflexo ou grave nos advrbios derivados
	    <-mente> e dos diminutivos derivados em <-zinho>
	    quando a palavra de que qualquer deles se deriva
	    tem, respectivamente, acento circunflexo ou agudo:
	    <amvelmente> (cf. <amvel>), <pzinho> (cf. <p>), 
	    <avzinho> (cf. <av>). Abandona estes acentos o 
	    Vocabulrio de 1945.(14)
	3) Havendo duas palavras paroxtonas que constam
	    das mesmas letras mas se distinguem na pronncia
	    pelo timbre de um <e> ou <o> tnicos, o Vocabulrio de
	    1943 adota o emprego do acento circunflexo para a
	    palavra de vogal tnica fechada. Este princpio, 
	    suprimido no Vocabulrio de 1945 e na lei 5.765 de
	    18-12-1971, cria o chamado acento diferencial. Os
	    pares desse tipo mais comuns so os de um substantivo 
	    e uma forma verbal: o substantivo, que tem em
	    regra a vogal tnica fechada, passa a se escrever
	    no singular com acento circunflexo, para distinguir-se 
	    da forma verbal com vogal tnica aberta; <Jgo>
	    (cf. eu <jogo>), <slo> (cf. eu <selo>) ; mas ao contrrio

(14) Assim tambm a lei 5.765/71, j citada, em vigor.
 \86

























	-<espelho, sonho>, sem acento, porque as formas verbais 
	<eu espelho, eu sonho> tambm tm vogal fechada. 
	s vezes, estabelece-se a diferenciao entre vogal 
	tnica aberta e partcula tona (<pra>, verbo;
	<para>, preposio) ou at entre vogal tnica aberta,
	vogal tnica fechada e partcula tona (<plo>, verbo;
	<plo>, substantivo; <pelo>, partcula prepositiva).


	6. Palavras que no devem ser acentuadas

	Muitas palavras, que eram acentuadas antes de 1931, 
deixaram de o ser com o estabelecimento das regras sistemticas 
de acentuao.
	No se acentua <boa> e as demais palavras da mesma
terminao; nem tampouco <dor> e as outras palavras de final 
em <or>, salvo pelo Vocabulrio de 1943 o infinito <pr>
(por causa da preposio tona <por>).
 \87

Captulo X

A CORREO DA LINGUAGEM

I. CONCEITO DA CORREO

	1. Os termos do problema

	Em matria de correo de linguagem, h no grande
pblico idias confusas e incoerentes. Convm esclarec-las
e precis-las.
	O problema consiste a rigor na resposta adequada s
duas seguintes perguntas:

	a) Que  em princpio a correo?
	b) Quando  correta uma exposio oral ou escrita?


	2. A linguagem normal

	Um dos grandes fins da linguagem , como vimos, a
comunicao ampla e eficiente entre os homens. Da decorre 
que cada lngua  um sistema de comunicao e que uma
uniformidade geral nesse sistema  a melhor condio para 
a sua eficincia. H, portanto, em toda sociedade humana 
a necessidade de uma linguagem normal, pela qual todos 
se pautem.
	A correo  a obedincia a esse padro lingstico.
Se ele fosse uno e perfeitamente estvel, no haveria maior
problema. Acontece, porm, que a sua unidade e estabilidade 
s existe como um ideal, que em nenhuma sociedade humana 
se realiza espontaneamente.

	H trs fatores inevitveis que o perturbam.
	Em primeiro lugar, apresenta-se o fator individual.
Cada um de ns faz um trabalho mental espontneo no
 \88

































material lingstico, depositado na memria, e dele tira
concluses aberrantes.  preciso um esforo consciente 
contnuo para manter-nos dentro do que est normalmente 
estabelecido.  preciso, ainda, uma contnua ampliao e 
sedimentao do nosso material lingstico, para melhor 
resistir ao trabalho que assim se processa, espontaneamente,
em nosso crebro e nos leva a solues pessoais anmalas.
	Em segundo lugar, h um fator coletivo.
	A lngua apresenta sempre uma diferenciao de acordo 
com as camadas sociais que a usam. De maneira geral,
pode-se distinguir a esse respeito:

	a) uma lngua popular, prpria das massas mais ou
	   menos iletradas;
	b) uma lngua culta, que  um meio-termo entre o uso
	   espontneo da linguagem de todos os dias nas classes
	   instrudas da sociedade e a lngua que se encontra
	   consignada nos grandes monumentos literrios.

	A lngua popular quase no reage contra o fator individual 
de mudana desde que essa mudana no prejudique 
propriamente a inteligibilidade. A lngua culta, ao contrrio, 
cria um ideal esttico, e a se manifesta um af
incessante para conservar inalterada a norma estabelecida.
	Portanto, quando nos referimos  linguagem normal,
temos em vista a lngua das classes cultas. A correo consiste, 
em ltima anlise, numa obedincia  norma lingstica 
que vigora nas camadas superiores da sociedade.
	O terceiro fator  de ordem geogrfica.
	A nossa lngua materna tende sempre a apresentar 
diferenas de regio para regio do pas. Mas as diferenas
regionais so especialmente no mbito da lngua popular. Na
lngua culta luta-se contra elas, e procura-se manter uma 
norma geral uniforme, da mesma sorte que so condenadas as
peculiaridades lingsticas individuais.


	3. Os erros de linguagem

	A correo, ou obedincia  norma da lngua culta,

fica assim diante de trs espcies de fatores que lhe so
contrrios:
 \89

























	a) mudanas executadas espontaneamente por um trabalho
	mental do indivduo;
	b) a intromisso da lngua popular;
	c) as diferenas regionais, que tendem a fazer cises.

	Criam-se, conseqentemente, trs tipos fundamentais de 
erro:

	a) erros individuais;
	b) vulgarismos;
	c) regionalismos.

	A luta contra eles  precria e rdua. Como nunca
surgem, a rigor, arbitrariamente, mas tm uma maior ou 
menor motivao psicolgica,  natural que tendam a 
repetir-se e espalhar-se. Por isso, certos erros individuais
coincidem num nmero sensivelmente grande de pessoas, h 
vulgarismos que se firmam na lngua culta, e certos 
regionalismos se propagam amplamente.
	A correo , portanto, um conceito muito relativo, e,
diante da situao real, h duas maneiras de procurar ser
correto:

	a) insistir intransigentemente no que a norma prescreve,
	   mesmo quando o seu ditame j estava evidentemente
	   quase obsoleto;
	b) assumir uma atitude liberal e compreensiva,
	   aceitando sem relutncia coisas novas que j sentimos
	   firmadas.

	Os gramticos e professores de linguagem propendem 
para a primeira soluo. Ora, como o fim da linguagem 
a comunicao das idias, o seu emprego deve subordinar-se
 eficincia da comunicao. O nosso objetivo deve ser,
antes de tudo, no causar estranheza. A atitude intransigente
pode no s provoc-la, mas at dar uma sensao de
anomalia, que raia pelo ridculo, quando no prejudica a
prpria inteligibilidade.
	A atitude liberal, por sua vez, admite uma gradao.
A liberalidade excessiva, isto , a pressa em aceitar todo
Desrespeito  linguagem normal, desde que ele aparece com
 \90


























certa freqncia, pode tambm determinar resultados 
contraproducentes, entrando em coliso com convices 
contrrias mais ou menos generalizadas. Acresce que um erro,
assim aceito e encampado, pode ser um regresso quanto ao
apuro e preciso da linguagem a que chegou a norma
estabelecida.


	4. A disciplina gramatical

	Seria penoso que diante dessa precariedade da norma
lingstica cada um de ns tivesse, a cada momento, de
achar solues por si.
	A gramtica normativa, que se define como a arte de
escrever e falar corretamente, poupa-nos esse esforo, 
apresentando uma espcie de cdigo de leis, que estudamos para
obedecer. Por outro lado, as palavras consideradas corretas,
com as significaes que se lhes pode corretamente atribuir,
so consignadas em dicionrios, que consultamos para evitar 
vulgarismos e regionalismos vocabulares, bem como para
esclarecer dvidas que, sobre a forma e o emprego das 
palavras, nos assaltam em conseqncia daquele trabalho
mental espontneo, que vimos ser fonte do erro individual.
	s vezes, os preceitos da gramtica e os registros dos
dicionrios so discutveis: consideram erro o que j 
poderia ser admitido, e aceitam o que poderia de preferncia
ser posto de lado. Aqueles que se dedicam ao estudo da 
linguagem e os literatos, que fazem dela um motivo de arte,
discutem essas solues e apresentam outras diversas. Quem
tem apenas o objetivo prtico de comunicao eficiente, 
deve, ao contrrio, pautar-se pelas convenes usualmente 
seguidas, embora sem procurar orientar-se por gramticos e
dicionrios intransigentemente conservadores.


II. AS DISCORDNCIAS DO USO

	l. As discordncias do uso

	Nem sempre so possveis as prescries gramaticais.
	A lngua, criada para meio de expresso do esprito
humano, que  "ondeante e diverso", como dizia o velho
 \91

























Montaigne, no pode, em todo o seu mbito, ser um conjunto 
de regras fixas  maneira de um jogo de xadrez. Oferece 
uma tal ou qual diversidade intrnseca, com alternativas
de soluo em vrios casos. No se trata, ento, de erros e
sim de discordncias de uso.
	Muitos gramticos no querem compreender essa 
distino, e impem solues rgidas e artificiais, considerando
correto, exclusivamente, um uso que, quando muito, pode
ser de escolha prefervel. H muitas catalogaes de supostos 
erros que no passam de prescries arbitrrias dessa
ordem. So em grande parte elas que, condenando formas
e expresses comumente ouvidas e lidas, criam em muita
gente a impresso de "no conhecer bem a lngua", 
intimidando-lhe o esprito no momento de escrever ou no de 
falar em pblico.
	O melhor conselho contra esse vezo  o judicioso ttulo
de um recente livro do lingista norte-americano Robert
Hall: "Deixe a sua lngua em paz!" (<Leave your language
Alone>, Ithaca, 1950).


	2. Como proceder

	Em regra, diante de uma discordncia de uso, devemos
fazer a nossa escolha uma vez por todas. Poupamo-nos
assim hesitaes quanto  forma, que, assaltando-nos de
quando em quando no correr de uma exposio, s podem
prejudicar o fluxo do nosso pensamento.
	A escolha deve, antes de tudo, pautar-se pela nossa 
preferncia pessoal, a fim de nos sentirmos bem integrados na
linguagem que empregamos, livres daquela penosa 
de quem enverga uma roupa que intimamente no lhe
agrada.
	Convm, no obstante, tambm uma adaptao s 
preferncias do nosso ambiente social costumeiro, pois o uso
divergente pode determinar uma estranheza que  sempre
danosa para a espontaneidade da compreenso lingstica.
	Por este ltimo motivo, faz-se mister s vezes, at, 
mudarmos o uso que pessoalmente praticamos, quando nos 
dirigimos a um pblico de determinado setor da sociedade,
onde sabemos generalizado um uso noutro sentido.
 \92


























	Muitas discordncias, por outro lado, importam num
verdadeiro enriquecimento de recursos da lngua, e podem
ser aproveitadas, conforme a convenincia esttica do 
momento, sem exclusivismos.  o caso das locues alternativas 
do tipo - <ter de ir> e - <ter que ir>.
	Alguns gramticos e fillogos querem a estabelecer uma

distino rgida, banindo - <ter que> .., quando se lhe segue
um infinitivo intransitivo, isto , sem objeto como <ir>: 
argumentam, em termos de lgica gramatical e sem atender
ao uso generalizado que no os apia, apresentando a 
interpretao da partcula <que> como pronome objeto do 
infinitivo seguinte ("ter que fazer": ter alguma coisa que, ou a
qual, fazer).
	Ora, as duas construes com qualquer verbo, 
firmemente estabelecidas na linguagem culta e na literatura, 
podem alternar e concorrer para a harmonia e a leveza da 
frase, conforme j existe nela certo excesso de <que> ou de <de>.


	3. Concluso

	Em matria de correo de linguagem, devemos 
pautar-nos pelos trs seguintes princpios:

	1) no cometer erros que perturbem a compreenso;
	2) no cometer tambm os que revelem insuficincia
          do domnio da lngua culta e do seu ideal normativo;
	3) no dar a impresso de que somos <originais> na 
          maneira de falar ou escrever.

	O desrespeito ao 3 princpio insinua-se capciosamente
atravs das prescries gramaticais excessivamente 
conservadoras e rgidas, que no levam em conta inovaes 
inelutavelmente radicadas e no procuram compreender a 
distino entre erro propriamente dito e discordncia de uso. Com
isso s obtemos um resultado contraproducente, por um ou
outro dos seguintes motivos:

	a) colocamo-nos na posio de pessoas esquisitas e at
   	   pouco sensatas, que no se exprimem como toda
         gente;
	b} mesmo que sejamos por isso admirados, a ateno
	   geral se desvia do pensamento para a forma 
	   surpreendente em que ele assim se consubstancia.
 \93

Captulo XI

A CORREO NAS FORMAS NOMINAIS

I. PLURAL DOS NOMES

	1. Emprego do plural

	O plural dos nomes (substantivos e adjetivos) 
caracteriza-se, como todos sabemos, pelo acrscimo de um som
sibilante final (-s)  forma do singular. A sua finalidade
no  exclusivamente a de assinalar mais de um indivduo.
Ao lado desta 1 funo, que lhe  com efeito primordial, tem
as seguintes: 2) indicar mais de um tipo de determinada
substncia que  quantidade contnua (ex.: <acares>, para
mais de uma qualidade de acar) ; 3) generalizar e dar
amplitude a uma qualidade ou uma ao, abrangendo todas
as ocorrncias em que ela se manifesta (ex.: <tristezas no
pagam dvidas>); 4) expressar nfase, com intento de 
valorizao ou amesquinhamento.(15)
	 caso particular da funo n 3 o uso do plural com
nomes prprios que designam um nico indivduo, quando
pretendemos generalizar uma qualidade ou uma ao que
consideramos tpica de determinado personagem histrico,
como neste trecho de Latino Coelho (cf. <Antologia Nacional>,
cit., p.217): "Portugal no primou nas invenes 
admirveis da cincia: no teve Newtons nem Plates... no
teve Franklins nem Mirabeaus... no teve Watts nem
Stevensons".
	 a funo da nfase, para acentuar desprezo (caso
4), que explica o plural nos nomes de poetas e no da cidade 
de Paris, em Bocage e Ea de Queirs respectivamente:
"Vs  Franas, Semedos, Quintanilhas, Macedos e outras

(l5) A valorizao explica o chamado plura1 majesttico em que 
     se cristalizaram certos nomes: trevas, exquias, parabns, npcias.
 \94
































pestes condenadas..." (<Obras Poticas de Bocage>, ed. 1902,
I-201); - "O bom caseiro sinceramente cria que, perdido
nesses remotos Parises..." (<A Cidade e as Serras>, ed. Lello
1933, p.199).
	Quando o nome prprio designa mais de um indivduo, 
ou os diversos membros de uma famlia, tem evidentemente 
o seu plural,  maneira de um nome comum, como
no ttulo <Os Maias> do romance de Ea de Queirs ou na
expresso Os Andradas para designar os trs famosos polticos, 
irmos, da poca da nossa Independncia.


	2. Regras particulares

	Nem sempre o plural se forma pelo acrscimo puro e
simples da sibilante final. Recordemos, a respeito, as 
principais regras particulares:

	1) Os nomes terminados em -<r>, acrescentam -<es>: 
	   <revlveres, os Aguiares>.
	2) Os terminados em -<l>, precedido de vogal que no seja
	   -<i>, perdem o -<l> e formam um ditongo - <ais, is, is,
	   uis>:	<animais, anzis, papis, azuis>. Excetuam-se 
	   algumas palavras espordicas: <males, de mal>; 
	   <cnsules>, de <cnsul>; <meles>, de <mel>, que tambm 
	   apresenta o plural <mis>, com uma discordncia de uso que
	   chega a aparecer na mesma obra; ex.: na traduo
	   das <Gergicas> (de Virglio) do poeta Antnio de 
	   Castilho, como destacou Sousa da Silveira nos 
	   Trechos Seletos> (3 ed., p.56) - "espremia aos panais
	   as meles espumantes" - "veda s flores dar mis".
	3) Os nomes terminados em -<il> constituem dois grupos:

		a) os oxtonos perdem o -<l> e acrescentam -<s> (<funis>,
		   de <funil>; <sutis>, de <sutil>);
		b) os paroxtonos substituem o final -<il> pelo ditongo
		   tono -<eis> (<fsseis>, de <fssil>; <txteis>, 
               de <txtil>).

	4) Os terminados em som sibiliante (escrito -<s>, -<z>, -<y>
	   analogamente constituem dois grupos:

	a) os oxtonos acrescentam -<es> (<pases>, de <pas>; 
	   <algozes>, de <algoz>; <pazes>, de <paz>);
 \95























	b) os paroxtonos ficam invariveis (os <ourives, os
	   Fernandes, os trax>).

5) Os nomes oxtonos terminados em -<o> formam 
   geralmente o plural com o final -<es>. H, entretanto,
   alguns que o formam em -<os> (<irmos, pagos, cristos, 
   mos, chos, vos, cortesos, cidados), e outros 
   que o formam em -<es> (<pes, ces, capites,
   alemes, catales, capeles, escrives, sacristes>). Em
   muitos h discordncia de uso; mas neste caso o
   melhor critrio  preferir a forma em -<es> s outras
   duas, se ela se encontra ao lado de uma delas ou de
   ambas: <aldees, anes, corrimes, dees, horteles>,
   salvo quando h decidido pendor coletivo em contrrio 
   (<ancios>).


	3. Plural dos nomes compostos
	   Vimos at aqui nomes que constituem um s vocbulo.
Ora, ao lado deles, h os chamados nomes compostos, que
associam dois vocbulos ainda um tanto autnomos:

	a) na idia, pois as significaes se complementam;
	b) na elocuo, na qual cada um mantm a sua slaba
	   tnica;
	c) na grafia, onde se separam por um hfen.

	Para o fim da formao do plural, podemos dividir
esses vocbulos compostos em cinco tipos de composio
principais:

	1) uma partcula invarivel com um substantivo;
	2) uma forma verbal com um substantivo (<guarda-chuva, 
	   arranha-cu>) ;
	3) um substantivo com um adjetivo (<capito-mor, 
	   coronel-aviador, via-lctea, pomba-rola>) ;
	4) dois substantios (<guarda-marinha, couve-flor, 
	   auto-lotao);
	5) duas formas verbais (<ruge-ruge>).

	Nos grupos 1 e 2 s o substantivo se pluraliza 
(<contra-almirantes, vice-presidentes, guarda-chuvas, 
arranha-cus>).
 \96

























No grupo 3 o adjetivo concorda com o substantivo, como
era de esperar (<capites-mores, coronis-aviadores, 
vias-lcteas, pombas-rolas>), salvo quando o adjetivo est 
reduzido ao seu radical (<recm>, de <recente>; <gro, 
fem. de <gr>, de <grunde>), pois estes elementos passam a 
valer como partculas do caso 1 (<recm-casados; gro-mestres, 
gr-cruzes>).
	As formas verbais do grupo 5 vo ambas para o plural
(<ruges-ruges>), desde que no haja um <e> de ligao, caso
em que o composto fica invarivel (<leva-e-traz>).
	Em todos esses grupos o uso  uniforme e sistemtico.
Ao contrrio, h muitos exemplos de discordncia no grupo 4. 
Pela lgica se teria sempre o segundo substantivo invarivel, 
visto que ele apenas serve para caracterizar o primeiro, que 
 o que propriamente corresponde ao ser designado: 
<guarda-marinha> - <guarda> que pertence  marinha;
<couve-flor> - couve que tem espcie de flor; <auto-lotao>
- auto que faz uma lotao de passageiros. Entretanto, o
resultado desse raciocnio, dando um nome ao plural com a
parte final no singular,  to anmalo, que a tendncia, de
muito preponderante,  no sentido de pluralizar os dois 
vocbulos. Acresce que o segundo substantivo passa a ser 
concebido como adjetivo porque qualificante do primeiro, e
assim camos no caso dos compostos do grupo 3, onde vo
para o plural os dois elementos.
	Destarte por um motivo de esttica auditiva e outro de
ordem psicolgica, encontra-se o mais das vezes hoje -
<guardas-marinhas, couves-flores>, etc.
	Resta-nos uma observao sobre adjetivos tambm 
compostos, tais como os que se apresentam para designar matizes
de cor. H muita discordncia de uso e, portanto, relativa
liberdade na adoo de uma destas trs solues:

	a) pluralizar os dois elementos;
	b) s pluralizar o segundo;
	c) manter o composto invarivel. Assim temos:

		a) "linhas azuis-ferretes", "listas azuis-claras";
		b) "quadros verde-claros e verde-escuros";
		c) "ramagens verde-garrafa", "luvas verde-gaio".
		   "alamares azul-ferrete".(16) Pode-se adotar como

(16) Estes e outros exemplos de escritores modernos em Sousa da 
     Silveira (Trechos Seletos, 3 ed., p.64-6).
 \97























		orientao geral o critrio b), quando o segundo
		elemento for adjetivo, e o critrio c), quando ele
		for um substantivo qualificante: "quadros verde-claros"; 
		"ramagens verde-garrafa".

	Nos adjetivos compostos de dois nomes de povos, o
primeiro elemento, com final em -<o>, funciona como um 
prefixo invarivel; da as expresses: <relaes talo-francesas;
divergncias russo-americanas>.


II. GNERO DOS NOMES

	1. Sentido do masculino e do feminino

	Em portugus, como alis em muitas outras lnguas, o
masculino e o feminino no designam exclusiva ou 
rigorosamente a distino dos sexos.  o que se entende quando 
se frisa que a nossa lngua tem um gnero <gramatical> e
no propriamente <natural>.
	Ilustram bem esta circunstncia os seguintes fatos:

	1) So masculinos ou femininos por mera conveno
	   gramatical, em regra	decorrente da histria	da
	   palavra:

	   a) os nomes de objetos, qualidades e aes (<a anlise,
		a hlice, o grama>, medida de peso, <o telefonema>) ;
	   b) vrios nomes de pessoas e animais em desacordo
		com o respectivo sexo: <a testemunha> (quer	homem, 
            quer mulher), <o tigre, o	jacar, a cobra>
		(quer macho, quer fmea).

	2) Certos nomes masculinos de objetos tm uma forma
	   feminina, que indica traos caractersticos diversos:
	   <o sapato> (calado), <a sapata>	(pedestal); <os veios>
	   (do mrmore, por exemplo); <as veias> (do corpo animal), 
	   <o poo> (reservatrio); <a poa> (pequeno charco).
	3) Certos nomes de animais, embora tenham uma 
	   masculina e uma forma feminina, usam-se de
	   maneira geral s numa delas, quando no h, 
	   excepcionalmente, interesse particular em frisar o sexo:
 \98

























	<a perdiz> (masc. <perdigo>), <a lebre> (masc. <lebro>),
	<o elefante> (fem. <elefanta>). (17)


	2. A formao do feminino

	O feminino se forma do masculino por uma mudana
na terminao da palavra. Alm do final -<a>, existem sufixos 
prprios como -<essa> e sua variante -<esa> (<condessa>),


(<princesa>) ou -<triz> para muitos nomes em -<dor> ou -<tor> 
(<imperatriz, atriz>).
	Observe-se, entretanto, que muitos nomes, referentes a
pessoas ou animais, no tm mudana de terminao para
indicar o feminino.
	Verificam-se, ento, trs casos diversos:

	1) A palavra fica invarivel, embora mude de 
	   gnero (ex.: <o mrtir, a mrtir; o artista, a artista;
	   o intrprete, a intrprete>). Inicialmente isto acontecia 
	   com todos os nomes terminados em -<a>), que provm 
	   da 3 declinao latina, onde no h forma especial 
	   de feminino; mas aquele trabalho mental do
	   indivduo, a que nos referimos no captulo X, acabou 
	   por introduzir no uso geral formas de feminino
	   para muitos substantivos desse tipo: <elefanta>, de
	   <elefante>; <infanta>, de <infante> (prncipe); <giganta>, de
	   <gigante>; <hspeda>, de <hspede>, que se encontra 
	   freqentemente em Camilo Castelo Branco, se pode dizer 
	   que est  margem do uso no Brasil. O mesmo
	   se deu com nomes de emprego tanto substantivo como 
	   adjetivo; por exemplo, os derivados com o sufixo - <s>: 
	   <portugus - portuguesa>, etc. Dos nomes
	   terminados em -<s>, s trs, que so exclusivamente
	   adjetivos, se mantm ainda hoje invariveis (cf. <uma

	   mulher corts, uma galinha pedrs, uma cabra monts>); 
	   tambm invarivel <soez> (uma <palavra soez>).
	2) H outra palavra para designar o feminino; <o homem, 
	   a mulher; o carneiro, a ovelha>.

(17) Cf. o trecho do velho cronista Joo de Barros, j destacado 
     por Said Ali (Gramtica Histrica, 2 ed., p.62): "Vinham dois 
     elefantes grandes... e uma elefanta pequena".
 \99


























	3) No h um feminino propriamente dito. Este caso 
	   o mais traioeiro e pode levar-nos a verdadeiras
	   <gaffes>.

	Assim, <varo> que significa:

	a) homem respeitvel e cheio de servios  ptria
 	   (como na expresso <um varo de Plutarco>);
	b) criana do sexo masculino (como na expresso
	   <dois filhos vares>), no tem um feminino 
	   correspondente).

	 artificial e de mau efeito dar-lhe para feminino 
<varoa> (que designa <mulher capaz de combater como homem>)
ou mesmo <matrona> (<me de famlia respeitvel>, no sentido
romano, ou, com leve tom irnico, <senhora j um tanto
idosa>).


	3. Nomes de gnero incerto

	O carter, at certo ponto, convencional das distines
de gnero explica por que em algumas palavras h discordncias 
de uso quanto ao gnero.
	Nota-se a respeito como que uma luta entre a influncia 
da histria ou da forma da palavra, de um lado, e, de
outro lado, o esforo para pr o gnero de acordo com o
sexo ou com o gnero da maioria dos nomes de uma classe a
que a palavra pertence.

	1) Ao lado de um emprego no feminino por tradio
	   gramatical, apareceu e radicou-se muitas vezes um
	   emprego no masculino, quando o ser referido  
         sempre ou muito freqentemente do sexo masculino:
	   <a personagem, o personagem>. Caso relevante neste
	   mbito  a adoo do masculino para o nome 
   	   profissional de certos homens, ou de certas coisas 
   	   pertencentes a uma classe masculina, quando a 
         respectiva funo  designada pela mesma palavra no 
         feminino. So, por exemplo, sem discordncia, 
         masculinos: <o guarda> (<a guarda>  a ao de guardar), 
	   <o caixa>
 \100






















   	   (<a caixa>  o dinheiro que ele manipula) (18), <o lngua>
   	   (isto , o intrprete), <o caa> (o avio que faz a caa
	   dos demais). s vezes, ainda h discordncia de uso,
	   mas o masculino tende a predominar: <o sentinela>
	   (que est na sentinela, isto , na guarda de um posto), 
	   <o ordenana> (que est  ordenana, isto ,  ordem 
	   de um oficial), <o praa> (que serve <na praa>,
	   isto , na funo de soldado).
	2) Nos nomes de cidades que nunca figuram com o artigo <o> ou <a> 
	   (como ao contrrio acontece com - <o Rio, o Cairo, o Havre, 
	   a Bahia>, clara e taxativamente masculinos ou femininos), 
	   h hesitao e incoerncia: o feminino corresponde  palavra 
	   <cidade>, cuja idia est latente; o masculino ao seu prprio
	   carter de gnero mais bsico e geral. Assim, dizemos 
	   sempre Nova York e at Nova Friburgo (onde
	   a forma do nome sugeriria o masculino), mas encontramos, 
	   embora nem sempre, o masculino com <Londres> e <Paris> 
	   (cf. em <A Cidade e as Serras> de Ea de
	   Queirs, cit., - "nesses remotos Parises", e ainda -
	   "Oh, este Paris, Jacinto este teu Paris!", p.49).
	3) Nos nomes de navios, h ainda mais discrepncia,
	   no s por causa do conflito entre a forma do nome
	   e a idia latente de <navio>, mas tambm porque esta
	   prpria idia latente pode concretizar-se na palavra
	   <nau> feminina e estear-se no uso ingls, cuja influncia 
	    natural em coisas navais. (19) Na sua obra sobre
	   <A Marinha de outrora>, o Visconde de Ouro Preto
	   ilustra essa situao (cf. <Antologia Nacional>, cit.):
	   "...a Beberibe... a Jequitinhonha... a Ipiranga..."
	   (p.74); mas - "No Beberibe. . . ao lado do Jequitinhonha... 
	   No Ipiranga..." (p.85).

(18) Com o desempenho da funo por mulheres, passou-se a dizer 
     <a caixa> (para pessoa) como feminino de <o caixa>.
(19) Em ingls, onde vigora o gnero <natural<, as coisas 
     inanimadas so do gnero neutro; <ship> , no obstante, 
     considerado feminino e  substitudo pelo pronome <she> (ela)
     como se sabe.
 \101


Captulo XII

A CORREO NAS FORMAS VERBAIS


	1. As conjugaes verbais

	A conjugao dos verbos portugueses  das mais complexas. 
Como se sabe, ela se apresenta em trs tipos, conforme 
o infinitivo do verbo termina em -<ar>, -<er> ou -<ir>. Mas
h um grande nmero de verbos irregulares, isto , que no
se conjugam pelo modelo do seu tipo respectivo.(20)
	Ora, em muitos desses verbos irregulares, notam-se 
tendncias para certos erros individuais e para a adoo de
certos vulgarismos.


	2. Mudanas no radical

	Fonte de confuses, s vezes momentneas, no teor de
uma exposio oral,  a mudana que sofrem certos verbos
irregulares em certas de suas formas no prprio corpo da
palavra, o chamado <radical> na gramtica.
	Facilita de muito nesse particular saber que tais 
mudanas no so inteiramente caprichosas e independentes
num mesmo verbo.
	H trs formas que servem de ponto de partida para
um grande nmero de outras. Fix-las bem no esprito 
equivale a dominar a conjugao quase toda.
	Assim:

	1) Da 1 pessoa do singular do indicativo presente sai o
	   radical de todo o presente do subjuntivo. Exs.: <trago>

(20) Conservou-se neste captulo o mtodo tradicional de tratar 
     a morfologia verbal e que o Autor deste livro vem procurando 
     substituir em artigos doutrinrios. O resumo da
     sua nova orientao est no seu <Dicionrio de Filologia e 
     Gramtica>, J. Ozon editor.
 \102





























	   (de trazer); portanto - <traga, tragas, traga, tragamos, 
	   tragais, tragam>;
	   <ponho> (de pr); portanto - <ponha, ponhas, ponha,
	   ponhamos, ponhais, ponham>;
	   <venho> (de vir); portanto - <venha, venhas, venha,
	   venhamos, venhais, venham>;
	   <peo> (de pedir); portanto - <pea, peas, pea, 
	   peamos, peais, peam>;
	   <distingo> (de distinguir); portanto - <distinga, 
	   distingas, distinga, distingamos, distingais, distingam>.

	As excees a esta pauta de conjugao so muito poucas 
e em verbos que nos so muito familiares:

	a) <sou> (de ser) - <seja, sejas, seja, sejamos, sejais,
	   sejam>;
	b) <estou> (de estar) - <esteja, estejas, esteja, estejamos,
	   estejais, estejam>;
	c) <sei> (de saber) - <saiba, saibas, saiba, saibamos, 
   	   saibais, saibam>;
	d) <hei> (de haver) - <haja, hajas, haja, hajamos, hajais,
   	   hajam>;
	e) <quero> (de querer) - <queira, queiras, queira, 
   	   queiramos, queirais, queiram>.

	2) Da 2 pessoa singular do pretrito perfeito do 
   	   indicativo sai o radical:

		a) do pretrito mais que perfeito do indicativo,
		b) do pretrito imperfeito do subjuntivo,
		c) do futuro do subjuntivo.

	Exs.: <trouxeste> (de trazer) - a) <trouxera> etc.; 
      	b) <trouxesse> etc.; c) <trouxer> etc.;
		<puseste> (de pr) - a) <pusera> etc.; b) <pusesse> etc.;
		c) <puser> etc.;
		<vieste> (de vir) - a) <viera> etc.; b) <viesse> etc.;
		c) <vier> etc.;
		<viste> (de ver) - a) <vira> etc.; b) <viste> etc.; c) <vir,
		vires> etc.;
		<pudesse> (de poder) - a) <pudera> etc.; b) <pudesse>
		etc.; c) <puder> etc.;
 \103

























		<foste> (de <ser> ou de <ir>) - a) <fora> etc.; 
		b) <fosse> etc.; c) <for, fores> etc.

	No h excees. Note-se que at no timbre da vogal
inicial-e-da terminao h coincidncia entre a forma-fonte
e as demais; <pusera, pusesse, puser> com-e-aberto, de acordo
com o de <puseste>; ao contrrio, nos verbos regulares da 2
conjugao, por exemplo, <bebera, bebesse, beber> com <e> 
fechado, de acordo com o de <bebeste>.

	3) Do infinito sai o radical do indicativo futuro e do
	   chamado condicional (futuro do pretrito). As nicas 
	   excees so os trs verbos cujo radical termina
	   em <z>, porque neles se formou nos dois futuros um
	   radical contrato sem <z>:

	   a) <dizer - direi, dirs etc.; diria, dirias> etc.;
	   b) <fazer - farei, fars etc.; faria, farias> etc.;
	   c) <trazer - trarei, trars, etc.; traria, trarias> etc.

	Quanto ao pretrito imperfeito do indicativo, a sua 
correspondncia  tambm em regra com o infinitivo. Ficam
 parte:

	a) o do verbo <ser> (era, eras etc.);
	b) os dos verbos cuja 1 pessoa do singular do indicativo
	   presente	tem um radical terminado em <nh>. Nestes
	   ltimos, a correspondncia do pretrito imperfeito do
	   indicativo  com esta 1 pessoa do indicativo presente;	
         h	apenas de um para outro uma alternativa
	   das vogais /e/ - /i/, /o/ - /u/ na primeira slaba :

	   l) <tenho - tinha, tinhas> etc.;
	   2) <venho - vinha, vinhas> etc.;
	   3) <ponho - punha, punhas> etc.

	3. Verbos compostos

	Um verbo composto de outro pelo acrscimo de um prefixo
acompanha, em regra, esse outro na sua conjugao.
	 preciso cuidado em no perdermos de vista a 
composio a imanente, para no sermos capciosamente levados
 \104

























dos a conjugar o verbo composto como um verbo simples
regular.
	Se atentarmos, por exemplo, que - <prever> se relaciona
a <ver>, <provir> e <intervir> a <vir>, <entreter> e <suster> a <ter>, 
<compor> a <pr>, no erraremos nas seguintes formas:

	a) <previste> (como <viste>),	<previr>, no futuro do subjuntivo	
         como <vir>, igualmente);
	b) <provim, intervim> (como <vim>), <provindo e intervindo>,
	   no particpio passado (como <vindo>, igualmente)(21);
	   <entretiveste e sustiveste> (como <tiveste>), <entretinha e
	   sustinha> (como <tinha>),	<entretiver e sustiver>	(como
	   tiver);
	c) <compuseste> (como <puseste>), <compusermos> (como
	   <pusermos>).

A tendncia para erro  a to forte, que em alquns
superou qualquer resistncia. Assim, dissociaram-se dos verbos 
simples respectivos as seguintes formas:

	a) Todas as dos compostos de <estar>, que so sentidos
	   hoje como verbos simples: <constar, distar, restar> etc.
	   Apenas <sobrestar> conservou a idia da composio
	   e se conjuga por <estar: <sobrestive>	(como <estive>),
	   <sobrestinha> (como <tinha>); mas a l pessoa do indicativo 
         presente (pelo modelo de <estou>) tornou-se <obsoleta> 
 	   e se lhe prefere a de um verbo sinnimo (<suspendo, difiro>).
	b) O pretrito perfeito do indicativo e os tempos 
         correlatos de <prover>, bem como o particpio passado: 
         <proveu> etc.; <provera> etc.; <provesse; provesses> etc.; 
         <prover,	proveres> etc. (futuro	do subjuntivo); provido
	   (part. pass.). Comparem-se, ao contrrio, as formas
	   correspondentes de <prever> que se pautam pelas de
	   <ver: previste, previu> etc.; <previra> etc.; <previsse> etc.;
	   <previr, previres> etc.; <previsto>.
	c) O pretrito perfeito do indicativo e os tempos correlatos 
	   de requerer: <requeri, requereste, requerer, requereres> etc. 
	   (fut. subj.).(22)

(21) Esta forma <vindo>  igual  do gerndio. Cf. - <vinha, vindo, 
     estava vindo, de um lado; e, de outro, <tinha chegado; 
     estava chegando>.
(22) A 1 pessoa singular do indicativo presente de <requerer>  
     <requeiro>, diversa da de <querer> (eu quero) e igual ao radical 
     do presente do subjuntivo (<requeira>, etc.).
 \105






















	4. Vulgarismo em certas formas verbais

	A lngua popular faz confuses na relao entre a 1 e
a 3 pessoa singular do pretrito perfeito do indicativo nos
chamados verbos <fortes>, isto , naqueles em que essas formas 
tm a slaba radical tnica. De acordo com a norma
culta, essas formas so:

	a) iguais em:

	   1) <dizer> e <querer> (eu disse, ele disse; eu quis, ele
	      quis);
	   2) <trazer, saber, caber e haver> (eu trouxe, ele trouxe;
	      eu soube, ele soube; eu coube, ele coube; eu houve,
	      muito pouco encontradio, ele houve).

	b) com uma alternncia das vogais tnicas:

	   1) /i/ - /e/ em <fazer, ter, estar> (eu fiz, ele fez;
	      eu tive, ele teve; eu estive, ele esteve>);
	   2) /u/ - /o/ em <pr, ser (ou ir), poder> (eu pus,
	      ele ps; eu fui, ele foi; eu pude, ele pde).

	Outro vulgarismo  assimilar a l pessoa do plural
do verbo <vir> no indicativo presente  do pretrito perfeito.
A norma culta distingue o presente <vimos> e o pretrito viemos; 
ex.: "Ns, abaixo-assinados, vimos pela presente solicitar 
a V. Excia".

	5. Verbos defectivos

	Certos verbos, preponderantemente na 3 conjugao, s
tm no indicativo presente a 1 e a 2 pessoa do plural, 
faltando-lhes todo o singular e no plural a 3 pessoa; 
conseqentemente, no tm presente do subjuntivo. Entretanto, em 
alguns a deficincia s se mantm rigorosamente quanto  1 pessoa
do singular e ao presente do subjuntivo, que vimos ser seu
tempo correlato.
	Tais so: <abolir, demolir, delinqir, falir, florir, aguerrir,
cernir, embair, poir, renhir, remir>.
	 tambm defectivo nos mesmos moldes o verbo 
<precaver>, composto, por meio do prefixo <pre>, de um verbo 
latino <cavre>, tomar cuidado, que no passou para o portugus.
 verdade que hoje se encontram formas populares <precavenho, 
 \106























precavns, precavm>, criadas pelo modelo de <vir>; mas,
embora elas j estejam bastante generalizadas, e at na 
lngua culta da conversao, no  aconselhvel us-las numa
exposio oral ou escrita, porque a conveno gramatical
ainda  contrria a elas.
	Preenchem-se os claros de um verbo defectivo com outro 
verbo, ou uma locuo, de sentido equivalente; <previno-me> 
(para <precaver-se>), <redimo> (para <remir>), <floreso> (para
<florir>), <iludo> ou <ilaqueio> (para <embair>) <abro falncia> 
(para <falir>), <arraso> ou <deito por terra> (para <demolir>) etc.

	6. Conjugao dos verbos do tipo de "passear"

	Estes verbos intercalam um /i/, quando o /e/ tnico
fica em hiato com /e/, /o/, /a/ da slaba final, ou seja, no
singular e na 3 pessoa plural dos presentes do indicativo
e do subjuntivo.
	Nas demais formas, em que o /e/ no  tnico, pois o
acento se desloca para a terminao, desaparece o motivo
para a pronncia e a conseqente grafia do <i> assim 
intercalado.
	Ex.: passear - passeio, passeias, passeia, passeamos,
	     passeais, passeiam; passeie, passeies, passeie, 
	     passeemos, passeeis, passeiem.

	Esta norma gramatical se complica, porm, pela 
circunstncia de que outros verbos h terminados em -<iar>, como
<negociar, oficiar> etc. A pronncia entre os finais dos dois
tipos de infinitivo  praticamente igual, porque o /e/ tono
diante de vogal mais aberta soa naturalmente como um /i/,
salvo num ou noutro verbo em que h a preocupao de
distinguir dois parnimos (<pear>, embaraar, ao lado de <piar>;
<mear>, dividir ao meio, ao lado de <miar>).
	O resultado  a confuso tambm no singular e na 3
pessoa do plural do presente, com uma acentuada tendncia
a generalizar-se aos verbos em -<iar> o modelo de <passear>;
h a este respeito discordncia de uso mesmo de um para
outro notvel escritor, mormente em Portugal.
	No Brasil, entretanto, a norma culta  infensa a esta
generalizaes, e podemos, com Said Ali circunscrev-la aos
5 seguintes verbos: <ansiar, odiar, incendiar, mediar, 
remediar> (Gramtica Secundria, 3 ed., p.ll7).
 \107

























	Resta a dificuldade de saber com segurana se o 
infinitivo  em -<ear> ou -<iar>. Como -<ear>  um sufixo, 
variante de -<ejar>,  ele que aparece naturalmente em verbos 
derivados de um substantivo, como <marear> (de <mar>), <nomear> 
(de <nome>), <tornear> (de <torno>), <guerrear> (de <guerra>), 
saborear (de <sabor>), <arquear> (de <arco>) etc. Tambm  ele 
que corresponde a um nome terminado em -<eio> ou -<eia> (cear, 
assear, bloquear, recear, arear> ete., ao lado de - <ceia, 
asseio, bloqueio, receio, areia>), enquanto aos verbos em -<iar> 
se relacionam nomes em -<io, -ia> (<variar>, cf. <vrio>; <sitiar>, 
cf. <stio>; <auxiliar>, cf. <auxlio>; <denunciar>, 
cf. <denncia> etc.).
	Entre <criar> e <crear> tm procurado alguns gramticos
e escritores fazer distino de sentido que justifique uma
distino de grafia; mas, como o singular e a 3 pessoa
plural do presente  tradicionalmente, em qualquer caso, -
<crio, crias, cria, criam> (23), adotou-se definitivamente, 
a partir de 1931, um nico infinitivo <criar>.

	7. O imperativo

	O imperativo, por meio do qual se d uma ordem ou
se faz uma proibio, tende a ser mal conjugado, por 
confuso com o presente	do indicativo e com o presente do
subjuntivo.
	 preciso no nos esquecermos dos trs fatos seguintes:

	1) As segundas pessoas do singular e do plural correspondem
	   s do presente do indicativo sem -<s> final:	 <fala, falai;
	   faze, fazei; ouve, ouvi>. A nica exceo  o 
	   imperativo de <ser> (<s, sede>, ao lado do indicativo 
	   presente	<s, sois>),
	2) As terceiras pessoas do singular e do plural so as mesmas
	   do presente do subjuntivo:	<fale, faa, oua>.
	3) Quando o	imperativo  negativo, isto , a forma
	   verbal vem precedida da partcula <no>, as suas formas 
	   so exatamente iguais s do presente do subjuntivo: 
	   no <fales>, no <faleis>;	no <faas>, no <faais>;
	   no <ouas>, no <ouais>.

(23) Cf. o exemplo do Pe. Antnio Vieira, j destacado por 
     Otoniel Mota (Lies de Portugus, 4 ed., p.264 a 339) 
     onde encontramos <cria> conjugado com <creou> e <creao>: 
     "depois daquela criao, Deus no creou nem cria substncia 
     alguma material e corprea, porque somente cria de novo as 
     almas, que so espirituais".
 \108

Captulo XIII

A CORREO NAS FORMAS PRONOMINAIS


I. PRONOMES PESSOAIS

	1. Pronomes pessoais tonos da 3 pessoa
 
	No mbito dos pronomes pessoais, isto , aqueles que
funcionam como sujeito ou complemento de um verbo, 
particularmente delicado o emprego das formas da 3 pessoa, 
onde h o perigo de aflorarem na exposio certos 
vulgarismos muito vivazes.
	O primeiro que convm ressaltar  a confuso nas 
formas que, como partculas tonas, se ligam ao verbo para
exprimir dois tipos de complemento:
	
	a) o chamado objeto direto nos verbos transitivos;
	b) outro objeto, dito indireto, que representa, em 
	   termos lgicos, um ser apenas "indiretamente" 
	   interessado no fato verbal.

	Quando esses objetos so expressos por substantivos,
distinguem-se pela ausncia em a) - de qualquer preposio de 
ligao, entre o nome e o verbo; e pela presena em b) - da 
preposio regente <a>: Exs.:

	a) vi o comandante;
	b) falei ao comandante.

	Transpostas tais construes para outras equivalentes
com os pronomes tonos, cabe o objeto direto  partcula,
varivel em nmero e gnero, - <o, a, os, as>, e o objeto
indireto  partcula, varivel em nmero, - <lhe, lhes>; exs.:

	a) vi-o;
	b) falei-lhe.
 \109






























	A lngua popular, e s vezes at a fala de conversao 
das pessoas das classes mais instrudas, tende a usar
em vez dessa partcula tona o pronome tnico, varivel
em gnero e nmero, - <ele, ela, eles, elas>, sem preposio 
no caso a) e com a preposio <a> no caso b).
	Ora, a norma culta s admite o pronome tnico -
<ele, ela, eles, elas> (como nas 1 e 2 pessoas do plural, <ns,
vs>) em duas circunstncias:

	1) como sujeito do verbo;
	2) como complemento verbal regido de preposio. (24)

	Assim,  considerado erro, e dos mais comprometedores, 
o uso do pronome <ele> (ou suas variantes do feminino e do 
plural) no caso a), como objeto direto. Quanto ao
seu emprego com a preposio <a>, cabe uma distino trplice. 
Em primeiro lugar, temo-1o, sempre e rigorosamente,
quando se trata de um complemento de direo, para exprimir 
o objetivo de um movimento no espao, em sentido
prprio ou figurado; exs.: <dirijo-me s linhas de combate>
- <dirijo-me a elas>; <dirijo-me ao comandante> - <dirijo-me
a ele>. Em segundo lugar, est a substituio das partculas
- <lhe, lhes>, como objeto indireto, por uma construo deste
tipo, naturalmente mais enftica. Finalmente, h a 
possibilidade de substituio anloga das partculas - <o, a, 
os, as>, como objeto direto, quando se trata de pessoa.
	Os dois, ltimos casos so, assim, to somente 
possibilidades para fins de harmonia, de nfase, ou por causa da
supresso do verbo, como na conhecido verso de Cames -
"nem ele entende a ns, nem ns a ele" (Lus. c. V., est. 28),
em vez de - <nem ele nos entende, nem ns o entendemos>
(objeto direto com o verbo <entender>).
	Da se tiram as seguintes concluses:

	1) A locuo - <a ele> (com as variantes de gnero e
          nmero)  caracterstica dos complementos de 
	    direo, em sentido prprio ou figurado.
	2) A mesma locuo pode, quando h para isso razo
	    especial, substituir a partcula tona <lhe> (pl. <lhes>)

(24) Nas primeira e segunda pessoas do singular tem-se, ao 
     contrrio: 1) como sujeito - <eu, tu>; 2) como complemento 
     verbal regido de preposio -< mim, ti.
 \110
























	    ou adicionar-se a ela em funo de objeto indireto
	    (cf. na nossa prpria frase - adicionar-se a ela,
	    em vez de - adicionar-se-lhe).
	3) Na mesma base do caso 2, pode aparecer em lugar 
	    ou ao lado da partcula tona de objeto direto
	    (<o, a, os, as>), quando esta se refere a pessoa; cf. o
	    exemplo de Frei Heitor Pinto citado na Sintaxe 
	    Histrica de Epifnio Dias (Lisboa, 1918, p.66):
	    "Um avarento cuida que tem dinheiro, e o dinheiro
	    tem-no a ele".

	Note-se que o vulgarismo incriminado  o uso do pronome 
<ele>, como objeto direto, sem preposio. Mas a locuo
<a ele>, com objeto direto ou indireto, requer uma razo 
especial; por exemplo, justifica-se o emprego de <a ele> para
evitar:

	a) dois pronomes tonos depois de forma verbal 
   	   paroxtona (<fala-se a ele>);
	b) as contraes <lho, lha, lhos, lhas> (disse-o a ele).


	2. Confuso entre o objeto direto e o indireto

	A possibilidade do uso da preposio <a> no objeto direto, 
quando se trata de pessoa,  naturalssima quando o
objeto  um substantivo: assim se exterioriza, at muitas
vezes, uma particular deferncia para com o ser expresso
(cf. <amar a Deus>, ao lado de - <amar o prximo>).
	Ora, isso pode levar-nos a interpretar o verbo como
tendo um objeto indireto e no um direto, com a errnea
conseqncia de lhe atribuirmos a partcula <lhe> em vez
de <o>. O melhor meio prtico de evitar essa ilao falsa 
procurar ver se, em frases do tipo - <amar a Deus, atacar
ao inimigo>,  possvel suprimir a preposio sem deformao 
da frase: pois no caso do objeto indireto a preposio
, por natureza, indispensvel. Se podemos dizer - <amar
o prximo> (com o mesmo verbo <amar>), <atacar o inimigo>
(sem a preposio),  que se trata de objeto direto, e a
correspondncia , portanto, com a partcula tona - <o,
a, os, as>: "Deus me perdoar, porque o amo" - "O inimigo
recuou, porque o atacamos".
 \111

























	Recordemos, finalmente, que a partcula <o> (ou suas 
variantes de gnero e nmero) pode sofrer dois tipos de 
modificao de aspecto, quando se liga a um verbo antecedente:

	a) passa para - <lo, la, los, las>, quando a forma verbal
	   termina em -<s>, -<z>, ou -<r>, havendo complementarmente
	   a supresso desta consoante final: <vede-lo> (cf.: ...<o
	   vedes>), <f-lo> (cf.: ...<o fez>), <aplic-lo> (cf.: ...o
	   aplicar>) (25);
	b) passa para - <no, na, nos, nas>, quando a forma verbal 
   	   termina em -<m>: <aplicam-no> (cf.: ...<o aplicam>).

	Destarte se estabelece	uma distino entre o aspecto
das segundas pessoas do indicativo presente e do imperativo com
o pronome tono posposto: <vede-o>, por exemplo, representa
o imperativo <vede>, em que no h -<s> final.


II. TRATAMENTO

	1. Complexidade dos pronomes de tratamento

	Ao contrrio de outras lnguas, como o francs e o
ingls, em que nos dirigimos sempre a algum pelo pronome 
da 2 pessoa plural (fr. <vous>, ing. <you>), a lngua 
portuguesa apresenta uma grande variedade de tratamento.
A complexidade da decorrente resulta dos trs seguintes 
fatos:

	a) em vez do verbo na 2 pessoa, usa-se o verbo na
	   3, concorrendo com uma	locuo substantiva;
	b) h um grande nmero dessas locues, que formam
	   uma hierarquia de tratamento, desde o	respeitoso
	   <Vossa Excelncia< ao familiar <voc>.
	c) o uso da 2 pessoa plural do verbo, com o pronome
	   <vs>, no est completamente desaparecido, mas tem
	   um cunho muito literrio.

	Numa exposio oral, de que sempre deve ressaltar um
carter mais ou menos espontneo, deve abandonar-se a

(25) O infinitivo passa a terminar em vogal e cai na regra da 
     acentuao grfica dos oxtonos assim terminados: <aplic-lo, 
     faz-lo> (ao contrrio do <ouvi-lo>, sem acento, porque
      oxtono em <i>).
 \112






















2 pessoa do plural; ela se compadece apenas com alocues
formalsticas, como as de saudao em certas cerimnias
solenes, ou com requerimentos e peties de natureza
burocrtica.
	A praxe brasileira, nos casos gerais,  o emprego de
- <o senhor, os senhores>, com o verbo na 3 pessoa. O
tratamento de <voc> s se coaduna com situaes de franca
familiaridade ou de franca e inquestionvel superioridade
hierrquica do expositor em referncia ao auditrio.
	 claro que, uma vez adotado, o tipo de tratamento
no deve variar mais no correr da exposio. Uma 
incoerncia neste mbito s se verifica, justificadamente, 
em regra no intercmbio da linguagem falada ou em certas 
condies de ordem literria, para assinalar frisantes 
mudanas de atitude, como faz Machado de Assis, humoristicamente, 
ao dirigir-se ao leitor no teor dos seus romances.


	2. Pronomes para complemento

	Qualquer desses tratamentos com o verbo na 3 pessoa
impe analogamente a 3 pessoa para o possessivo (isto ,
<seu> e as correspondentes variantes de gnero e nmero) e
para os pronomes tonos que complementam o verbo (isto :
1 - <o, a, os, as>; 2 - <lhe, lhes>).
	Exemplos: "Dirijo-me aos senhores e apelo para as suas
conscincias...." - "Dirijo-me aos senhores e aqui lhes
falo..." - "Dirijo-me aos senhores, porque os tenho na
conta..."
	O mesmo evidentemente se verifica com o uso de Vossa 
Excelncia e locues congneres: a Excelncia  <vossa>,
mas  ela, essa qualidade (e no vs), quem se focaliza no
tratamento, e, portanto,  ela que me <ouve>, que me d sua
considerao, e eu <lhe> falo ou <a> cumprimento.


	3. O uso da 1 pessoa

	Resta o problema de como se referir um expositor a
si prprio.
	De maneira geral, h certa repugnncia para o emprego 
puro e simples da 1 pessoa do singular e suas formas
 \113

























correlatas, porque assim se frisa excessivamente a prpria
figura, e da ressumbra o que se chama, com um nome derivado 
da forma latina desse mesmo pronome, o egocentrismo.
	Uma soluo, em certos casos,  apelar para o pronome 
da 1 pessoa do plural, irmanando-se o expositor com
os seus ouvintes ou leitores e apresentando as afirmaes
que faz como o resultado de um trabalho coletivo seu e deles.
Tal objetivo fica, porm, falseado, se aparece a 1 pessoa
plural numa frase referente  exclusiva atividade do 
expositor, do qual o auditrio ou o pblico ledor no pode 
por princpio participar.
	Se, por exemplo, um orador diz num discurso - "Quando 
entramos nesta sala para nos dirigirmos aos senhores..."
agrava o egocentrismo, em vez de dilu-lo na modesta 
apresentao de seu esforo de equipe; e o <ns> passa a soar
soberbo e majestoso, como na boca de um imperador romano.
	A segunda soluo  referir-se o expositor a si prprio;
indiretamente, na 3 pessoa: <o autor destas linhas>... -
<quem fala aos senhores>... - etc. Este uso da 3 pessoa
 a frmula convencionalizada em requerimentos e peties,
e a vantagem que a lhe descobre Rodrigues Lapa na sua
<Estilstica da Lngua Portuguesa> (Lisboa, 1945) pode ser
generalizada para qualquer exposio oral ou escrita : "A
3 pessoa acautela melhor a objetividade e a serenidade
do discurso.  um processo de reteno social, de cortesia,
atenuao imposta pelo prprio interesse e pela vida em
comum" (p.160).
	Com isso no se pretende banir o pronome <eu> e suas
formas correlatas. H mesmo casos em que  insubstituvel, 
como meio de maior preciso, s vezes necessria, da
individualidade. A ele, por exemplo, recorreu muito 
acertadamente Joaquim Nabuco no Prefcio da obra que 
dedicou  vida poltica do Conselheiro Nabuco, seu pai: 
"Como tive ocasio de dizer no Instituto Histrico, meu Pai, 
o terceiro senador Nabuco..." (<Um Estadista do Imprio>,
ed. Garnier, vol. I, p. V).


III. OS DEMONSTRATIVOS

	Um ponto em que a norma culta resiste com razo 
tendncia da linguagem usual  na manuteno dos trs
 \114

























demonstrativos - <este, esse, aquele> (com suas variantes de
gnero e nmero) em aplicaes nitidamente delimitadas.
	A distino entre este e esse propende a no ser bem
sentida, e os dois pronomes se baralham sem qualquer
seleo.
	Com efeito, em muitos casos o emprego de <este> por
<esse> se justifica plenamente por uma atitude de maior 
interesse ou de "aproximao psquica", como no exemplo de
Alexandre Herculano, j destacado por Sousa da Silveira:
"A esta mesma hora, em que o velho prior assim vagueava
por sendas alpestres..." (,Lies de Portugus>, 3 ed., p.210).
	Em regra geral, porm, quando nos dirigimos a algum,
a oposio entre ,este> e <esse> serve para estabelecer a 
diferena entre o que est conosco e o que est com os nossos 
interlocutores, enquanto <aquele> cabe ao que est isolado de
um e de outros: <esta>  assim a mo que estendemos, a sala
em que estamos, a hora em que falamos; ao contrrio, <essa>
 a obra que o nosso interlocutor tem nas mos, a cidade em
que se acha o destinatrio de uma carta. Noutro mbito de
aplicao, <este> e suas formas variantes cabem ao que vai
ser dito, e <esse> e suas variantes ao que acaba de ser dito.
	De um e outro contraste serviu-se com felicidade Rui
Barbosa, quando, num discurso famoso, depois de citar os
desmandos da classe poltica dominante, concluiu: "O Brasil 
no  isso.  isto", designando o auditrio em cujo
meio se achava (<Campanha Presidencial> - 1919, ed. 
Catilina, p.112) .
	Evidentemente, uma distino trplice de formas, que
assim se presta para a expressividade, merece ser 
cuidadosamente mantida e lucidamente compreendida para 
utilizao adequada. Grosso modo, podemos dizer que ela 
reproduz no campo dos demonstrativos a diviso tripartida 
dos pronomes pessoais e possessivos: <este> - <meu> ou <nosso>;
<esse> - <teu> ou <vosso>; <aquele> - <dele> ou <deles>.
 \115

Captulo XIV

CONCORDNCIA E REGNCIA

I. CONCORDNCIA

	1. Em que consiste ela

	D-se em gramtica o nome de concordncia  
circunstncia de <um adjetivo variar em gnero e nmero de
acordo com o substantivo a que se refere> (concordncia
nominal) e  de um verbo variar em nmero e pessoa de
acordo com o seu sujeito (concordncia verbal).
	Este princpio geral  sistemtico, e no apresenta em
si motivo para hesitao ou dificuldade.
	H, no obstante, casos especiais que se prestam a dvidas. 
Em muitos, at, no vigora uma norma definida e
fixa, e a tradio literria nos d solues divergentes, conforme 
certos matizes, de inteno, de harmonia ou de clareza, ou meras 
preferncias subjetivas.
	Estamos, portanto, diante daquela situao, focalizada
no captulo I, em que convm seguir a estrada batida de uma praxe 
gramatical, assente na experincia e na observao do uso amplo.
	

	2. Concordncia nominal

	Em matria de concordncia de um adjetivo, o caso
mais delicado  aquele em que o adjetivo se refere a dois
substantivos no nmero singular e de gneros diferentes.
	A harmonia auditiva faz em regra com que se deixe
o adjetivo no singular, concordando com o primeiro dos
substantivos, se a eles est anteposto, ou com o ltimo, se
a eles se segue; exs.:
 \116


































	a) ilimitado entusiasmo e admirao...
	b) entusiasmo e admirao ilimitada...

	Quando o adjetivo est proposto, pode-se, porm, us-lo
no plural masculino, se convm deixar bem claro que ele
se refere a todos os substantivos; ex.: <estola e pluvial
pretos>...
	Caso praticamente inverso  o de um substantivo no
plural, designando duas entidades da mesma natureza, a
que se seguem (ou mais raramente se antepem) dois adjetivos no 
singular, porque cada um deles se refere a uma das
entidades exclusivamente, como na conhecida frase de Cames - 
"o quarto e quinto Afonsos (Lus., c. I, est. 13). Assim, 
a expresso - <cursos comercial e secundrio> designa
dois cursos dos quais um  comercial e o outro secundrio,
ao passo que por - <curso comercial e secundrio> se entende 
espontaneamente um nico que participa dos dois
atributos.
	Note-se que, quando o substantivo vem definido pelo
artigo, h a alternativa de deix-lo no singular, desde que
se repita o artigo diante do segundo adjetivo; ex.:

	a) <A RAF dominou as aviaes alem e italiana>
	b) <A RAF dominou a aviao alem e a italiana>.


	3. Concordncia verbal

	Quando um verbo se refere a mais de um sujeito, convm 
distinguir dois casos:
 
	1) Se o verbo se segue aos sujeitos, vai para o plural, 
	   concordando com todos eles. H exemplos de
	   ficar o verbo no singular, porque os substantivos
	   so mais ou menos equivalentes, mas  um tanto
	   anmala essa construo e  melhor evit-la. Ex.:
	   <A infantaria e a aviao atacaram com mpeto>.
	2) Se o verbo precede os sujeitos, j  perfeitamente
	   natural deix-lo no singular concordando com o
	   mais prximo (se todos esto no singular), mas no
	   h a respeito nada de rigorosamente determinado,
 \117


























	   e o verbo tambm pode ir para o plural. Da os dois
	   exemplos opostos de Cames, que Said Ali registra
	   lado a lado (<Gramtica Secundria>, cit., p.206).

	   a) "Ouviu-o o Douro e a terra transtagana";
	   b) "Cobrem ouro e aljfar ao veludo".

	At aqui, imaginamos apenas o caso de sujeitos 
substantivos, isto , todos da 3 pessoa, e a dificuldade 
da concordncia se reporta somente ao nmero.

	A questo se complica com a concordncia de pessoa,
quando se tem como sujeitos:

	a) eu e tu;
	b) eu e ele (ou vocbulo equivalente);
	c) tu e ele (ou vocbulo equivalente).

	O melhor critrio  nos casos a) e b), em que entra o
pronome <eu>, usar o verbo na l pessoa do plural. J no
caso c)  prefervel optar pela 3 pessoa do plural, para 
evitar o verbo na forma correspondente a <vs>  maneira deste
exemplo de Antnio de Castilho: "A ver se tu e os outros
se convencem..." (Cf. Joo Ribeiro, <Gramtica Superior>,
20 ed., p.215).


	4. Casos de sujeitos especiais

	Podemos sob este ttulo capitular os seguintes:

	1) O sujeito  um coletivo seguido de um adjunto,
	   que  o nome plural dos indivduos componentes.
	   Convm deixar o verbo no singular: <a esquadrilha
	   (a maior parte) (um grande nmero) dos avies 
	   atacou com intensidade>.
	2) O sujeito  - <um e outro>. O verbo no plural frisa
	   a distino entre as duas entidades; no singular 
	   cria-se uma ntima associao entre elas.  o que bem
	   se percebe nos dois seguintes exemplos, citados sem
	   maior comentrio por Said Ali (<Gramtica Secundria>,
	   cit., p.212).
 \118

























	a) "<Uma e outra doutrina  de Salomo>" - as duas
	   doutrinas so afins e como que partes de uma
	   concepo mais ampla;
	b) "<Uma e outra Majestade aceitaram>..." - a 
	   distino entre os dois soberanos est nitidamente
	   firmada.

	3) H dois ou mais sujeitos no singular ligados por
	   <ou> ou <nem>. O verbo no singular indicar que um
	   dos sujeitos exclui o outro; ex.: <um ou outro (nem
	   um nem outro) ocupar este posto>.
	4) O sujeito  a expresso - <mais de um>... O verbo
	   fica no singular; ex.: <mais de um avio foi atingido..
	5) O sujeito  <quem>. O verbo fica na 3 pessoa singular; 
	   ex.: <fui eu quem ordenou> (cf., ao contrrio,
	   com o pronome <que>: <fui eu que ordenei>).


	5. A concordncia do verbo "ser"

	O verbo ser  um elemento de ligao entre dois nomes
ou pronomes, dos quais um  sujeito e o outro  predicativo.
	Se um deles  plural, o verbo vai para o plural (ex.:
<aquilo no so vozes>); e, se um deles  um pronome da
l ou da 2 pessoa, o verbo vai para essa pessoa (ex.: <o
diretor sou eu>).
	Assim se explica o verbo no plural para indicar horas,
ou dias do ms nas datas (<so seis horas> - <so seis de
maro>).


II. INVARIABILIDADE

	l. Em que consiste ela

	H certos tipos de frase em que um adjetivo, formando 
locuo com o verbo <ser>, fica invarivel no gnero bsico 
(masculino) embora referindo-se a um substantivo feminino 
(< bom muita cautela,  necessrio prudncia>), ou
um verbo fica invarivel na sua forma bsica, que  a 3
pessoa do singular.
 \119


























	A invariabilidade resulta de uma ou outra das seguintes 
circunstncias:

	1) o sujeito  uma orao reduzida de infinitivo ou
	   uma orao subordinada (dita <integrante>) com a
	   partcula <que>;
	2) no h a rigor um sujeito, e a frase  o que se chama 
	   <impessoal>.

	O caso 1 explica :

	a) a invariabilidade do adjetivo com o verbo <ser>, 
	   supra-referida	(<bom ... ter muita cautela> - 
	   <necessrio ... ter prudncia>);
	b) a do verbo <parecer, muito freqente> (<as tropas 
	   inimigas parece que vo atacar>);
	c) a da locuo < que... (as tropas inimigas  que
	   recuaram>).


	2. Invariabilidade do verbo "haver"

	J o verbo <haver>, no seu sentido usual de existir, 
Fica invarivel, porque no tem sujeito propriamente dito. Erro
individual persistente  o de paut-lo pelas frases em que
funciona <existir> e faz-lo concordar com o nome que se lhe
segue. H para isso uma forte motivao psicolgica, mas
a norma culta rejeita tais construes, que so consideradas 
um ndice de ignorncia.
	Assim, dir-se- com o verbo <existir>:

	a) <existem (existiam - existiram - existiro - existiriam - 
	   talvez existam - talvez existissem) muitas esquadrilhas 
	   de caa naquele setor>;

	mas, ao contrrio, com o verbo <haver>:

	b) <h (havia - houve - houvera - haver -- haveria
	   - talvez haja - talvez houvesse) muitas esquadrilhas 
	   de caas naquele setor>.

	 claro que a invariabilidade se estende ao verbo
auxiliar que forma com <haver> um tempo composto (<deve
haver muitas esquadrilhas>...)
 \120























	3. Verbo com a partcula "se"

	 tpico do portugus o emprego de um verbo com
a partcula <se> para indicar uma ao de cujo agente se faz
abstrao: <ouviu-se um rudo; falou-se nisso; vai-se por
aqui>.
	H uma forte tendncia nas frases deste tipo a deixar
sempre o verbo invarivel, na 3 pessoa do singular.
	A disciplina gramatical vigente mantm-se, porm, num
ponto de vista diverso : s aceita essa tendncia quando o
verbo no se liga diretamente a um nome sem preposio,
ou, noutros termos, quando o verbo no  transitivo (<falou-se 
nisso; vai-se por aqui>).
	Quando o verbo  transitivo, como em - <ouviu-se um
Rudo>, considera-se que  sujeito o nome que se lhe adjunge 
e prescreve-se que o verbo deve concordar com ele (ex.:
<ouviram-se vrios estrondos>).(26) Ressalva-se o caso de -
<pode-se, deve-se> etc. combinado com um infinitivo, porque
a se cai na invariabilidade decorrente de se ter para 
sujeito uma orao de infinitivo: <j se pode atacar as tropas 
inimigas> (cf.: <j  possvel atacar as tropas inimigas>).


III. A REGNCIA

	Ao lado da concordncia d-se grande importncia na
construo da frase ao uso das preposies que ligam um
elemento determinante ao seu determinado, ou noutros termos, 
que regem o elemento determinante.
	Esse estudo, dito da regncia, compreende a rigor duas
partes:

	1) o valor e a aplicao de cada preposio considerada 
	   em si mesma;
	2) o exame das afinidades, por assim dizer, que vinculam 
	   a um nome ou a um verbo dado certa preposio dada, 
	   que normalmente o relaciona ao seu
	   complemento determinante.

(26) Em virtude dessa interpretao, rejeita-se o emprego do 
     pronome <o, a, os, as> em vez do nome neste exemplo: 
     <O patriotismo  um sentimento inspirador; quando se o tem>...
     A conseqncia lgica de ver a um sujeito  usar a forma <ele> 
     ou suas variantes, mas o efeito  deplorvel. Convm, antes, 
     omitir o pronome (quando se tem...; quando ele existe...).
 \121






















Assim, na parte 1, observa-se que a preposio <a>, por
exemplo, indica :

	a) um objeto indireto (<falar a algum>);
    	b) um complemento de direo (<ir a Paris>);
      c) um complemento de lugar prximo (<sentar-se  mesa; 
	   bater  porta>);
	d) um complemento de tempo (<ir s 3 horas>);
	e) um complemento de modo (<fechar  chave>)...

	J na parte 2, em referncia  mesma preposio, enumeram-se 
os verbos e os nomes que a "pedem" para se
construrem com um complemento essencial; exs.: <aconselhar 
aos subordinados, aconselhar a atacar; assistir a um
ataque> (prefere-se <assistir um ataque> - no sentido de colaborar 
nele); <ceder ao inimigo; faltar ao compromisso; obstar
 ofensiva; horror  guerra; aferro ao passado; exortao s
tropas; avessa  propaganda; cego  prudncia; concernente
 segurana>; etc.
	O uso de certas preposies com certos nomes ou verbos 
no tem, entretanto, muitas vezes, um carter absoluto 
e rgido, e, neste particular, a praxe literria tem variado 
tambm s vezes de poca para poca. Acrescem divergncias 
entre a norma de Portugal e a do Brasil; assim
pode-se pr em contraste - "limpou as faces  manga da
camisa", de Camilo, com - "enxugava os olhos na manga
do vestido", de um moderno escritor brasileiro (cf. Sousa da
Silveira, <Lies de Portugus>, cit., p.294-5).
	Por tudo isso no nos devemos preocupar exageradamente 
com o chamado problema da regncia, e, em princpio, 
podemos regular-nos pelo nosso pendor instintivo.
"Cada pessoa, na hora de escrever, escolhe, segundo o seu
sentimento, a preposio que lhe parece conveniente" (A.
Nascentes, <O Problema da Regncia>, Rio 1944).
 \122

Captulo XV

EXAME DE ALGUMAS SUPOSTAS INCORREES


I. I. PURISMO E ESTRANGEIRISMO

	1. O purismo

	Pode-se dizer, em essncia, que o purismo consiste em
imaginar a lngua como uma espcie de gua cristalina e
pura, que no deve ser contaminada. Perde-se a noo de
que ela  o meio de comunicao social por excelncia,
ou, para mantermos o smile, a gua de uma turbina em
incessante atividade e mais ou menos turva pela prpria
necessidade da sua funo.
	De um ponto de vista assim teoricamente falso, 
passa-se a rejeitar tudo aquilo comumente usado, mas que
resulta de uma influncia estrangeira ou da generalizao
do que foi de incio um erro individual, um vulgarismo ou
um regionalismo.
	Em portugus, a norma culta tem-se deixado conduzir, 
neste particular, para uma posio de excessiva hostilidade 
contra os estrangeirismos. Convm, portanto, fazermos 
aqui um rpido balano do problema.


	2. Inconvenientes do estrangeirismo

	Os seus inconvenientes resumem-se a rigor em tumultuar, 
por assim dizer, o sistema da lngua, a introduzindo
coisas que so fragmentos de outros sistemas.

	a) em relao ao sentido das palavras;
	b) em relao s frases;
	c) em relao aos sons elementares distintos ou fonemas.
 \123
































	Assim, o uso de uma palavra portuguesa no sentido
em que uma palavra de forma semelhante ou congnere
se usa em ingls, por exemplo, s pode concorrer para 
prejudicar o jogo de significaes que esto cristalizadas na
nossa lngua com grave dano para a eficincia da comunicao: 
comete, pois, um estrangeirismo condenvel quem
emprega <realizar> como equivalente de <compreender>, ou
<assumir> com o alcance de <supor>, por causa dos verbos 
ingleses <to realize> e <to assume>, respectivamente.
	Analogamente, os tipos de frase constituem um trao
muito caracterstico de uma lngua.
	H muitos, chamados idiomticos, a que nos habituamos 
e que concorrem, por isso, para nos facilitar a rpida
compreenso do conjunto. Qualquer anomalia, calcada numa
construo estrangeira,  esteticamente insatisfatria e 
obriga-nos a um esforo de reconhecimento, que  sempre 
penoso e perturbador. No  necessrio para esse mau resultado 
que a frase tome um aspecto inteiramente diverso
das construes normais portuguesas; basta que um tipo
de frase normal em nossa lngua seja utilizado com uma
freqncia fora do comum e em ocasies em que se d
preferncia a outro tipo.
	Temos, a respeito, uma boa ilustrao nas formas verbais 
passivas, em locues do verbo <ser> com um particpio 
passado, muito mais correntes e sistemticas em ingls, 
do que entre ns, que tambm lanamos mo de outros 
processos em grau relevante. Por isso, torna-se estranho, 
desagradvel e at exaustivo para a boa apreenso ouvir 
ou ler frases destas: <na populao brasileira so 
encontrados muitos mestios> (em vez de - <encontram-se>) - 
<neste quadro so vistos os alvos a serem destrudos> (em vez
de - <vem-se neste quadro os alvos por destruir>) - <o 
ouvinte deve ser motivado> (em vez de - <deve haver uma 
motivao para o ouvinte>), etc.
	Quanto ao emprego direto da palavra estrangeira, h
o inconveniente de ela conter em regra sons que lhe so 
prprios e que diferem dos nossos em tudo e por tudo. 
Introduz-se destarte um elemento de discordncia na lngua. A
pronncia  estrangeira torna-se rdua no correr da frase
portuguesa, em que os nossos rgos vocais esto 
espontaneamente coordenados para a produo dos nossos sons.
 \124


























Em regra, alis, no  rigorosamente respeitada, e figura
a seu lado uma pronncia aportuguesada, s vezes com
variantes. Qualquer que seja a nossa deciso, corremos
vrios riscos :
	a) a pecha de pedantismo;
	b) a de ignorncia ou vulgaridade;
	c) a impresso de estranheza ou at m apreenso por
	   parte dos ouvintes;
	d) e, em qualquer caso, tal ou qual prejuzo na flun	cia 
   	   e eficincia da elocuo, mesmo no trabalho escrito, 
	   onde, como sabemos, a leitura determina uma
	   espcie de elocuo mental.


	3. O estrangeirismo, sob outro aspecto

	Mas o estrangeirismo no  um mal em si mesmo.
	Quando no provoca esse tumultuamento do sistema da
lngua, pode ser at de emprego altamente vantajoso para
o enriquecimento, preciso e expressividade da nossa linguagem, 
falando ou escrevendo. Podemos, portanto, us-lo sem
receio, quando  corrente e geral.  uma atitude pouco 
inteligente e negativa a de rejeitar uma palavra ou um tipo
de frase de que todos se servem, pelo simples motivo de lhe
sabermos a origem francesa, inglesa ou alem.
	Tal  o caso de verbos como <controlar> e <constatar>,
entre outros, e o de expresses que no ferem o nosso 
sentimento idiomtico e so facilmente apreendidas na seu 
significado ntimo. Muitas dessas expresses trouxeram at 
proveito para a fraseologia portuguesa, dando-lhe mais leveza,
conciso, nitidez ou maleabilidade.
	Dizer, por exemplo, - "Preparemos nossos planos 
cuidadosamente, de modo a no termos surpresa" -  mais
leve e conciso do que "... de modo que no tenhamos surpresa" - 
e  mais ntido e enftico do que - "... para
no termos surpresas". Analogamente uma assero como
- "O inimigo  bastante ousado para tentar novo ataque"
- perde o seu peculiar efeito expressivo sob a forma que se
considera verncula - "O inimigo  to ousado que pode
tentar novo ataque".
 \125



























	Da mesma sorte, muitas palavras adaptadas aos nossos
sons ou que, mesmo ditas  estrangeira, j no criam maiores 
problemas, no precisam ser escrupulosamente evitadas, 
como o purismo aconselha; tais so, entre outras, -
<detalhe, bibel, marrom, envelope, esporte, rum, lder>.


	4. As nomenclaturas tcnicas

	Os vocbulos estrangeiros so especialmente abundantes 
nas nomenclaturas tcnicas, desenvolvidas numa cultura
estrangeira e na base da lngua dessa cultura. E mesmo com
inconvenientes formais tm de ser aceitos muitas vezes.
	Um recurso paralelo  especializar no sentido tcnico
uma nossa palavra que se preste para esse fim, ou forjar
uma nova pelos nossos processos normais de derivao.
Assim procederam mais de uma vez Ccero e outros eruditos 
romanos ao introduzirem a filosofia grega na cultura
latina, e, em conseqncia do seu esforo, temos hoje, 
decorrentes do latim, termos como <razo, qualidade, quantidade>.
	Na linguagem da aviao, em portugus, estabeleceu-se
por esse meio <pousar, aterrissar (ou aterrar), decolagem,
avio a jacto, projtil-foguete>. Mas uma atitude absoluta e
sistemtica a respeito  praticamente impossvel: levar-nos-ia,
na melhor das hipteses, a muitas solues especiosas e 
artificiais, quando, em matria de comunicao lingstica, se
exige, antes de tudo, naturalidade e singeleza.


	5. O estrangeirismo como nota pitoresca

	Outro mbito em que o estrangeirismo se impe 
espontaneamente  na exposio de coisas e costumes 
estrangeiros, onde a palavra tpica nativa se apresenta a rigor
intraduzvel, porque insubstituvel pelo nosso termo 
correspondente a carga de associaes de idias e valores 
especficos que nela se concentra.  o que explica, por exemplo
o efeito esttico do vocbulo ingls, em vez de <penhascos>,
nas consideraes de Joaquim Nabuco sobre a Inglaterra -
"inatacvel nos seus altos <cliffs> brancos, a cujos ps o
mar se abre como uma trincheira" (<Minha Formao>, ed.
1934, p.108).
 \126

























II. A RIGIDEZ GRAMATICAL

	l. Consideraes gerais

	J vimos, ao tratar da correo, que a gramtica no
pode ter a rigidez das regras de um jogo e que, ao lado
do erro propriamente dito, h as discordncias de uso, que
s se compadecem com uma orientao malevel.
	Este ponto de vista no tem sido, entretanto, 
infelizmente, o da maioria dos nossos gramticos, e o resultado
 muitas vezes, a certos respeitos, uma regulamentao que
embaraa em vez de auxiliar, criando em ns intimidaes
e incertezas em face do uso geral que a contradiz.
	Convm aqui focalizar, a ttulo de exemplo, as trs
questes das palavras de acentuao duvidosa, da colocao 
dos pronomes pessoais tonos junto ao verbo e do emprego 
do chamado infinitivo pessoal.


	2. As palavras de acentuao duvidosa

	Quando devemos dizer que uma dada palavra foi 
pronunciada com a acentuao errada? A resposta s pode
ser uma: quando essa acentuao no  a que se usa 
normalmente e importa num erro individual ou num 
vulgarismo, que desprestigia o elocutor.
	Certas gramticas entendem, ao contrrio, como 
acentuao correta aquela que est de acordo com a da palavra
grega ou latina originria; isto , fazem abstrao do uso
em portugus e se guiam pelo uso em grego ou em latim.
	Ora, tal critrio , em muitos casos, insustentvel. 
Seria absurdo mudar por causa dele a nossa pronncia de
vocbulos como - ,pntano, nvel, mope, acnito, sibilo,
invlucro>. Nem  menos absurdo aceit-la como um mal
inevitvel e alegar que - o "correto" seria... -, pois em
matria de linguagem o correto  o que normalmente se diz.
	Em referncia a outras palavras, este ponto de vista 
falso conseguiu introduzir pronncias diversas das que 
estavam assentes, sem lograr banir estas ltimas. O resultado
 termos hoje de escolher entre - <azafama> e <azfama>
(por causa da origem rabe), <crisantemo> e <crisntemo> (por
 \127


























causa do grego), <autpsia> e <autopsia> (por causa do grego).
Quando, como nestes exemplos, a emenda no se generalizou 
preponderantemente,  melhor atermo-nos  acentuao 
antiga anterior  corrigenda, ou seja, na lista citada,
a primeira de cada par. Outras vezes, porm, a emenda
proposta firmou-se, por motivos vrios,, criou-se certo 
preconceito a seu favor; tal  o caso de <hipdromo> (em vez
de <hipodromo>), como <aerdromo, prdromo, prottipo> (em
vez de <prototipo>), <rptil> (em vez de <reptil>), <espcime> (em
contraste com regime).
	Caso diverso  aquele em que se procura mudar a
acentuao de uma palavra na base de um raciocnio equvoco. 
Assim, no h razo para abandonar a pronncia
oxtona de <projetil>, que nos veio do francs e no existia
em latim; a paroxtona de <filantropo> e <misantropo>, que
como paroxtonos se diziam em latim, com outra pronncia 
que em grego; ou a de <quiromncia>, pelo mesmo motivo.
	Note-se, finalmente, que muitas palavras eruditas 
portuguesas so paroxtonas, porque se trata de adaptaes do
francs, e o argumento da pronncia grega ou latina se torna 
assim artificial. Tais so: <acrobata, anedota, ciclone, 
democrata> (como <aristocrata, autocrata>, etc.), <diatribe, 
homeopata> (como <alopata>), <omoplata, monolito, polipo, 
prognata, quadrumano>.


	3. A colocao dos pronomes pessoais tonos

	Sabemos que em principio h em portugus a 
possibilidade de coloc-los antes ou depois da forma verbal, 
como uma nova slaba inicial (prclise) ou final (nclise) 
dessa forma.
	O efeito acstico  um tanto diverso num e noutro caso. 
A posio inicial do pronome tono d-lhe certo relevo, 
porque as slabas iniciais so emitidas, com mais fora que as
finais. A posio final, em compensao, prolonga o verbo 
e s vezes, com isso, valoriza o ritmo da frase com um
grave vocbulo paroxtono (... <aproximou-se>...). Na 
linguagem da conversao, conduzidos sem sentir por esses
motivos sutis e imponderveis, jogamos  vontade com as 
duas colocaes.
 \128


























	A disciplina gramatical no concordou, porm, com
essa liberdade. Guiando-se pela freqncia preponderante
de uma das colocaes em determinados casos, estabeleceu
algumas regras rgidas, a que convm atender por dois
motivos.

	a) porque representam, com efeito,	tendncias	muito
	   fortes vigentes na lngua literria;
	b) porque so em regra muito acatadas e a sua infrao, 
 	   num meio de ouvintes, ou leitores cultos, pode
	   prejudicar o prestgio do expositor.

	Assim, para no comear pelo pronome tono uma orao 
depois de pausa, faz-se a nclise. (27)

	1) No comeo de um perodo; ex.: <Decidimo-nos	a
	   atacar>.(28)
	2) No comeo de uma orao reduzida de gerndio;
	   ex.: <Decidimos atacar, concentrando-nos na ala
	   esquerda>.
	3) No comeo de uma orao principal que se segue a
	   uma subordinada; ex.: Quando decidimos atacar,
	   concentramo-nos na ala esquerda.

	Paralelamente h trs casos em que deve dar-se a
prclise: 

	1) quando o verbo  precedido da partcula <no> ou
	   um pronome negativo (<ainda no nos decidimos a
	   atacar - nenhum general se decidiria a atacar nesta
	   conjuntura>);
	2) quando a orao comea por partcula subordinativa 
	   (<ficou decidido que as tropas se concentrariam na
	   ala esquerda);
	3) quando o verbo  um gerndio regido pela preposio 
	   <em> (<em se pondo o sol>...).

	Note-se finalmente que, se o verbo se compe de um
auxiliar (qualquer tempo de <ser, estar, ter, haver> e alguns

(27) Nos indicativos futuros (do presente e do pretrito: 
     <decidir, decidiria>) no se faz propriamente a nclise, 
     intercala-se o pronome tono na terminao verbal depois
     do -<r>: <decidir-se-, decidir-se-ia>.
(28) De todas essas regras,  a nica que deve ser 
     cuidadosamente respeitada na exposio oral, a infrao 
     das outras passa quase sempre despercebida na linguagem falada.
 \129




















outros) seguido de particpio passado, gerndio ou infinitivo, 
aplicam-se as trs regras da nclise ou da prclise em
referncia ao auxiliar. Mas sempre e em qualquer caso, 
possvel fazer a nclise como o infinitivo ou o gerndio, e,
no Brasil, mesmo na lngua literria, se aceita a prclise
com o infinitivo, o gerndio ou o particpio. Exs.: <Tnhamo-nos 
decidido a atacar - Decidimos atacar, tendo-nos
concentrado... - Ainda no nos tnhamos decidido a atacar - 
O inimigo j no estava concentrando-se (j no podia 
concentrar-se) naquele setor - Ainda no tnhamos
nos decidido - O inimigo j no estava se concentrando
(j no podia se concentrar).


	4. O emprego do infinitivo pessoal

	 uma peculiaridade da lngua portuguesa poder usar
o infinitivo com terminaes pessoais, em vez de sempre
invarivel como nas outras lnguas derivadas do latim. Assim 
diremos - < preciso falar> (se o sujeito  <eu> ou <ele>),
<falares, falarmos, falardes, falarem> -, quando em espanhol
s h forma nica impessoal - <hablar>.
	Muitos gramticos tm-se esforado para delimitar 
rigidamente o emprego desse infinitivo pessoal em face do
impessoal. A verdade, porm,  que ele implica num efeito
de nfase, e o mais das vezes s o caso concreto pode 
determinar qual das duas formas  prefervel.
	Se partirmos deste postulado - a necessidade da nfase, 
teremos de concluir que s h na realidade trs empregos 
incorretos do infinitivo pessoal:

	a) quando se trata de um verdadeiro tempo composto,
	   em que a nfase se distribui por toda a locuo 
	   verbal: <temos de fazer> (no - <fazermos>), <queiram
	   sentar-se> (no - <sentarem-se>).
	b) quando o seu sujeito  um pronome tono em nclise 
	   ou prclise com outro verbo, porque a nfase
	   posta no infinito colidiria com a necessria falta
	   de nfase do seu sujeito; <vi-os avanar> (no -
	   <avanarem>).
 \130 



























	c) quando o infinitivo  um simples adjunto de um
	   adjetivo em que se encontra a nfase: <capazes de
	   exigir> (no - <de exigirem>).

	Nos demais casos, basta o sentimento instintivo para
empregarmos com propriedade uma ou outra forma.
	Na linguagem falada, o contato direto com os ouvintes 
nos leva naturalmente para a nfase, e da a freqncia 
do uso do infinitivo pessoal nas exposies orais. A 
obedincia escrupulosa a certas regras, firmadas <in abstracto>,
cria uma correo meramente convencional, muitas vezes
em conflito com as exigncias espontneas da expressividade.
 \131

Captulo XVI

A ESCOLHA DAS PALAVRAS

I. CONSIDERAES GERAIS

	A eficincia de uma comunicao lingstica depende,
em ltima anlise, da escolha adequada das palavras, e
a arte de bem falar e escrever  chamada, com razo, a arte
da palavra.
	Essa escolha , em regra, muito mais delicada e muito
menos simples do que  primeira vista poderia parecer.
	O sentido de uma palavra no  essencialmente uno,
nitidamente delimitado e rigorosamente privativo dela, 
maneira de um smbolo matemtico.
	H uma complexidade imanente, que se apresenta sob
diversos aspectos.
	Em primeiro lugar, duas ou mais palavras podem ser
de significao mais ou menos equivalente, constituindo o
que se chama a sinonmia. Com uma mesma palavra designam-se, 
por outro lado, coisas variveis, e nessas significaes 
o trao constante, que justifica a designao nica, 
no raro bastante frouxo, especialmente quando se 
consubstancia um conceito abstrato, depreendido do mundo 
tangvel por uma nossa elaborao mental. Acresce ainda que
uma palavra pode significar coisas diferentes, praticamente 
sem relao entre si, e assim multiplicar-se num conjunto 
de formas iguais mas sentidos distintos, que so os 
homnimos, ou ao seu lado houver outras de formas semelhantes
(os parnimos), que favorecem confuses. Enfim,  parte da
significao propriamente dita, a palavra carreia uma srie 
de associaes de idias, que pesam no seu efeito e no
da frase em que ela se encontra.
	Estas consideraes nos levam a problemas particulares
que vamos aqui rapidamente apreciar.
 \132

































II. OS SINNIMOS

	1. A escolha entre os sinnimos

	Em matria de sinonmia,  preciso, antes de tudo, 
ressalvar que no h a rigor o que muitas gramticas chamam 
os sinnimos perfeitos: eles s existem como tais nas
listas dessas gramticas. Todos decorrem das significaes
diversas que adquire uma mesma coisa, de acordo com os
diversos interesses que tem para ns; um conceito "neutro"
se concretiza em duas ou mais denominaes, segundo valores 
especficos, e  assim que a palavra <construo>, que
nos faz ver o conjunto arquitetnico, cede lugar a <prdio>
para objetivar o bem imvel.  o interesse, e tambm a
incerteza das apreciaes, que explica o fato de nos parecer
haver muitas vezes  nossa escolha duas palavras sinnimas, 
como <justo> e <equitativo> ou <castigar> e <punir> para 
qualificar uma ao ou um procedimento. (29)
	H sempre, em funo da frase e do teor geral da nossa 
exposio, um desses sinnimos que se impe.
	Da se derivam certas, conseqncias para uma boa
escolha.
	Podemos arrol-las em trs itens:

	1) H, entre as duas ou mais palavras, pequenas mas
	   perceptveis diferenas de significao. Assim, 
	   <perecer> e <sucumbir> designam em comum a idia de
	   "morrer lutando", mas o segundo verbo encerra, a
	   mais, a de "ser vencido nessa luta"; seria, portanto,
	   imprprio aplic-lo  morte do almirante Nelson, em
	   plena vitria	j no fim da batalha de Trafalgar,
	   ou, extensivamente,  do presidente Franklin 
	   na ltima fase da Guerra Mundial de 39. Por
	   outro lado, <perecer>, que cabe perfeitamente ao caso
	   de Nelson, se torna pouco prprio para o presidente
	   norte-americano, porque envolve a idia de tombar
	   por uma participao	frisantemente corporal na
	   luta, inaplicvel a um chefe civil que morreu pelo
	   esgotamento de suas foras fsicas.

(29) Cf. as consideraes neste sentido do lingista holands 
     H. J. Pos na sua <Contribuio a uma Teoria Geral dos 
     Sinnimos>, em Recherches Philosophiques publies
     par Koyr, Puech, Spaier (vol. II, 1932-1933), Ed. Boivin.
 \133























	2) A significao, do ponto de vista intelectivo, pode
	   ser praticamente a mesma; mas h diferenas de 
	   outra ordem, em virtude daquela srie de associaes
	   que a palavra carreia e que pesam no seu efeito.

	Tal  o caso dos termos em que se envolve o sentido 
da repulsa ao lado de outros sem esta carga afetiva.
Neste particular, a linguagem pode ir muito longe, 
ultrapassando o mbito da sinonmia, propriamente dita, como
sucedeu com as duas pequenas cidades norte-americanas,
na histria com que se abre um livro do professor Hayakawa
(<Language in Action>, New York 1941). Num perodo de
depresso econmica, estabeleceu uma delas uma <ajuda> 
(<relief>) de 50 dlares mensais para cada chefe de famlia 
desempregado, enquanto a outra institua um seguro municipal
por desemprego de valor exatamente igual:  bvio que a
mesma quantia, em virtude das mesmas condies e paga
para os mesmos fins, adquiriu um sentido diferente, e apenas 
de base afetiva, conforme foi denominada ajuda ou
prmio de seguro.
	Noutras sries de sinnimos, a diferena est em que
um deles acentua cruamente a idia, enquanto outro como
que apenas a insinua (cf. <morrer - falecer, recuar - 
ceder terreno>).
	E tambm  preciso no esquecer a influncia da forma 
de uma palavra, segundo  curta ou longa, complexa
ou mais simples, derivada expressivamente de outra ou 
isolada, caracterizada ou no por um som incisivo, entre 
outras circunstncias, que a fazem singularmente prpria em
determinado momento. , por exemplo, o efeito acstico 
rpido e forte, a simplicidade da formao e a associao
com <ave>, que torna o termo <avio> mais adequado que
<aeroplano>, quando se trata de uma cena concreta, e no
de consideraes abstratamente cientficas como, ao contrrio, 
a referncia ao "princpio fsico em que se baseia o
aeroplano..."

	3) Finalmente, como a significao  de muito 
	   condicionada pela frase em que se acha, h muito 
	   poucas palavras que sejam constantemente sinnimas,
	   e a escolha s se pode fazer em funo de texto 
 \134


























	   determinado. Nada mais desastroso do que pensarmos
	   poder guiar-nos pela lista de sinnimos de um 
	   dicionrio. Este s pode servir para nos avivar a 
   	   memria a respeito de palavras que j conhecemos e cujos
	   valores, muitas vezes sutis e fugidios, j sentimos
	   com acuidade.


	2. Recursos que oferecem os sinnimos

	Essas consideraes sobre a natureza da sinonmia nos
fazem bem compreender por que o conhecimento de variadas 
palavras sinnimas importa num enriquecimento da
linguagem e num grande recurso de estilo.
	 que nos permite cingir as coisas sob mltiplos 
aspectos, e como que focaliz-las de diferentes pontos de vista.
	 esta a grande vantagem da acumulao de sinnimos
nas frases de certos escritores, famosos pela sua riqueza
vocabular como o Padre Vieira, Camilo Castelo Branco e
Rui Barbosa. Chega-se assim no apenas a um maior relevo 
da idia, em virtude da insistncia com que ela se repete 
em cada palavra da srie. Atinge-se tambm a uma
maior preciso dessa idia, porque a significao escrita
de cada sinnimo reage sobre a dos outros, e, do conjunto,
aflora, como resultante, um matiz de significao, no 
contido nos diversos termos isolados.
	 especialmente til o recurso, quando o que se procura
expressar no tem rigorosamente uma designao privativa
e prpria ou ela no ocorre na rapidez da exposio oral:
o expositor se resigna a diz-lo de maneira mais ou menos
aproximada, mas corrige at certo ponto o inadequado de
cada expresso pelo aspecto novo que da sua idia, de
cada vez, nos apresenta.
	A enumerao de sinnimos  espontaneamente praticada 
em referncia a adjetivos com que se procura bem
qualificar um ser ou uma ao enunciada. "Arranca o 
estaturio uma pedra dessas montanhas tosca, bruta, dura,
informe..." - diz, por exemplo, o Padre Vieira num dos
seus trechos clebres (<Sermes>, ed. 1963, III, 419). Com isso,
tambm se obtm muitas vezes um melhor balano da frase, 
prolongando um grupo de fora; mas a vantagem essencial
 \135


























no est, propriamente, a. O acmulo de dois ou mais
adjetivos equivalentes, como <firme> e <slido>, <apto> e <capaz>,
pode produzir o mau efeito de uma repetio viciosa da
mesma idia, se nitidamente no concorre para o relevo e
a preciso dela; e o expositor deve manter-se de sobreaviso
contra a tendncia rtmica e assim arredondar a frase sem
lhe dar maior contedo mental.
	Compreende-se, por outro lado, que os sinnimos no
podem ser uma panacia para obviar  repetio da mesma
palavra. Servir-se deles sem a contraparte de um 
enriquecimento significativo, no evita a repetio, que 
continua imanente sob o desajeitado disfarce de uma nova 
roupagem; e perturba a apreenso do pensamento, obrigando o 
leitor ou o ouvinte, diante de cada sinnimo, a um trabalho 
de identificao da mesma idia constante. Imagine-se, para bem
sentir esta ltima desvantagem, um caso, que a rigor nela
nitidamente se enquadra: como seria desagradvel ler uma
pgina crtica sobre Joo de Lemos Seixas Castelo Branco,
onde o poeta fosse sucessivamente citado ora por Joo de
Lemos, ora por Castelo Branco, ora por Lemos Seixas, e as-
sim por diante.


	3. A repetio das palavras

	No  pelos sinnimos que se tem de evitar, em 
princpio, uma repetio viciosa. H para isso processos mais
radicais:

	a) a inteligente utilizao dos pronomes;
	b) a omisso da palavra, quando esta elipse se faz
	   sentir natural;
	c) a construo adequada das frases, permitindo pr
	   de lado, depois de algum tempo, a idia, cuja 
	   presena insistente se est tornando afrontosa.

	Eis dois exemplos:

	1) "Ao elaborar os planos de uma defensiva  preciso
	   no esquecer <que a defensiva no decidir da 
	   vitria>" (correo: "<que ela no decidir da vitria>").
 \136


























	2) "Numa guerra, s quando se passa  ofensiva, < que
	   se pode levar a guerra a um resultado decisivo>" 
	   (correo, muito melhor do que o emprego de <luta, 
	   campanha, conflito: "que se pode chegar a um resultado
	   decisivo>").

	Observe-se, por outro lado, que nem sempre a repetio 
 de mau efeito, como muita gente cr. Em circunstncias 
especiais, em que cumpre insistir teimosamente para 
convencer e sugestionar, a presena, de momento a momento, 
da mesma palavra pode ser de excelente resultado.
 o que bem ilustra Rui Barbosa ao comentar a frase atribuda 
ao chanceler alemo, em 1914, sobre o nenhum valor
dos tratados: "Se os tratados so trapos de papel, porque
se consignam em papis, trapos de papel so contratos,
porque todos em papel se escrevem. Se, celebrando-se no
papel os tratados, por isso no so mais que trapos de papel,
mais que trapos de papel no so tambm as leis, que no
papel se formulam, decretam e promulgam. Se os tratados,
porque recebem no papel a sua forma visvel, a trapos de
papel se reduzem, as Constituies, que no papel se pactuam,
no passam de trapos de papel. Trapos de papel maiores ou
menores, mas tudo papel e em trapos" (<Problemas de Direito 
Internacional, Conferncia de Buenos Aires>, ed. Truscott,
1916; p.86).
	Entretanto, neste particular, a lngua portuguesa no
propende a favorecer a repetio retrica no grau lato que
se encontra em ingls, por exemplo; e  preciso muito 
cuidado com tal recurso, mormente diante de um auditrio
de gente simples, para quem pode passar despercebida a
sutileza da inteno.


III. OUTROS ASPECTOS NA ESCOLHA DAS PALAVRAS

	l. O perigo das palavras abstratas

	Nas <Consideraes Gerais>, com que se iniciou este 
captulo, j se aludiu  impreciso de uma palavra em virtude
de ter acepes vrias, apenas ligadas por um lao muito
 \137 



























frouxo. Para precisar-lhe o sentido  necessrio muitas 
vezes a colaborao de todo o conjunto em que ela se acha.
	O perigo, como vimos ento,  maior com as palavras
ditas abstratas, que exprimem idias depreendidas das 
coisas concretas pelo nosso trabalho mental. As diferenas so
a to vagas, que o prprio expositor se arrisca a passar
insensivelmente de um sentido para outro, caindo na confuso 
ou na incoerncia. Acresce que nem todos ns estamos
em concordncia implcita sobre palavras como <solidariedade, 
patriotismo, lealdade>, e cada qual as focaliza pelo ngulo
por que est habituado a encar-las. Finalmente, a palavra
abstrata  sentida com muito menos relevo do que a concreta, 
que, ao contrrio, podemos facilmente visualizar.
	Esses inconvenientes ressaltam nos nomes de ao e
qualidade, que tendem a se acumular em dissertaes de
carter terico. A  que tem especial cabimento o incisivo 
comentrio dos professores norte-americanos Foerster e
Steadman: "Se bem que as palavras comuns e as abstratas 
tenham o seu lugar prprio, muitas vezes as empregamos 
quando seriam mais bem empregadas palavras especficas 
e concretas, apenas porque somos muito preguiosos
para dizer aquilo que queremos, ou para achar aquilo que
de fato queremos dizer" (<Writing and Thinking>, p.51).
	No  possvel -  claro - banir as palavras abstratas;
mas  sempre possvel s us-las justificadamente e atentar
se pelo teor da frase esto com um sentido ntido, coerente
e facilmente apreensvel.


	2. Homnimos e parnimos

	A confuso tambm se insinua em conseqncia dos
termos de significao distinta, mas de forma igual 
(homnimos) ou mesmo parecida (parnimos).
	Os homnimos s se elucidam em funo das frases em
que se acham, e por isso nos obrigam a uma formulao
mais acurada. Evidentemente, quando eu me refiro ao -
"cravo de uma ferradura", ningum entender a palavra
como designando uma flor ou um instrumento de musica;
mas nem todas as nossas asseres podem ser assim 
intrinsecamente claras.
 \138


























	Da mesma sorte, a existncia de um parnimo 
muitas vezes o emprego de uma palavra. A tendncia
 neste caso a de se ouvir, ou at inadvertidamente ler, a
forma que  de mais freqente uso "esprito ponderoso" -
dir um orador, e o auditrio apreender - "esprito 
poderoso", baralhando a afirmao.
	Devemos, portanto, ser muito cuidadosos em referncia
s palavras que apresentam homnimos ou parnimos; e,
quanto s deste ltimo tipo, na necessidade de empreg-las,
levar em conta a amplitude do seu uso para este-las bem,
dentro da frase, e, na exposio oral, articul-las com 
especial preciso.
	No se deve, porm, concluir que os homnimos e os
parnimos so em princpio um mal e s tm aspectos 
negativos, contra os quais precisamos precaver-nos.
	Uns e outros so, a certo respeito, uma riqueza da 
lngua e muito podem concorrer para o relevo e a 
expressividade de um pensamento.
	A colocao, lado a lado, de duas palavras distintas,
mas de aspecto semelhante, pode melhor destacar a 
significao inconfundvel de cada uma, atravs da quase 
confuso formal. Almeida Garrett d-nos dois exemplos 
consecutivos no discurso com que apresentou o seu <Frei Lus de
Sousa> ao Conservatrio Real de Lisboa : " singular 
condio dos mais belos fatos e dos mais belos caracteres que
ornam os fastos portugueses, serem tantos deles, quase todos 
eles, de uma <extrema> e <estreme> simplicidade... A bela
figura de Manoel de Sousa Coutinho, ao p da anglica e 
resignada forma de D. Madalena, amparando em seus braos
interlaados o inocente e mal-estreado fruto de seus fatais
amores, formam naturalmente um grupo, que se eu pudesse 
tomar nas mos o escopro de Canova ou de Torwaldsen
- sei que o desentranhava de um cepo de mrmore de Carrara 
com mais facilidade, e de certo com mais <felicidade>,
do que tive em pr o mesmo pensamento por escritura nos
trs atos do meu drama" (<Teatro>, ed. T. Braga, VI, p.5-7).
	Analogamente, no emprego atual de uma palavra de mais
de um sentido, pode-se fazer transparecer, como num 
claro-escuro  Rembrandt, outro sentido homnimo, que se
 \139




























tem indiretamente em vista. Assim  que o Dr. Samuel
Johnson, servindo-se de <razo> como equivalente de <motivo>,
mas sugerindo-lhe a acepo bsica de faculdade intelectiva 
do homem, fechou com um <knock-out> um debate que se
prolongava sem termo: Eu j lhe dei uma razo, senhor;
mas no me compete tambm lhe dar um entendimento".(30)

(30) A frase, que cito de Macaulay (<Literary Essays>, 
     Ed. Nelson, p.119) no  a nica desta natureza do famoso 
     dicionarista ingls.
 \140

Captulo XVII

A LINGUAGEM FIGURADA

I. CARACTERIZAO

	1. Conceito da linguagem figurada

	O estudo do bom emprego das palavras fica incompleto, 
se tambm no levarmos em conta que a cada passo
as desviamos do seu sentido prprio.
	 essa circunstncia que no raro torna ftil, quando
no contraproducente, o escrpulo de um acordo rigoroso
com as definies do dicionrio, e torna intil, quando no
falaz e desastroso, deduzir a significao em funo do 
radical ou dos termos cognatos.
	Desviar uma palavra da sua significao prpria, o
que tem em gramtica o nome de linguagem figurada, 
um fenmeno normal na comunicao lingstica, e explica-se, 
em ltima anlise, pelo que j ficou mais de uma vez
frisado no captulo anterior: o alcance exato de uma
palavra:

	a) depende em grande parte do alcance da frase em
	   que ela se acha;
	b)  precisado e delimitado pelas outras palavras em
	   torno;
	c) e j  complementarmente sugerido pelo teor geral
	   do que se diz.

	, por exemplo, um sentido figurado o de vapor ou de
vela como equivalentes de navio; mas ningum entender
o sentido prprio de corpo gasoso numa assero como -
"o vapor encalhou", da mesma sorte que - "uma frota de
cem velas"  logo interpretada como de cem navios de vela,
 \141

































e no cem velas literalmente ditas nos cem respectivos
mastros, o que implicaria num nmero muito menor de
embarcaes. Analogamente, um viajante pode comunicar
que - "j vai entrar no vapor", sem a menor possibilidade
de sobressaltar seus amigos pelo temor de v-lo morrer
sufocado.


	2. Tipos de linguagem figurada

	A linguagem figurada pode ser essencialmente de dois
tipos: 

	1) Emprego de uma palavra para designar um conceito 
	   com que o seu conceito prprio tem qualquer
	   relao:

	   a) da parte para o todo, como <cabea> em vez de <rs>;
         b) do princpio ativo para a coisa acionada, como
 	   <vapor> em vez de <navio>;
	   c) de continente para contedo, como <copo> para
	   uma determinada <poro de gua>;
	   d) de smbolo para coisa simbolizada, como <bandeira> 
	   indicando <partido poltico> ou a <ptria>;
	   e) de instrumento para seu agente, como <pena> na
	   acepo de <escritor>;
	   f) de substncia para objeto fabricado, como <ferro>
	   correspondente a <espada> ou <punhal>;
	   g) de elemento primordial em lugar de todo um conjunto, 
	   como <vela> resumindo o <navio de vela>; etc.

	A todos estes empregos d-se o nome de <metonmia>.

 	2) Emprego de uma palavra com a significao de outra, 
	   sem que entre uma e outra coisa designada haja
	   uma relao real, mas apenas em virtude da 
	   circunstncia de que o nosso esprito as associa e 
	   depreende entre elas certas semelhanas.

	Se, ao exprimirmos nosso pensamento, tornamos explcita 
a associao, temos o que se chama uma comparao
em gramtica. Diremos, ento, que - A  como B, A parece B, 
A faz lembrar B.
 \142
























	Podemos, porm, na base de uma semelhana tacitamente  
depreendida, substituir no momento da formulao
verbal uma palavra pela outra e empregar B para designar
A.  o que se chama a <metfora>.
	Assim, porque assimilamos mentalmente a ao de 
governar  de dirigir a marcha de um navio, construmos a
frase metafrica - "Franklin Roosevelt foi um magnfico
piloto da nao norte-americana" - substituindo por <piloto>
(B) uma palavra A que realmente corresponderia s suas
funes.


II. USO DA LINGUAGEM FIGURADA

	1. Importncia da metonmia

	A metonmia destaca o elemento que, no momento, 
essencial no conceito designado. Dizer, por exemplo, <vela>
ou <vapor>, em vez de navio,  frisar logo o tipo de 
embarcao a que me refiro.
	Para ver, exemplificadamente, as suas vantagens, basta 
atentar na famosa enumerao - "suor, sangue e lgrimas" - 
com que Winston Churchill sintetizou a situao
crtica de seu povo, na guerra de 39, depois da queda da
Frana.
	A frase decorre de trs metonmias, em que trs tipos
de acontecimentos so expressos pelos nomes das manifestaes 
fsicas que eles, respectivamente, provocam no corpo 
humano. Em linguagem no-figurada, ter-se-ia, vaga, incolor 
e prolixamente - esforos inauditos, inmeras mortes
e ferimentos, e dores sem conta.


	2. Importncia da metfora

	Essa fora de visualizao ainda mais avulta nas
metforas.
	 primeira vista, poderia parecer que elas so uma
prerrogativa da lngua literria ou at, mais estritamente,
da poesia, e no interessam a quem quer apenas apresentar 
com nitidez e eficincia os seus pensamentos para fins
prticos.
	A concluso seria completamente falsa.
 \143
























	Mesmo na conversao cotidiana apelamos instintivamente 
para a linguagem metafrica. E com muito mais
razo o fazemos numa exposio oral ou escrita. O pensamento 
lingstico , por sua natureza, imaginoso; por isso,
como observa o fillogo alemo Karl Vossler, a prpria
cincia s se desvincula das metforas, quando abandona
a linguagem propriamente dita e se circunscreve  formulao 
matemtica.(31)
	O resultado desse carter da comunicao lingstica
 a importncia do emprego metafrico das palavras em
que tudo que dizemos ou escrevemos.
	 um meio valiosssimo para agradar, sugestionar e
convencer. Quase instintivamente a massa dos leitores ou
ouvintes espera sempre de qualquer expositor uma tal ou
qual "riqueza de imaginao".
	No poucas vezes, at, a metfora  o nico meio de
esclarecer satisfatoriamente um assunto ou um conceito.
Como se poderia dispensar, por exemplo, num moderno
tratado de operaes militares as expresses essenciaimente 
metafricas de - <movimento de tenazes, ponta de lana,
martelamento das posies?> Quantas palavras seriam 
necessrias para substituir difusamente a metfora do - <vo
em parafuso!>
	A exigncia ainda  mais aguda em referncia s 
abstraes. O emprego da palavra figurada  um recurso quase 
sempre eficiente para obviar ao carter vago dos termos
abstratos, cujo perigo foi salientado no captulo anterior.
	 o que, na prpria exposio cientfica, aparece 
meridianamente, quando um expositor "imaginoso", como Paul
Janet, nos d uma noo ntida do que  potencial eltrico,
assimilando-o  altura da gua num reservatrio e 
substituindo para o principiante o termo <potencial> por <altura
da eletricidade> (Prmiers Principes d'Eletricit Industrielle,
7 ed., p.36).


	3. Uso da comparao

	H casos, entretanto, em que se impe enunciar o termo 
propriamente designativo A, embora uma exigncia do

(31) Cf. o captulo VIII sobre <A linguagem e a Cincia>, no seu 
     livro <The Spieit of Language>, trad. Oeser, Londres 1932.
 \144
























senso esttico ou as necessidades da clareza ou do vigor
da expresso nos faam sentir a convenincia de ampar-lo
com um elemento B, mais ntido, mais concreto, mais 
impressionante.  o caso tpico em que se torna aconselhvel
a comparao.
	Vrias vezes, melhor que a metfora, ela nos permite
desenvolver os mltiplos aspectos que criaram em nosso 
esprito a associao A-B, e assim preparar o leitor ou o
ouvinte desprevenido para tambm aceit-la sem reservas
mentais ou mesmo certa perplexidade.
	Seria, por exemplo, extravagante substituir o nome do
Conselheiro Zacarias pela metfora - <navio de guerra>; mas
nesta ordem de idias Joaquim Nabuco nos d uma comparao 
explcita e minuciosa: "A sua posio lembra um
navio de guerra, com os portals fechados, o convs limpo,
os fogos acesos, a equipagem a postos, solitrio, inabordvel,
pronto para a ao" (<Um Estadista do Imprio, cit., II, p.117).


	4. A linguagem figurada fossilizada

	Se a linguagem figurada est, como vimos, no prprio
cerne da expresso verbal, no  de admirar que a 
encontremos, latente ou j francamente extinta, em quase todo
o vocabulrio de uma lngua. Assim, para nos limitarmos
a um exemplo, a comparao entre governar e dirigir um
navio apenas renova uma metfora, que se esvaiu do primeiro 
desses verbos, pois de <gubernre> em latim (port.
<governar>) a significao prpria era a de <pilotar>.
	 o que podemos chamar a linguagem figurada fossilizada, 
partindo de um trecho clebre do ensasta norte-americano 
Emerson: "A linguagem  poesia fossilizada.
Como as rochas sedimentrias consistem de massas infinitas 
de conchas de animlculos, a linguagem  feita de imagens 
ou tropos, que agora, no seu emprego secundrio, 
deixaram h muito de nos sugerir a sua origem potica" (<Essays
and Representative Men>, ed. Collins, p.231).
	Da podemos tirar trs importantes conseqncias
prticas:

	1) A primeira  que, como se ressalvou logo no incio
	   deste captulo, no se pode em princpio pautar a
 \145

























	   significao de uma palavra pelo seu radical, pelos
	   seus elementos formadores ou pelos termos cognatos.
	   Faz-lo  muitas vezes uma fa1cia, contra a qual
	   precisamos precaver-nos ao definir ou comentar uma
	   denominao tcnica ou cientfica: o sentido atual
	   pode no ser o originariamente prprio, mas resultar
	   de uma metonmia ou de uma metfora, de que j
	   no se tem idia.
	2) Se, por outra lado, h uma metfora meia-extinta 
	   e que ainda se faz um pouco perceber,  preciso
	   no olvid-lo na formulao verbal. Um exemplo
	   tpico  o uso da preposio conveniente com os 
	   termos figurados <aspecto> (isto , viso), <ngulo> e 
	   <ponto de vista>, com que particularizamos uma 
	   determinada maneira de considerar um fato ou uma coisa: 
	   a viso recobre os objetos vistos e, portanto,  justo
	   dizer que eles se acham <sob um ou mais aspectos>,
	   ao passo que em funo da posio em que estamos
	   em referncia a eles, s podemos v-los <por um ngulo> 
	   ou <de um ponto de vista>.
	3) Finalmente - e este  o lado positivo da situao
	   - a significao latente permite auferir as suas 
	   vantagens, por um processo que poderamos chamar 
	   econmico, sem a mudana da palavra usual.  o que
	   se exemplifica em Carlyle com o elemento <hiers>
	   de um composto grego, onde o valor religioso do
	   adjetivo se obumbrou h muito: contrapondo-se s
	   teorias igualitrias, exclama enfaticamente o 
	   apologista dos <Heris> e do <Culto dos Heris> que 
	   "a hierarquia social bem merece o seu nome, pois  uma
	   coisa sagrada" (<Heroes and Hero-Worship>, ed. 
	   Collins, p.ll).


	5. Emprego vicioso das metforas

	Resta-nos, finalmente, apreciar a ttulo de concluso o
emprego vicioso das metforas. Ele resulta da inobservncia 
de certos princpios, que com o gramtico ingls Abbott
(<A Shakespearian Grammar>, 1925, p.436-8) podemos capitular 
em cinco itens:
 \146


























	1) a metfora tem de decorrer das necessidades da 
	   nfase e da clareza;
	2) no deve ser forada e artificial, e no uso da 
	   linguagem para fins prticos - acrescentemos - no 
	   deve ser sequer muito original e fora do comum;
	3) no convm que ela se desenvolva demais e entre
	   em muitos detalhes;
	4) no se deve acumular duas ou mais metforas 
	   contraditrias na seqncia de um pensamento;
	5) a metfora o deve ser integralmente e no 
	   coincidir em parte com a situao real.

	O item 3 cria o vcio que os ingleses chamam "<to ride
a metaphor to death>" (cavalgar uma metfora at estaf-la),
ou, para falar em linguagem no-metafrica, at que as 
semelhanas desaparecem e enunciamos um disparate.
	Do item 5 d-nos Abbott um excelente exemplo com a
frase - "um belo capito  o piloto do seu navio". Com
efeito, como num navio h um capito e h um piloto, o 
intento metafrico deste ltimo termo fica perdido, e passa-se
a afirmar uma extravagncia, a saber, que o capito e o
piloto devem ser a mesma pessoa.
	Quanto ao item 4 no faltam exemplos que raiam por
anedotas; haja vista o do "carro do Estado que navega num
vulco" de um orador poltico incipiente, ou a assertiva de um
crtico teatral sobre uma jovem cantora - "estrela em boto 
que j canta com mo de mestre. (32)
	E no esqueamos, acima de tudo, que, pelo prprio
conceito de metfora, no existe entre A e B uma 
correspondncia objetiva na realidade, a fim de no sermos 
vtimas das nossas prprias comparaes implcitas ou 
explcitas. Com elas se destaca ou se esclarece uma idia, mas
nunca se pode construir uma relao lgica.  justo, 
evidentemente, em termos de linguagem expressiva, dizer que
uma linha frrea importante  a espinha dorsal de um
pas; mas seria absurdo que o Estado-Maior inimigo, tendo
feito romper pelo bombardeio areo um largo trecho dessa
linha, conclusse que o pas antagonista est aniquilado 
exatamente como um homem de quem se quebrou a espinha
dorsal.

(32) As frases anedticas, de fundo francs, se encontram na 
     lngua original em Vendryes, <Le Langage>, cit., p.209.
 \147




Captulo XVIII

A CLAREZA E SEUS VRIOS ASPECTOS

	1. Conceituao

	A clareza  a qualidade central de quem fala ou 
escreve. A sua importncia decorre das prprias funes que,
inicialmente, deduzimos como primaciais na linguagem:

	a) possibilitar o pensamento em seu sentido lato;
	b) permitir a comunicao ampla do pensamento assim
	   elaborado.

	Todas as demais qualidades que a retrica, desde os
gregos, enumera na arte da palavra, esto para a clareza
como para uma cpula que coroa e domina o conjunto.
	Assim, a riqueza e a propriedade no emprego dos 
vocbulos se impem pela necessidade do termo adequado
e claro. A correo gramatical nos seus aspectos mais 
profundos  o aproveitamento da experincia tradicional na
formulao clara do pensamento; como o mero respeito s
convenes firmadas, visa, em ltima anlise, a facilitar
a apreenso do leitor ou do ouvinte, sem desviar-lhe a
ateno para uma forma anmala. At uma qualidade 
puramente esttica, como a da harmonia sonora, justifica-se
como o meio de satisfazer quele senso esttico coletivo que
vimos espontneo e inerente nos homens no mbito das
comunicaes lingsticas: sem ela faltar a nossa boa 
vontade em relao ao pensamento exposto, e a formulao
verbal mais clara deixar de o ser para uma ateno 
distrada ou retrada.
	Se agora considerarmos a clareza na base das duas 
funes primaciais da linguagem, vemo-la sob dois grandes
 \148


































aspectos. Uma clareza interna ou mental possibilita o 
pensamento, em seu sentido lato. Uma clareza externa ou 
lingstica permite a comunicao ampla do pensamento assim
elaborado.


	2. A clareza interna.

	A comunicao lingstica e internamente clara, quando 
nela aparece limpidamente o pensamento. A linguagem
pode ento ser comparada a um copo cristalino atravs do
qual se v nitidamente o lquido que o enche. Torna-se um
vidro de perfeita transparncia, e, sem sentir-lhe a 
interposio, recebemos as idias de outrem.
	Assim se estabelece a comunho mental no intercmbio 
lingstico. Podemos dizer que a clareza interna resulta
em como que abolir a presena da linguagem entre o 
pensamento de quem fala ou escreve e a apreenso de quem
o ouve ou o l.
	Ora, a primeira condio para isso  a clareza das
prprias idias por comunicar. Da a verdade profunda do
verso de Boileau j lembrado neste nosso livrinho: "o que
 bem concebido se enuncia claramente".
	Outro poeta francs, o fabulista Florian, deu-nos um
excelente smile da clareza interna na histria do macaco
que passava os quadros de uma lanterna mgica, em pura
perda, diante dos outros bichos perplexos, porque - "<il
n'avait oubli qu'un point: c'tait d'clairer sa lanterne>"
(Fb. 7, liv. II).
	O ato de iluminar a lanterna corresponde  boa 
composio do assunto. Por esse meio, tomamos, para ns 
prprios, a conscincia plena do que pretendemos dizer.  o
trabalho da composio que nos obriga a repensar 
metodicamente o que tnhamos no esprito, mas ainda no 
havamos formulado para ns mesmos.  esse trabalho, portanto, 
um passo indispensvel para bem conceber o pensamento, 
e o conselho de Boileau se executa assim muito 
naturalmente, quando pomos no devido foco e consideramos 
pelos mais variados ngulos as idias que nos bailam no
crebro.
 \149



























	3. A clareza externa

	 preciso, entretanto, concordar que esse conselho s
nos d meia verdade. No leva em conta que um pensamento 
claramente concebido tem tambm de ser claramente
projetado.
	Ora, a projeo se faz com os elementos da lngua. A
clareza externa define-se, portanto, como o aproveitamento
adequado dos meios lingsticos para o fim da comunicao.
Em outros termos,  preciso que utilizemos com mestria e
segurana a linguagem normal.
	Sob este aspecto, a clareza resulta da boa aplicao de
tudo que se aconselha e ensina num curso de lngua materna.
	Da a necessidade da correo em seu sentido mais
lato: na articulao (e, complementarmente, at certo 
na ortografia), na estrutura da frase, no bom emprego das
formas gramaticais e, na sua concordncia, na escolha das
palavras.


	4. As imperfeies da lngua

	Nesse af,  preciso no esquecer, por outro lado, que
uma lngua nunca  instrumento perfeito de comunicao.

	Apresenta recursos de expresso ambguos nos mais 
variados setores.(33)
	As palavras tm, como vimos, mais de um sentido, e
deve haver todo um trabalho, s vezes estrnuo, para bem
delimit-las em cada caso concreto.
	No menos digno de considerao  o carter imperfeito 
de certas formas gramaticais e certos tipos de frase.
	No ser ocioso aqui capitul-lo em alguns itens, que
merecem ateno especial.

	1) A ambigidade do sujeito.

	Conhecemos em portugus o sujeito de uma ao verbal, 
em contraste com o chamado objeto direto (que 
fica ao lado do verbo sem preposio regente) por
dois traos caractersticos:

(33) Cf. as finas observaes de Otto Jespersen a propsito da 
     decantada clareza das lnguas flexionais (<Language, 
     its nature; development and origin>, 
     London 1928. P. 341 ss).
 \150






















	a) a concordncia do verbo com ele em nmero e
	   pessoa;
	b) a sua anteposio ao verbo.

	 bastante que sujeito e complemento sejam do mesmo 
nmero e pessoa (dois substantivos simultaneamente no
singular ou plural) para que o trao caracterstico a) per-
ca a sua eficincia.
	Por outro lado, o trao b)  de vantagem precria, porque 
tambm se admite a preposio do sujeito e a anteposio 
do objeto ao verbo. H uma tendncia  inverso para
fins de nfase; impe-se assim examinar a possibilidade da
conseqente falta de clareza em cada caso concreto, desde
que j no funcione o trao a).

	2) A partcula possessiva da 3 pessoa.

	<Seu> e as correspondentes formas variantes de gnero
e nmero podem, em princpio, referir-se a qualquer ser
j expresso na frase, seja ele sujeito ou complemento, 
esteja no masculino ou no feminino, ou no singular ou no
plural.
	 o que logo ressalta, quando queremos traduzir pelo
nosso possessivo os ingleses <his, her, its, their>, que se 
referem delimitadamente a um s ser masculino, a um s
ser feminino, a um s neutro, e a dois ou mais seres. A
mesma imperfeio da nossa lngua aparece diante de uma
frase latina, onde <suus> e as respectivas variantes s 
remetem ao sujeito da orao.
	A ambigidade foi agravada pela possibilidade de uso
de <seu> para a pessoa a quem nos dirigimos no tratamento de
senhor e equivalentes.

	3) O pronome relativo <que>.

	Representa um substantivo ou pronome que o antecede
imediatamente. Se temos, porm, uma locuo de dois 
substantivos, em que um  adjunto do outro, a referncia pode
ser, em princpio, a qualquer dos dois. Nem sequer uma
possvel diferena de gnero ou nmero entre eles concorre
para a preciso; porquanto a partcula <que>  invarivel.
 \151


























	4) A preposio <de>.

	Pode subordinar tanto um substantivo a outro como
um substantivo a certos verbos.

	5) A partcula <se>.

	Esta partcula pronominal, que se usa junto ao verbo,
pode ser de valor reflexivo ou no. Em outros termos, o
ser que se articula com o verbo em frases desse tipo pode
ter produzido a ao que sofre (<viu-se no espelho>), ou 
apenas sofr-la de um agente desconhecido (<viu-se ao longe um
cavaleiro>).
	A lngua popular reage contra a ambigidade, optando
no segundo caso pela invariabilidade do verbo, o que 
introduz mais clareza quando se trata de um ser plural. Mas
j vimos num captulo anterior que a disciplina gramatical
repele o processo e que convm acat-la para no 
impressionar mal.
	 verdade que nesse segundo caso h o recurso de pospor 
sistematicamente o substantivo ao verbo. , porm, de
si um recurso muito precrio, porque a posposio no est
cristalizada na lngua com tal carter.

	5. Como corrigir a ambigidade

	A prtica da linguagem e o esforo incessante para a
clareza nos podem orientar na boa soluo desses casos e
de outros anlogos.
	Apliquemo-nos, por exemplo,  corrigenda das seguintes 
frases, que ilustram cada um dos itens ambguos acima
enumerados:

	1) "Destruram os avies os canhes antiareos".
	2) "A linguagem desses oradores reflete a sua falta de
	   objetivo".
	3) "Foram projetados foguetes contra cidades inimigas
	   do nosso pas".
	4) "Eis a estratgia fundamental de Napoleo, que todos 
	   ns temos de admirar sem reservas".
 \l52



























	5) "Faltam muitos cavalos que se perderam nos
	   bosques".

	 evidente que o incio enftico da frase 1 pelo verbo
no deve ser mantido, pois no deixa bem claro que o
sujeito so os avies. No perderemos a nfase com a 
anteposio desse sujeito, se dissermos: "Os avies  que 
destruram os canhes antiareos".
	Se na frase 2 a crtica  aos prprios oradores, podemos 
melhor esclarec-lo, jogando a palavra <linguagem> para
depois de enunciao do possessivo: "Esses oradores refletem 
a sua falta de objetivo na prpria linguagem". Em
caso contrrio, diremos, simplesmente, sem o possessivo : "A
linguagem desses oradores reflete falta de objetivo".
	A frase 3  um bom exemplo de como um complemento 
verbal pode dar a impresso de ser adjunto de um substantivo 
a que se segue: "cidades inimigas do nosso pas, porque 
revoltadas ou ocupadas pelo inimigo". A corrigenda 
e noutras construes semelhantes est em transpor o
complemento para junto do verbo: "Foram projetados do
nosso pas foguetes contra cidades inimigas".
	Em referncia  frase 4 a substituio da partcula <que>
por <o qual> (que no feminino  <a qual>) resolve a 
ambigidade, mas com certo prejuzo de graa e leveza do 
enunciado. Desistir da estrutura subordinada parece melhor 
soluo : "Eis a estratgia fundamental de Napoleo, e todos
ns temos de admir-la sem reservas" (ou "... e no h
como no admir-la sem reservas").
	A frase 5 envolve uma interpretao dupla:

	a) os cavalos se extraviaram (valor reflexivo) :
	b) foram perdidos na desorganizao da marcha, na
	   confuso resultante de um ataque etc. Para o 
	   intento a) basta a substituio do verbo : "... que se 
	   extraviaram nos bosques", ou um fortalecimento do seu
	   sentido - "...que se desgarraram e perderam...".
	   O intento b) se compadece mal, neste caso, com a 
	   partcula <se> ou mesmo com a forma francamente 
	   passiva.  melhor dizer, por exemplo: "Faltam muitos
 \153




























	   cavalos, que a coluna expedicionria perdeu nos
	   bosques".

	 importante em todas as circunstncias de 
ambigidade formal no nos deixarmos levar pela tendncia ao
menor esforo, atribuindo aos leitores ou ouvintes o encargo
da interpretao justa. Nenhum expositor tem o direito de
faz-lo. Muito ao contrrio, cabe-lhe o dever de ser 
meridianamente claro, em vez de solicitar uma colaborao 
indevida da inteligncia alheia.
 \154

CONCLUSO GERAL

	Se a clareza, em seu sentido lato,  a cpula das nossas
consideraes sobre a Expresso Oral e Escrita, podemos dar
por concludo nosso trabalho.
	Atravs dele procurou-se apreciar os mltiplos e 
complexos aspectos sob que se apresenta o uso da linguagem.
	Vimos o que se deve entender por boa linguagem e que
ela no se resume na mera correo gramatical. 
Compreendemos como esta ltima , at certo ponto, um conceito
relativo e como se enquadra na finalidade ampla da 
comunicao lingstica. Aprendemos a distinguir entre os 
caracteres prprios da exposio oral e os da exposio escrita.
Analisamos a estrutura da frase e as condies da formulao 
verbal. Recordamos a traos largos a disciplina gramatical 
vigente, a funo significativa das palavras no emprego 
prprio e figurado. E chegamos  questo central da
clareza lingstica.
	A melhor lio, porm, que se deve destacar de todo
este estudo  talvez a da importncia da linguagem como
parte integrante da nossa pessoa.

	Os antigos poetas de corte compraziam-se em desenvolver 
seus versos na base de uma frase-mote que lhes era
proposta. Estas pginas tambm podem ser consideradas 
desenvolvimento de um mote, e vamos busc-lo nos Ensaios
de Emerson (cit., p.220):

	"O homem  apenas metade de si mesmo; a outra
metade  a sua expresso.
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